Foi na quarta-feira de cinzas que reencontrei minha velha caixinha de recordações. Daquelas que a gente constrói em casa, usando papelão de outras caixas, papel de presente e até uns pedaços de renda para compor um certo ar de romantismo, naquele tempo em que se começa a supeitar de que a caixa da memória não será suficientemente boa para guardar tanta lembrança. E então a quarta-feira de cinzas foi tão longa que alcançou o domingo. A caixinha, descorada e torta, incorporou o longo tempo de minha ausência, e o tempo alongou a emoção do reencontro.
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Pois neste domingo de cinzas eu continuo com a caixa aberta e faço a mim a contundente promessa de nunca mais fechá-la. Nunca mais ficarei longe da fotografia da menina de poncho verde e botinhas de camurça, cujas mãos na cintura dizem tanto quanto o olhar confiante de quem acredita que será capaz de conquistar todos os amores.
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Quero reler todos os dias as cartas escritas em folhas de caderno, principalmente aquela que no post-scriptum diz Meu bem, tu és todo o mal da minha vida, trazida pelo carteiro ao portão dos 18 anos. Quero falar alto os poemas inacabados, rabiscados nas capas dos livros, e com eles voltar a sonhar, como o poeta que se esquece enfim que vai morrer e se distrai a construir castelos. A cada dia vou rever as pétalas da flor herdada de não sei quem, que secaram para sempre na página 88, entre o final da crônica Sobre o Amor e o início da Sobre o Inferno, de um livro de Rubem Braga.
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Vou carregar no bolso velhos papéis com a receita para chamar a chuva, com a descrição juvenil de um amanhecer que se perdeu no tempo da maneira mais distraída, e a pequena pedra onde a ferro e fogo meu primeiro amor escreveu meu nome. Para nunca mais esquecer quem fui, quem sou.


















