sexta-feira, 29 de fevereiro de 2008

De Andréa Del Fuego

Não troco os lençóis há dois meses, e acho pouco. Dispensei todo pano entre mim e o colchão, a não ser que você traga uma toalha de mesa bem chacoalhada na varanda, sem migalha de vagabundo.
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O cabelo da mulher é a raíz da árvore. O caule é pensamento, as flores o desentendimento entre o fruto e a atrofia. O homem passa a vida querendo desenterrar a cabeça da mulher. Por nascer de uma, sua cruzada é perigosa e superior. Por isso me protejo.
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Cuidaremos nós dois de sua vida. Eu entro com a vontade, você com a preguiça. Assim tenho tempo de fazer minhas coisas enquanto intuo as suas. Vejo lucro, abarcar dois raciocínios sai caro, mas você não está aqui de graça.
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Selton Mello me ignora, e daí? Homens mais magros já me cortejaram, nem por isso correspondi. Seleciono quem me escolherá, só não decoro a idade dos janotas. Não desisto por menos de dois foras, rejeição se configura na quinta ou sexta negativa.
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A pressão sanguínea é baixa, onze por sete, de modo que suporto emoções a ponto de mantê-las latentes. Cubro qualquer oferta pela tua explosão, o borrifo de saliva no papel de parede. A roupa de baixo é solúvel, uso tatuagem de chiclete.
Ilustração do cabeçalho: Ray Caesar

Um comentário:

Maria Rojanski disse...

Acho que Andréa Del Fuego promete. Na literatura, na escrita feminina. Além do mais, mesmo que isso não venha ao caso, ela é charmosíssima.
A seleção dos textos está ótima, mãe. Um beijo