quarta-feira, 22 de outubro de 2008

Olga

Série: PANDORA Ilustrações: telas de Modigliani

Pandora é a mulher mitológica criada por Zeus para castigar os homens pela ousadia de Prometeu em roubar dos céus o segredo do fogo. Zeus deu a Pandora uma caixa, cujo conteúdo eram os males que passariam a atingir a humanidade: a velhice, o trabalho, a doença, a loucura, a mentira e a paixão. Depois de aberta, somente a esperança ficou no fundo da caixa.
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Olga colheu a velhice da caixa de Pandora...
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Fui muda até os sete anos, porque a única pessoa com quem podia falar, num rincão dos pampas gaúchos, era minha mãe, que me trazia no ventre e que ficou muda quando recebeu a notícia de que meu pai tinha morrido num confronto da Coluna Prestes com a ditadura do Getúlio. Faz tempo. E era bem mentira. Meu pai estava vivo e feliz em Porto Alegre, vivendo com uma china que conheceu durante o recrutamento dos homens que iam subir o Brasil com o Prestes. Quando soube, anos depois, minha mãe, que estava muda da boca, ficou muda também dos braços e das pernas e logo morreu. Mas era tarde pra mudar meu nome. Apesar da mágoa de minha mãe pela revolução, fiquei Olga. Fui morar então com uma tia que vivia num pinhal do Paraná, e que também era quieta como um pinheiro. O que eu sabia bem quando cheguei ao pinhal era imitar os bichos: porco, galinha, cabra. Imito até hoje. Estou pertinho dos oitenta, mas o maior medo da minha vida não é o de morrer daqui a pouco, é o de ficar muda de verdade.
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5 comentários:

Orivaldo Fonseca disse...

Que lindo,lindo, lindo! Fiquei balbuciando isso enquanto esquecia de respirar.
Que lindo, lindo, lindo!

Luiz Felipe Leal disse...

lulih, que bom ouvir o que disse.

suas histórias também possuem tamanha sensibilidade que vi nesta um medo meu. tenho medo de emudecer nesta 'eterna esperança que se adia'.

estamos aí, grande abraço.
e prazer.

maria disse...

Já tô adorando muito-muito a série. Um beijo, minha flor.

julio miragaia disse...

muito lindo mesmo. muito sensível. e coberto de uma naturalidade tão grande o personagem, a forma como diz.

nai ara disse...

pois então: teu blog é a ponte que me traz notícias de ti, né, moçoila?
quero saber como foi que a gente te deixou escapar pela porta da frente apenas deixando um aviso no mural da copa... ainda não me perdoo por isso ¬¬

anyway: melhor saber que andas escrevendo muito, com essa simplicidade q invejo tanto a ponto d que se tentasse imitar, não ficaria tão natural quanto em ti.
é agradável. todas as vezes que leio lulih rojanski, ouço canto de passarinho e sinto cheiro de flor. até quando as estações da alma não são tão alegres assim, afinal, até os pardais cinzentos cantam! até o cravo de defunto tem cor u.u

saudade, moça do vestido de flor!