domingo, 1 de março de 2009

Entre cinzas

Foi na quarta-feira de cinzas que reencontrei minha velha caixinha de recordações. Daquelas que a gente constrói em casa, usando papelão de outras caixas, papel de presente e até uns pedaços de renda para compor um certo ar de romantismo, naquele tempo em que se começa a supeitar de que a caixa da memória não será suficientemente boa para guardar tanta lembrança. E então a quarta-feira de cinzas foi tão longa que alcançou o domingo. A caixinha, descorada e torta, incorporou o longo tempo de minha ausência, e o tempo alongou a emoção do reencontro.
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Pois neste domingo de cinzas eu continuo com a caixa aberta e faço a mim a contundente promessa de nunca mais fechá-la. Nunca mais ficarei longe da fotografia da menina de poncho verde e botinhas de camurça, cujas mãos na cintura dizem tanto quanto o olhar confiante de quem acredita que será capaz de conquistar todos os amores.
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Quero reler todos os dias as cartas escritas em folhas de caderno, principalmente aquela que no post-scriptum diz Meu bem, tu és todo o mal da minha vida, trazida pelo carteiro ao portão dos 18 anos. Quero falar alto os poemas inacabados, rabiscados nas capas dos livros, e com eles voltar a sonhar, como o poeta que se esquece enfim que vai morrer e se distrai a construir castelos. A cada dia vou rever as pétalas da flor herdada de não sei quem, que secaram para sempre na página 88, entre o final da crônica Sobre o Amor e o início da Sobre o Inferno, de um livro de Rubem Braga.
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Vou carregar no bolso velhos papéis com a receita para chamar a chuva, com a descrição juvenil de um amanhecer que se perdeu no tempo da maneira mais distraída, e a pequena pedra onde a ferro e fogo meu primeiro amor escreveu meu nome. Para nunca mais esquecer quem fui, quem sou.

7 comentários:

Lulih Rojanski disse...

Caros, obrigada a todos os que contribuíram para que eu tivesse um carnaval mais feliz, respondendo às minhas perguntas. Capitu continuará sendo um enigma, o Mestre dos Magos uma desilusão, e a palavra usucapião - feminina, pasmem! - um eterno susto. Quanto à tartaruga de óculos, parece que foi uma pergunta difícil, ou não temos lido muito as revistinhas do Cebolinha. Beijos a todos.

Araciara Macedo disse...

Amiga querida, na nossa idade as caixinhas precisamos lembrar constantemente de abrir nossas caixinhas de lembranças, faz bem ao ego, faz bem a alma. Faço isso vez em quando para lembrar quem fui, quem sou e em quem me transformarei.
e, só para lembrar o nome da tartaruga de oculos é tarugo, personagem criado em 1970.

maria disse...

Que linda essa menina de poncho verde e botinhas de camurça, cujas mãos na cintura dizem tanto quanto o olhar confiante de quem acredita que será capaz de conquistar todos os amores.
O texto é bem reflexivo, e você é linda, mamãe.
Beijos e saudade.

Sunshine disse...

Lulih, aposto que na caixinha também tem um diário, um caderno de perguntas e um coração de papel veludo vermelho que se abre em dois!!

bete disse...

Oi Lulih, eu estava devendo a mim mesma incluir você na minha lista de "padeiros", hoje estou consertando essa minha falha.

Agora consegui entrar aqui, creio que minha conexão estava ruim.

Acabo de falar ao telefone com um amigo, e não é que a conversa foi meio por aí? cultivar os pensamentos mais íntimos, silenciar para ouvir a nossa voz melhor...

Vai sair muita coisa boa de sua caixinha, vai sim.

Ernâni Motta disse...

Luli, as caixinhas, no meu tempo, eram próprias das meninas, porqunto nós homens não nos deixávamos "contaminar" pelo romantismo. Embora, alguns chorassem escondidos! Alguém lembrou do diário, e eu lembrei do cadernos de recordações, onde nossas amigas pediam que deixávamos os nossos depoimentos para posteridade. Você deve ter tido um. E como escrevi naqueles cadernos...
Quanto à palavra "usucapião", escrevi que é masculino, mas houve que dissesse que é feminino. Então, me empolguei, e voltei ao dicionário do Houaiss para tirar as dúvidas. E lá diz que "usucapião" é substantivo de dois gêneros. Acho que agora podemos colocar um ponto final nessa "fita banana", como a gente chamava antigamente essas discussões... rsrs.
Um grande abraço.
Ah! Como já lhe respondi, no meu blog, vi diversas vezes a Banda passar, pelas ruas de Macapá, nos bons e velhos tempos...

aline disse...

A diferença da nova caixinha é que ela é "nova" e com espaço para novidades,sem qualquer tipo de lembrança.Se isso te agrada,fico feliz!A caixinha é pequena diante do significado que representa!Desejo que quando o tempo passar e eu tiver velhinha,eu possa ter na lembrança de minha juventude as tuas palavras ou ao menos o teu olhar vibrante!
Vc me encanta lulih!