quarta-feira, 17 de setembro de 2008

Papillon


Série Breves Contos


Ilustrado com tela de René Magritte


Tirou dos pés os sapatos e tocou a transpor o campo indivisível de florezinhas púrpuras na beira de um rio azul da França, a alma insustentável dentro do corpinho impúbere, do vestido bordado em borboletas sobre o fundo branco. Desejou ser pássaro, vento, beija-flor safira que percorresse o campo numa velocidade vertiginosa e a leveza de um coração de quatro gramas, ao encontro da mansa chuva de pedras preciosas que havia depois do arco-íris. Com seu olhar de beija-flor em vôo, viu os roedores que subiam árvores à sua passagem, pares de asas surreais sumindo no horizonte como miragens, viu as flores novas brotando entre as antigas, e ao abaixar-se para apanhá-las, viu os próprios seios nascidos na última manhã. Mas não viu o bando de borboletas que a perseguia desde a partida, voejando entre as violetas o seu tempo de reprodução, a sua fome de flor e seu errante destino. Transpunha o último arbusto, pensando em retomar a viagem ao arco-íris na próxima manhã, e mal percebeu – beija-flor projetando o vôo em três direções – a revoada das borboletas que alçaram vôo de seu vestido para juntar-se à onda incólume de borboletas que viajava rumo ao fim das fronteiras. De vestido agora branco, a alma insustentável e o coração de beija-flor em repouso, tocou a transpor de volta o campo indivisível de florezinhas púrpuras, à beira de um rio azul da França.
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5 comentários:

Maria disse...

Falando em borboletas (e em sonho, e em fantasia, e em delírio...), adivinha só qual livro será o próximo a ser discutido no círculo de leitura aqui na universidade na semana que vem?
Cem anos de solidão.
Tô adorando a sére. Um cheiro, minha flor. Te amo.

maria disse...

Errata: quis dizer série...

lulih rojanski disse...

Maria, há uma infinidade de borboletas que vieram passar uma temporada em Macapá. Estão por toda parte e se exibem tanto que parcem saber do nosso deslumbramento por elas. Quem escreve, esta semana escreveu sobre elas. No blog do Pepê Mattos, por exemplo, tem um poema lindo. Além de Cem anos de Solidão, as borboletas me lembram Papillon, do Henri Charrierre, e O Colecionador, de John Fowles. Um beijo.

julio miragaia disse...

luli, to com um bloguezito novo. dá uma olhada. é só com artigos. www.oprecipiciodevossasgargantas.blogspot.com

Fábio Luis Neves disse...

Eu sou um amante da série Breves Contos!
Ah que bom que esclareceu o título "Papillon", não tinha conseguido estabelecer relações.
Que texto livre, leve, parece suspender o ar! Faz uma força de publicar essa série Luli, vai dar o que falar, viu?
Ah, parabéns pela escolha das imagens também, elas ilustram bem os contos e deixam o blog mais atraente e belo aos nossos olhos.