domingo, 12 de outubro de 2008

O marinheiro perdido

Hoje é também dia do mar. Um bom momento para publicar este conto tirado de um antigo blog que foi para sempre para o arquivo morto.

Fazia cem dias que o marinheiro extraviado vagava pela praia, fazendo nas tardes o mesmo percurso das manhãs e falando sempre com as mesmas pessoas que jamais entendiam sua língua. Perdera a partida do cargueiro de uma pátria que não era a sua, que de retorno aos seus portos o deixara para trás, perdido entre garrafas, entre companhias ignóbeis e as lembranças da mulher amada. Em troca do trabalho nos guindastes, davam-lhe pão e cachaça. Dos bêbados tornou-se amigo leal e era visto nas madrugadas chorando abraçado às putas que se trocavam pelas mais vulgares ervas. Eram dele os gritos que se ouviam na quase manhã, quando antes que o sol surgisse ele clamava que o dia lhe trouxesse de volta o navio que na verdade só viria no ano seguinte. Fazia cem dias que o marinheiro extraviado vagava inútil entre as carcaças dos navios quando se ouviu seu grito pela última vez, no instante em que se jogou ao mar do alto da mais alta rocha, com a fotografia de uma mulher russa tão linda quanto o sol da meia-noite. Quem ouviu o grito pensou que ele se revoltava ainda uma vez contra a própria sorte, e nunca soube que ele dizia eu te amo na língua de sua Narkissa.

2 comentários:

Fábio Luis Neves disse...

Muito bom! Em um conto de pequena extensão encontramos digressão, sumário, uma história contada com linearidade, pureza, e uma temática que entrelaça a vida humana com relações em torno da profundidade que cada língua pode causar.

Luli, andei confuso, meio desligado e sobrecarregado pela vida capital, por isso deixei por um tempinho de me deleitar em suas narrativas poéticas. Recomposto do erro (ver posts abaixo),volto a ser o primeiro da lista. O que confesso: é muito melhor! beijos!

lulih rojanski disse...

Querido Fábio, ler 16 comentários seus numa só pegada foi tão inesperado quanto prazeroso. Leitores como você, sensíveis, atenciosos e amantes da literatura são sempre muito bem-vindos. Nem sempre a gente consegue agradar a todos com o que escreve, mas é isto que instiga a procurar novos temas, embora a maneira de escrever seja a mesma. Você estava mesmo fazendo falta. As portas estão abertas para as suas visitas, assim como as janelas que nos põem em relação direta e fulminante com o infinito. Seja sempre bem-vindo. Um grande abraço. Outro dia eu explico o h no meu nome.