sábado, 23 de agosto de 2008

Sobre o Velho Graça


Uma das minhas grandes admirações se chama Graciliano Ramos. Li Infância, Insônia, Vidas Secas, São Bernardo e Memórias do Cárcere. E depois de Angústia, passei muito tempo sem querer ler mais nada. Achava que nenhuma literatura além daquela valia a pena. Queria morrer. Queria nunca mais escrever. E ao mesmo tempo queria afundar nas páginas do livro e misturar meu sangue à literatura tão perfeita. Os solilóquios íntimos de Luis da Silva tiveram efeito catastrófico sobre minha existência. A crise passou, mas minha admiração pelo Velho Graça continua intocada. Tenho em casa uma brochura da Coleção Brasiliana, da Editora Duetto, com os “Relatórios do Prefeito de Palmeira dos Índios”, uma verdadeira raridade, com textos que marcaram o início da carreira literária do escritor. Sim... é preciso ser muito bom pra conseguir encantar com o texto de um relatório oficial! Graciliano foi prefeito de Palmeira dos Índios, em Alagoas, no final da década de 1920. Durante seu mandato, enviou ao governador do Estado dois relatórios de prestação de contas, escritos da maneira mais inusitada para um texto oficial. Entenda bem: até como prefeito Graciliano foi um formidável escritor! Fragmentos do relatório:

O início da administração
“Havia em Palmeira inúmeros prefeitos: os cobradores de impostos, o Comandante do Destacamento, os soldados, outros que desejassem administrar. (...) Os fiscais, esses, resolviam questões de polícia e advogavam. Para que semelhante anomalia desaparecesse, lutei com tenacidade e encontrei obstáculos dentro da prefeitura e fora dela – dentro, uma resistência mole, suave, de algodão em rama; fora, uma campanha sorna, oblíqua, carregada de bílis. Pensavam uns que tudo ia bem nas mãos de Nosso Senhor, que administra melhor do que todos nós; outros me davam três meses para levar um tiro.”

Iluminação pública
“A Prefeitura foi intrujada quando, em 1920, aqui se firmou um contrato para fornecimento de luz. Apesar de ser um negócio referente à claridade, julgo que assinaram aquilo às escuras. É um bluff. Pagamos até a luz que a lua nos dá.”

Telegramas
“De ordinário vai para eles dinheiro considerável. (...) Porque se derrubou a Bastilha – um telegrama; porque se deitou uma pedra na rua – um telegrama; porque o deputado F. esticou a canela – um telegrama. Dispêndio inútil. Toda a gente sabe que isto por aqui vai bem, que o deputado morreu, que nós choramos e que em 1559 D. Pero Sardinha foi comido pelos caetés.”

Conclusão
“(...) Não favoreci ninguém. Devo ter cometido numerosos disparates. Todos os meus erros, porém, foram da inteligência, que é fraca. Perdi vários amigos, ou indivíduos que possam ter semelhante nome. Não me fizeram falta. Há descontentamento. Se a minha estada na Prefeitura por estes dois anos dependesse de um plebiscito, talvez eu não obtivesse 10 votos. Paz e prosperidade.”

“Palmeira dos Índios, 10 de janeiro de 1929.”

6 comentários:

Maria disse...

Que interessante. Eu tinha esquecido disso. Havia comentado comigo alguma coisa, sobre o Graciliano ter sido prefeito, mas nunca tinha tido contato com os textos. São realmente diferentes (pra um prefeito). Que coisa, ahn? Como é que a gente ia imaginar... A propósito, eu não imaginava que essas coisas andavam aí por casa, também. Vou querer conhecer.
Um beijo, mãezinha.

Anônimo disse...

Muito interessante mesmo! Estou na internet pesquisando sobre Vidas Secas para o meu Trabalho de Conclusão de Curso, e me deparo com esse site. Estava procurando sobre o livro "O velho Graça", para me aprofundar um pouco mais sobre o autor.
Visitarei sempre este espaço precioso.Parabéns!!!
bjss
Vera Ramos

Anônimo disse...

continuando....
foi um presente para mim.....23/08 é dia do meu aniversário...
Vera Ramos

Fábio Luis Neves disse...

Graciliano Ramos também é um dos meus escritores favoritos, também li todos esses livros dele, com excessão apenas de Memórias do Cárcere, que comecei e não terminei.
O fato dele ter sido prefeito intriga muito mesmo. E pra mim era claro que, genial na escrita como ele era, sua análise acerca do espaço político municipal seria diferenciada.
Você escreve muito bem Luli e vejo que suas influências literárias correspodem com isso. Eu que não sou besta vou lendo esses autores também, esperando um dia escrever como você e eles.

CrisBiagio disse...

Estou encantada com suas palavras, afinal, é tão difícil ver o amor a um escritor declarado de forma tão bonita. Achei muito interessante a maneira como os relatórios foram feitos. Com certeza, valeu a pena ter entrado em seu blog.
Maria Cristina

Anônimo disse...

Obrigado por Blog intiresny