Ave, Palavra!
terça-feira, 29 de junho de 2010
Último conto da estação
segunda-feira, 21 de junho de 2010
Stephen in the sky
Dizem por aí que escritor que se preze tem um gato. Um gato que se deita sobre a folha de papel que espera apenas o deitar da palavra. Eu sei que parece história inventada (eufemismo para mentira) mas já tive 15 gatos em casa. De uma vez só. E aqui começa a história de Stephen Fry.
Maria trouxe do colégio um filhote de gato preto. Trouxe-o porque o encontrou vagando pelos corredores, atônito, sem saber em que série estudava. Trouxe-o debaixo do braço. De ônibus.
O gato preto foi recebido com carnaval em casa e passou a se chamar Gato Preto, embora tenhamos logo percebido que se tratava de uma fêmea – que enquanto viveu, procriou três vezes e deixou várias herdeiras. Não é preciso dizer que por essa época ficamos impedidas de receber visitas. Havia gatos morando no sofá. Rasgando o sofá. Mijando no sofá. Gatos de todas as cores possíveis, porque a Gato Preto fazia dessas cachorradas de variar os parceiros.
Foi quando percebi que não mandava mais em minha própria casa – os gatos já dormiam em minha rede, trocavam o canal na hora da novela e usavam meu hidratante – que comecei a doar gatos. Pra quem não aceitava logo, eu dava o gato mais uma nota de 20. Alguns foram assassinados pelo vizinho, que todas as noites se armava de uma cerca elétrica.
Dos 15, sobrou Stephen Fry. Sobrou porque foi devolvido por uma das pessoas que aceitaram a doação. Voltou para casa magro, triste, sem a nota de 20, e se tornou o gato mais importante da história da minha vida. Era branco e cinza, e tinha – creia, por favor – os olhos de Brad Pitt. Foi o maior cafajeste de sua geração em nosso bairro. Não havia gata que resistisse ao seu charme e gato que não lhe quisesse partir a cara. Mas foi também a criatura mais doce da família, capaz de me fazer carinho nos cabelos na hora da sesta – que ele não abria mão de tirar comigo.
Sophia, a poodle, nutria por ele uma paixão desesperada. Por que não? Até onde se via, o mundo deles era o mesmo. Tico-Lyn, o marido da poodle, olhava como se nem fosse com ele. Stephen aceitava, e talvez até correspondesse àquele amor. Libertário, fingia cochilar sobre um livro aberto do Roberto Freire: Ame e dê vexame. Cada dia num capítulo diferente.
Suas sete vidas duraram quatro anos. Faz um que ele foi rasgar sofá no paraíso. Hoje, logo que acordei, bateram à porta. Fui abrir e dei de cara com a saudade de Stephen. Está aqui até agora, tomando café comigo num copinho de geleia.
Sou uma escritora órfã de gato. Todos os dias pratico a escrita, a leitura e a saudade. Às vezes choro pelos meus 15 gatos e por outras razões. Mas são por Stephen Fry as minhas lágrimas mais honestas.
terça-feira, 8 de junho de 2010
Naquele tempo
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Naquele tempo (disse Jesus aos seus discípulos...). Eu tinha a maior vontade de começar um texto assim, com esta expressão e com estes parênteses, tinha medo de fazer imitação barata de Mario Prata. Agora já fiz e está feito. Mário Prata nem vai ficar sabendo, esse mundo é muito grande. Enfim, naquele tempo, eu era consumida pela vontade de conversar sobre as coisas que lia, sobre as coisas que escrevia... Queimava-me o desejo de abrir o livro que estava lendo, e ler trechos em voz alta para o meu interlocutor, ao que ele poderia dizer puxa vida, que lindo, de onde esse cara foi buscar inspiração pra escrever uma coisa tão louca?... Você não acha que ele pode ter sofrido a influência do fulano de tal ou ter sido tocado pelo movimento tal? E eu, morta de feliz, responderia.
Ou então imprimir um texto fresco, recém-saído da alma pendurada nas pontas dos dedos que o digitaram, e mostrar a alguém que pudesse dizer ao menos eu, hein... que coisa piegas... você já escreveu coisas melhores. Talvez fosse chato ouvir. Mas não tanto quanto jamais receber a opinião.
Utilizei os mais óbvios e os mais inusitados recursos na tentativa de captura de um interlocutor que me satisfizesse esse ardente desejo. E nesse percurso desatinado, encontrei tipos com desejos bem mais estranhos que os meus. Um deles desejava apenas olhar para a lua com a atenção de um astronauta enquanto eu me enredava em impressões sobre as publicações digitais. Outro desviava sempre o assunto para um sonho que lhe era recorrente desde a infância. Um outro ainda apenas fumava, em silêncio, olhando sorrateiramente pelo espelho o jogo de futebol na televisão às suas costas. Eu poderia abrir aqui um breve parágrafo para singulares exceções. Mas não. As exceções me compreendem, porque afinal são exceções.
Aquele tempo passou, porque o tempo, o mais disciplinado dos fenômenos (blablablá...), cumpre sua obrigação de passar, aconteça o que acontecer. E eu sinto muito por ter descoberto, à custa de muito empenho de meus eventuais interlocutores – que passaram vidas tentando me mostrar – o que era evidente desde o princípio: eu sou uma grande chata. Meu vício em literatura é incurável. Eu realmente lamento... Enfio a viola – ou o livro, a folha avulsa, o manuscrito – no saco e saio de cena de mansinho, se o papo não está agradando. Mas naquela vontade nada põe rédeas. Nem a viagem do tempo.
sexta-feira, 4 de junho de 2010
Petite danseuse*
Da série Breves Contos
Para Aline
Antes de desaparecer, a pequena bailarina ainda foi vista numa lufada branca de brisa, no gás azulzinho dos cirrus, num raio lilás do sol, rodopiando num perfeito pas de deux¹ com um anjo celestial de seis asas – um serafim. Dizem que nunca fora tão bela como naquela aura de alvura e tules derramada na amplidão. E dizem também que o serafim, apaixonado por seu detourné² e atrapalhado com tantas asas, enredou-se numa nuvem, enquanto ela subia, no mais harmonioso grand plié³, ao último limite do céu. Depois, e para sempre, ainda que os céus se misturassem com a terra, confundindo anjos com pobres mortais, abrindo caminhos entre nuvens de madrepérola para o vaivém dos pássaros e a ciranda das estrelas em plena pátria do ballet, somente ao olhar divino foi permitido testemunhar a dança da petite danseuse.
*Pequena bailarina
1, 2 e 3 – Passos do ballet clássico
quarta-feira, 2 de junho de 2010
O ponto final de Wilson Bueno
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Quando um escritor morre, coloca o ponto final – definitivo – em sua obra. Mas por maior que seja a obra, sempre me causará impressão maior ainda a sua morte – esse mistério sem tempo, sem idade, sem destino certo. Assim estou hoje, impressionada e triste com o ponto final do escritor Wilson Bueno. Um ponto vermelho, escrito a sangue. O escritor paranaense, assassinado em Curitiba no dia 31, faz parte de uma geração de escritores que enriqueceram ainda mais a literatura brasileira (como Paulo Leminski e Manoel Carlos Karam), e muito certamente terá levado com ele a inigualável irreverência da linguagem. Dele li apenas um livro, Cachorros do céu, e devo dizer que logo percebi o quanto Bueno arriscava na escrita. Sua prosa é fundamentalmente inventiva.
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Wilson Bueno tem livros publicados no Chile, Cuba, México, Argentina e EUA, como A copista de Kafka, Amar-te a ti nem sei se com carícias e Cachorros do céu. Deixou pronto Mano, a noite está velha, ainda sem data para publicação, e deixou triste minha Maria, que tem como tema de sua pesquisa de mestrado a vida e a obra do escritor. Agora Maria tem também o seu ponto final definitivo para estudar. Espero que a partir dele, possa inventar palavras que traduzam a grandeza de Wilson Bueno.
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segunda-feira, 31 de maio de 2010
Hoax
quarta-feira, 26 de maio de 2010
Antes que eu me esqueça...
- Estou pensando em embarcar numa viagem mística para a Índia...
- Um filme para rever sempre: Diários de Motocicleta, de Walter Salles. Gael Garcia Bernal não tem cara de Che, mas convence porque é um excelente ator. Além de emocionante, o filme é engraçado. Próprio para os finais de semana em que não se quer ver nem a própria cara. Um filme para ver uma vez só: O Quarto Verde (La Chambre Verte), de François Truffaut, que antes de fazer o filme ouviu uma música do Zeca Baleiro e gostou particularmente de um verso que diz é mais fácil cultuar os mortos que os vivos. O filme, de 1978, é esquisito. Quer uma opinião mais refinada, afinada sobre os filmes? Não é aqui. É no blog Dicionários de Cinema (blogspot).
- ...ou ficar por aqui e me iniciar no Daime...
- Do Prêmio Sesc de Literatura 2010, categorias Conto e Romance, não podem participar autores que já possuam publicações nestas categorias.
segunda-feira, 24 de maio de 2010
Viagem insólita
segunda-feira, 17 de maio de 2010
Se bem me lembro...
Naquele dia voltei da escola mais cedo, fugindo de uma ameaça de morte durante o recreio. O menino que me prometera um soco no estômago para a hora da saída era o mesmo que quebrava as vidraças da escola a pedradas, que assaltava os que possuíam lanche, que não gostava de ser olhado de frente – e este foi o meu delito. Voltei pra casa pela sombra das paineiras das alamedas desertas de Salto Santiago, colhendo furtivamente dos quintais alheios folhinhas de hortelã para o chá da tarde.
Como me lembro disso? Todos os dias de dezembro eram formidáveis na primeira infância. Todos eram como a véspera do Natal e em todos eles havia a promessa da primeira bicicleta. Eu sempre voltava da escola pela sombra das paineiras, sempre furtava folhas para o chá e era constantemente ameaçada pelo menino louco.
Pois na manhã em que Clarice morreu não foi diferente. Havia sol, havia vento, e havia uma paisagem magnífica enlaçando meus ombros. Não sei como, mas neste tempo improvável eu já sabia que a paisagem sempre transcenderia o que se olha. Não tinha a menor noção do que acontecia no resto do mundo – e o resto do mundo era o que sobrava depois do meu, mas já colhia daquelas caminhadas solitárias sentimentos que não tinham nome.
Soube do fim de Clarice um tempo depois, e ele não me chegou a ter importância, pois só lhe conhecia o nome, não podia ainda lhe compreender a alma. Também tempos mais tarde o menino louco me acertou o estômago, num dia cerúleo em que eu colhia a felicidade clandestina de furtar mudas de manjericão. Levei outros socos ao longo de outros caminhos e um dia consegui dar nome aos sentimentos que povoavam as caminhadas dos meus sete anos, mas nunca deixei de olhar ninguém de frente. Precisei, porém, conhecer Lunardi*, 32 anos depois da morte de Clarice, para entender, finalmente, que naquele tempo, embora pálida e avoada, eu já pertencia à Ordem dos Corações Selvagens.
*Adriana Lunardi é escritora, autora do livro Vésperas, entre outros tão belos quanto.
quinta-feira, 13 de maio de 2010
Assassinos sem lágrimas
quinta-feira, 6 de maio de 2010
Crônica pra cachorro
Eu nunca passo por um cachorro sem cumprimentá-lo. Reconheço em todos extrema simpatia, por mais ferozes que possam parecer ou por mais medonhas que sejam as piras dos abandonados. Quanto a certas pessoas, não me lembro de onde conheço, se ao menos conheço, por mais interessantes que possam parecer. A dúvida toma tempo, passo em frente... tarde demais pra cumprimentar.
Se eu tivesse nascido cachorro, seria um cachorro que comeria massas. Se não me dessem massas, seria um cachorro infeliz. Se tivesse nascido cachorro, gostaria de me chamar Lilih, com toda a doçura desta sonoridade e com toda a frescura que o h lhe empresta. Se me dessem o nome de Bolinha, seria um cachorro rebelde, onde já se viu, do alto de minha superioridade de cachorro manso, livre e levemente taciturno, me chamar Bolinha... Dormiria em folhas secas e ficaria olhando os navios no cais, com vontade de partir. Seria um cachorro pensativo sobre os nadas que garantem a possibilidade de filosofar sobre a vida.
Sem dúvida, em alguma encarnação perdida por aí, eu fui cachorro. Embora gostasse mais de ter sido um gato seráfico e esquisito, um gato de todo encantamento e de inaudito miado brando*, um gato com postura de esfinge, em cujos olhos fosforescentes um chinês pudesse ver as horas, e que preenchesse de elegância e enigmas os versos de Baudelaire.
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*Do poema O Gato, de Baudelaire (que amava os gatos).
terça-feira, 4 de maio de 2010
Minha casa
É mais fácil cultuar os mortos que os vivos
mais fácil viver de sombras que de sóis
é mais fácil mimeografar o passado
que imprimir o futuro
Não quero ser triste
como o poeta que envelhece
lendo maiakóvski na loja de conveniência
não quero ser alegre
como o cão que sai a passear
com o seu dono alegre
sob o sol de domingo
nem quero ser estanque
como quem constrói estradas e não anda
Quero no escuro
como um cego tatear estrelas distraídas
amoras silvestres no passeio público
amores secretos debaixo dos guarda-chuvas
tempestades que não param
pára-raios quem não tem
mesmo que não venha o trem não posso parar
Vejo o mundo passar como passa
uma escola de samba que atravessa
pergunto onde estão teus tamborins
pergunto onde estão teus tamborins
sentado na porta de minha casa
a mesma e única casa
a casa onde eu sempre morei
sexta-feira, 30 de abril de 2010
Pra fazer barcos de papel...
.Notícia transmitida por minha mãe, que mora em uma cidade pedaço de floresta na margem da rodovia Cuiabá-Santarém, no Pará: minha filha, você nem sabe... chegou o celular por aqui!
.Notícia de minha Maria, que mora em São José do Rio Preto, em São Paulo: “Mãe, ontem foi uma segunda-feira de arromba! Foi o lançamento do cineclube que estamos organizando aqui na Unesp, e o evento nos deu muito orgulho. Tivemos palestra sobre a história do cinema num auditório super chique, que eu não conhecia, e exibição de curtas e cenas clássicas de filmes em telão, coquetel com comidas que eu e minhas amigas do curso de Letras preparamos, sarau com direito à música ao vivo, cerveja de graça (pra nós, que trabalhamos)... foi um arraso! Eu até cantei, com um amigo me acompanhando, mais um baixista. O som estava péssimo, mas a galera, que também não era muita gente, gostou muito. Enfim, foi uma segunda-feira histórica.”
.Comemorei meu aniversário no cinema, assistindo ao filme Chico Xavier. Foi bonita a festa, pá. Fiquei contente.
quarta-feira, 28 de abril de 2010
A quem interessar possa...
.Se alguém tiver um livro do Roberto Bolaño, por favor, me empreste! Qualquer um serve. E eu juro que devolvo.
.Quinta-feira passada almocei no Mercado Central de Macapá. Poderia até dizer que foi uma coisa ímpar, se eu não pretendesse almoçar lá de novo. Então foi bacana, massa, foi lindo! Pedi um prato de peixe e me sentei à mesa com dois engraxates de Fazendinha: Cleiton e Claudiomar, de 13 e 14 anos. Conversamos sobre amenidades e dividimos uma Coca-Cola. Chovia sobre a Fortaleza de São José, e o peixe tinha gosto de infância. Aquela que vivi lá no Paraná e que me tem feito cada vez mais falta.
.“O barulho que eu mais gosto é o da chuva”, diz Catherine Deneuve no filme Les temps qui changent.”
.Pela publicação do livro Abilash, tenho recebido cumprimentos de várias pessoas. Inclusive de meus parentes da Cracóvia. Amaru Lehel, por exemplo, me deu de presente um quadro. Ele não me conhece, nem eu a ele. Leu o livro no sebo do Ivamar, na Beira Rio, disse ter gostado muito e desejado pintar pra mim o quadro que o Ivamar depois me entregou: uma casinha na frente de duas árvores, suspensa na lua. Casinha, árvore e lua... Parece que Amaru já me conhecia.
.Eu tenho um grande amigo chamado Christian Tell.
.Trabalho de manhã, à tarde e à noite. De manhã ouço risos. À tarde faço promessas. À noite, transcendendo risos e promessas, derivo por mares de páginas de livros.
quinta-feira, 22 de abril de 2010
Noturno
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Era tarde. Quando ele chegou anunciando uma aurora boreal, com um sol aceso nas mãos, eu já havia anoitecido. Sendo um ser de hábitos diurnos, adormeceu sem ver o olhar estrelado que eu trazia para constelar sua noite.
segunda-feira, 19 de abril de 2010
Iduna
Iduna colheu a loucura na caixa de Pandora
Não me perdoe. Minha nova ordem é inventar palavras que lhe façam mal. Crio-as no barro, na forja, no leito de Procusto, para que carreguem a sabedoria e o tamanho exato do que precisam dizer, ainda que seja necessário amputá-las, esticá-las, sangrá-las até a conformação. Pra você eu invento palavras de uma língua sem representação escrita que aprendi por instinto, em Caximba dos espíritos, em Babel, na margem da busca em minha própria gênese. Procuro palavras anticristo que não compõem nenhuma protolíngua e sua ancestralidade, leio entrelinhas de signos gráficos de 50 mil anos, à procura da asa que parte do mais abissal silêncio, a asa: a palavra que lhe faça mal. Não me perdoe, não quero de volta a flecha lançada, a brasa extinta, o vôo perdido. Sobrevivo porque me agarro ao fio inextinguível da palavra, porque meia palavra não me basta. Do outro lado do silêncio, me preparo para ouvir as palavras que criei pousando como corvos em seus ombros. E quando você desaparecer na última esquina, labirinto do nunca mais, só uma coisa me fará falta: as palavras de bem que antes desperdicei.
*Pandora é a mulher criada por Zeus para castigar os homens pela ousadia de Prometeu em roubar o segredo do fogo. Zeus deu a Pandora uma caixa, cujo conteúdo era os males que passariam a atingir a humanidade: a velhice, o trabalho, a doença, a loucura, a mentira e a paixão. Só a esperança ficou no fundo da caixa.
sexta-feira, 16 de abril de 2010
A quem interessar possa...
Estou com medo de ser queimada viva, junto com o Yashá Gallazzi... Mas não posso deixar de dizer que gostei da crônica do Rogério Borges, aquele que agora todo o meio do mundo sabe quem é. É que quando me perguntam se nasci aqui, eu digo não. Quando me perguntam se sou daqui, eu digo sim. Pois são coisas diferentes. Nasci no Paraná, mas moro no Amapá há 24 anos e três meses. Amo o Amapá, se é necessário dizer, depois das declarações de amor pela Amazônia que tenho publicado em meus livros. E finalmente quando me perguntam se sou escritora, eu digo sou. Como escritora, percebo o valor literário do texto. E o valor do que o Rogério escreveu não está na ideia. Está nas letras. No incrível e delicioso encontro dos signos gráficos.
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Um amigo me disse: Mas quem é que gosta de ser alvo de piada? A loura? O português? O anão? Não concordo com a reação, mas compreendo a reação. A literatura é uma arte incompreendida. Cada vez mais solitária. Os livros que mais vendem não são necessariamente literatura.
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Rogério deve estar lambendo os dedos com o efeito que sua crônica causou. A finalidade óbvia de todo aquele que escreve é ser lido, e ele nunca deve ter sido tão lido antes disso. Eu, que dedico grande parte do meu tempo às maquinações da escrita, sei que é muito bom sentir o efeito que um texto causa, embora nem sempre ele seja escrito pra causar algum efeito.
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terça-feira, 13 de abril de 2010
Ajay
quinta-feira, 8 de abril de 2010
Abilash na Terra da Gente
A autora está imensamente feliz com a publicação. Do livro e da matéria.


terça-feira, 30 de março de 2010
Pássaros de papel
sexta-feira, 26 de março de 2010
ABILASH

Apresento a vocês meu livro: Abilash – Conto da Amazônia, um pequeno filho, nascido muito tempo depois do nascimento do filho mais velho: Lugar da Chuva. Mas com a literatura é assim... passa-se tempo precioso escrevendo e tempo amargurado tentando publicar. E este momento, o de ter a nova criação nas mãos, o livro prontinho saído das máquinas que concretizam o sonho da palavra no papel, é ímpar, é singular. Pois Abilash está aí... foi publicado pela Editora Escrituras, tem 64 páginas e conta a história de um menino que renasce na Amazônia para plantar a semente da preservação e do amor à vida no coração do homem. Espero, com Abilash, reavivar a esperança no coração de todos os leitores. Um abraço.
Início do conto:
Inspirado no renascimento de Abilash.
Um menino de três meses foi resgatado dos tsunamis que flagelaram o Sri Lanka, na Ásia, no final do ano 2004. Nove casais que haviam perdido seus filhos disputaram sua paternidade. Depois do cataclismo, com o filho renascido nos braços, os pais verdadeiros o chamaram Abilash. Para os nove casais, ele foi o filho desejado.
Somente as águas do rio Amazonas assistiram naquela noite à chegada do menino. E estavam mansas como quem dorme, guardadas pelo clarão vigilante da lua sobre o rio. O menino estava nu, de olhos abertos, e do fundo de uma canoa embalada pela calmaria, fitava no céu as constelações cintilantes de dezembro.
quarta-feira, 24 de março de 2010
Ausência
quarta-feira, 10 de março de 2010
Origami
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Eu já havia composto cem origamis de guarda-chuvas quando ele percebeu que chovia. Disse então que eu compusesse mil origamis da garça de papel japonesa*, se desejasse ser dona do seu coração. Compus um dragão. Um dragão celestial que devorou o sol. E realizei o desejo ancestral de ser dona da chuva.
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*Segundo a cultura japonesa, aquele que fizer mil origamis da garça de papel japonesa terá um pedido realizado.
sexta-feira, 5 de março de 2010
Dois Ponto Três Lisboa
Chacal
quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010
Mundo cão
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Do meio da profusão das marchas do carnaval, o Capitão Cachorro encontrou o olhar I believe in angels de Maria, donzela desamparada, e não soube jamais explicar por que, naquele instante ad infinitum, desejou ser o Negro Gato de arrepiar.
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O Negro Gato passou no meio da Banda, entre Frajolas e Manda-Chuvas... grisalho, quase calvo, hipnotizado pelo pó e pelo único trio elétrico que se rebelava em Racionais MC’ s. “Um cara que é da noite, da madrugada”, ele cantou, absorto, ao passar sem ver o olhar de fera livre que lhe lançava Maria, a donzela.
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De laço de fita e flor no cabelo, Maria, desamparada na terça-feira gorda, sentiu-se tentada a cair nos braços do Gato de Botas, de lhe dar seu sexo animal. Isto antes de perceber que em plena avenida ele já lambia a nudez translúcida de Lady Godiva – muito mais bela, embora bipolar.
segunda-feira, 25 de janeiro de 2010
Segunda Carta
Compreendo a lógica de que a palavra é múltipla, o homem é múltiplo, e não espero que Deus, sendo maior que a palavra e que o homem, ficasse aprisionado numa única forma. O problema é que assim fica impossível reconhecê-lo, principalmente nos momentos em que mais se precisa, os de desespero, aqueles em que se fica cego de todos os sentidos e por isso se cometem mais desatinos.
Num desses momentos, por exemplo, saí por aí a sua procura altas horas da noite... e não é que encontrei um de seus esconderijos? Com placa e letreiro na entrada: Esconderijo do Altíssimo, rua Diógenes Silva, numero tal. Vamos combinar, nem é assim tão longe da minha casa. Mas estava fechado. De lá pra cá tenho pensado sobre o que lhe direi quando voltar lá e o Senhor me atender. Algumas perguntas já estão preparadas e posso adiantá-las.
Pergunta número um: O Senhor tem tido bons sonhos?
Pergunta número dois: O Senhor perdeu o endereço do Haiti?
Pergunta número três: Onde pretendeis alojar, em cima da hora, os 150 mil mortos do Haiti (se é que sabeis do que estou falando)?
Sugiro que o Senhor comece a mostrar sua cara de forma mais clara, caso contrário, seu governo está com os dias contados. E sabe-se quem pode levar a próxima eleição...
sexta-feira, 15 de janeiro de 2010
sexta-feira, 11 de dezembro de 2009
...
E como não haja mais nada a fazer, uma vez que dois mil e nove anos depois de Cristo ficaram para trás e nunca mais voltarão, entrei em estado de árvore. Contrariando a receita de Manoel de Barros, que diz que para entrar em estado de árvore é preciso partir de um torpor animal de lagarto às três horas da tarde, no mês de agosto, neste resto de dezembro, entrei. Já pressinto o pouso dos passarinhos-mariposas-borboletas. Estou em paz à sombra eventual das nuvens, esperando a chuva de galhos abertos, à mercê dos relâmpagos e temporais, ao sabor dos ventos e dos sóis, e com um desejo enorme de estender-me em doces sombras sobre quem vier, ainda que venha apenas para assistir ao estranho espetáculo do tempo devorando o tempo.
Para quem vier enquanto eu não estiver:
"O mundo meu é pequeno, Senhor.
Tem um rio e um pouco de árvores.
Nossa casa foi feita de costas para o rio.
Formigas recortam roseiras da avó.
Nos fundos do quintal há um menino e suas latas
maravilhosas.
Todas as coisas deste lugar já estão comprometidas
com aves.
Aqui, se o horizonte enrubesce um pouco, os
besouros pensam que estão no incêndio.
Quando o rio está começando um peixe,
Ele me coisa
Ele me rã
Ele me árvore.
De tarde um velho tocará sua flauta para inverter
os ocasos."
Manoel de Barros - O Livro das Ignorãças
domingo, 6 de dezembro de 2009
Doce Delicadeza
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Na última madrugada, a chuva bateu na janela com a serenidade de que só é capaz a própria chuva, e perguntou: Aqui é Doce Delicadeza? De dentro da janela, com um sussurro recém-desperto, a moça respondeu: Sim, é aqui. Então a chuva pediu: Abre a janela... A moça abriu-a devagar para não ferir as faces da chuva, e as duas se olharam nos olhos por um instante ad infinitum. Foi quando a chuva, ainda mirando os olhos cristais da moça, disse: Como posso ter certeza? E a moça, com um sorriso ainda mais cristal que os olhos transcendendo a aurora vindoura, lhe abriu suas delicadas asas de papillon.
sexta-feira, 20 de novembro de 2009
Divaganças

Folhas secas, quando caem, se parecem com borboletas que voassem em espiral.
Borboletas têm vida mais curta que folhas. Folhas secas podem durar 10 anos.
Uma andorinha sozinha pode fazer qualquer estação.
As estações servem para mostrar que todas as coisas da natureza têm alma.
A alma do vento me possui no verão. No inverno entrego a minha à chuva.
A chuva tem poder curativo. Na manhã me cura a preguiça. Na tarde, meu calor. Na madrugada, a solidão.
Poucos seres no mundo são tão generosos quanto uma árvore.
Quem tem coragem para derrubar uma árvore tem também covardia para plantar concreto no lugar.
Olhar as coisas sem vê-las é como matá-las um pouco. Às vezes muito.
segunda-feira, 16 de novembro de 2009
Esses dias...
sexta-feira, 6 de novembro de 2009
Contradança II
segunda-feira, 19 de outubro de 2009
O nome das coisas
sábado, 3 de outubro de 2009
Destempo
*Personagem de Gabriel García Márquez em O amor nos tempos do cólera.
segunda-feira, 28 de setembro de 2009
Frederich
Na manhã em que seu navio voltou ao porto de origem, Frederich Spassky estava nas tabernas do cais, agarrado às putas que faziam alvoroço em torno de seus olhos azuis e de sua pele curtida pelo sol de muitos mares. Foi abandonado para sempre nestas terras estrangeiras. Primeiro se desesperou, teve vontade de se matar, depois se acostumou, e fez do novo porto sua pátria. Arrumou-se na vida, arranjou mulher, filhos e um barco pesqueiro, embora nunca tenha deixado de pensar na Rússia e em sua amada Narkissa. Não sabe quantos anos tem. Diz ter chegado a uma idade em que não se contam mais os anos, mas se continuam a descobrir muitas coisas. Descobriu, por exemplo, onde é o lugar mais longe do mundo: a terra estrangeira. Frederich circula pelo cais com a desenvoltura dos experientes marinheiros e ainda ajuda a alimentar o mercado clandestino de ervas. Numa noite de cantorias na praia, chegou-se à nossa roda vestido de branco e com um sorriso trazido da juventude. Pediu um pouco do vinho em troca de um poema e nos fez a alma ferver de êxtase quando recitou Maiakovski em russo. Ontem me disse ter sonhado que atravessava um mar de tulipas amarelas. Hoje se demorou mais em seu aceno quando me viu na janela. Fiquei triste olhando ao longe sua cabeça branquinha, acesa pelo sol do cais. Frederich Spassky sabe que está prestes a encontrar o navio que levará a todos a uma pátria única.
domingo, 20 de setembro de 2009
Das coisas de ser
domingo, 6 de setembro de 2009
Diálogos impossíveis
I
- O que você pensou antes de morrer, Ferdinand?
- Pensei na vida...
- Passou um filme?
- Sim... de toda a vida.
- Só acontece com os suicidas?
- Isso eu não sei...
- E se eu me matasse?
- Pra ver o filme?
- Sim.
- Me deixe quieto!
II
- Se você queria me impressionar...
- Desculpe...
- Não devia ter ficado reparando...
- Eu já disse desculpe...
- No meu modo de comer.
- Mas eu percebo a velocidade de tudo...
- Ah...
- E você come a 360 quilômetros por hora.
- Fala sério!
- É científico. Você devia saber...
- Pra mim chega!
- Que um estudante de Física tem esses vícios.
- Eu vou embora...
- Ah, fica... você é tão inteligente, tão oculta...
- Tchau!
III
- Querido, o que quer dizer intermitência?
- É quando uma coisa só acontece em intervalos.
- Grandes intervalos?
- Pode ser.
- Como o sexo?
- Que sexo...?
- Da gente...
- Que livro é esse que você tá lendo?
- As Intermitências da Morte.
- Por que você não vai ler outra coisa?
terça-feira, 1 de setembro de 2009
Minha vida com Johnny

Não fiz segredo de que como Chapeleiro Maluco ele está a cara do Elijah Wood, e desde este episódio resolveu me dar o troco, como se eu fosse a culpada: comprou um corcel 74, azul piscina, equipado com potentíssimo equipamento de som, que anda exibindo de porta-malas aberto na frente dos bares onde estão meus amigos. Compreendo sua estratégia, mas respeito mais a minha. Digo-lhe você só me faz vergonha, Johnny Depp, e ele vai dormir como um menino, se sentindo vingado.
Hoje atravessou o dia desejando matar o Gato de Cheschire, de quem morre de ciúmes. Diz que não pode mais tolerar o riso do felino, e mal percebe que não posso mais tolerar seus desmandos. Jamais lhe darei a chance de me dizer primeiro nós dois nunca teríamos dado certo, mas receio que o abandono lhe atrapalhe a estreia de Alice... Antes isso, porém, do que amanhecer qualquer dia como uma noiva cadáver.
domingo, 23 de agosto de 2009
Tsarphatah
Esta tarde sonhei com os pães de Bete. Era Márcia quem estava em minha cozinha fazendo a mistura da massa, e depois me mostrava sorrindo o pão redondo como uma lua que aprendera a fazer com Bete. Vamos multiplica-los, e embrulha-los em papel de seda, dizia Márcia, iluminada pela presença de Elias, o profeta das viúvas, que nunca deixou Bete só.
Não posso compreender a ausência de Bete, porque nunca pude compreender minha própria fome. Tenho precisado do pão que a viúva de Sarepta preparava. Do braço de Deus estendido sobre a minha cabeça. Da palavra do Messias que falava com Elizabeth enfatizando a letra i de seu nome, como em inglês.
Acordei com saudades de Bete, e meu desamparo foi maior quando bati nas cinco portas de Madame Poison e ela não abriu nenhuma pra eu ver se havia algum pão.
Bete disse um dia que a própria bíblia não dá conta de como termina a história da viúva de Sarepta. Quanto a mim, não posso voltar a dormir em paz sem uma resposta. Bete encontrou uma explicação para a vida?
sábado, 15 de agosto de 2009
Eu no Woodstock
Por isso acho que nasci na época errada. Se tivesse nascido pelos anos 50, não teria sido necessariamente hippie, mas também não teria perdido a oportunidade de usar saias e cabelos imensos, ou de criar meus filhos como índios, ou ainda andar por aí mostrando pra todo mundo aqueles dois dedinhos mágicos dizendo paz e amor... e de ter ido ao Woodstock, é claro.
Mas não é só isso, que o meu desejo não é tão superficial. Se tivesse nascido nos anos 50, poderia até ser chamada hoje de dinossauro por minhas filhas ultra-jovens, mas não tenho dúvidas de que seria um dinossauro libertário, que traria no sangue, no olhar e nas atitudes a essência do movimento hippie, pois sua essência perdura, a despeito da morte dos saiões, dos cabelões e de todos os símbolos exteriores consumíveis.
Eu sei, eu sei. Não é preciso ter nascido hippie ou ter ido ao Woodstock para se ter ideias libertárias. Mas naquela época era mais original, reconhecia-se um libertário pela roupa, pelo cabelo, pelos olhos, pelo vocabulário... hoje até o mais genial marginal criativo é confundido com o conservador burguês, etcétera e tal, esse papo está ficando caretão.
Se eu pudesse ter engrossado os coros contra o consumismo, contra as guerras e pelo amor, e depois disso ainda ter rolado na lama do Woodstock, dormido no campo do Woodstock, visto luas brotarem das poças d´água do Woodstock e ainda acordado em plena segunda-feira ouvindo Jimi Hendrix no Woodstock... ai, ai. Quem me conhece, não se iluda com uns certos modos clássicos de minha aparência. Aqui dentro existe uma criatura derrubando cercas e vivendo overdoses de chuva no Woodstock.
Eu não vivi o movimento hippie nem fui ao lendário festival, mas como consolo ao meu sonho frustrado e ao calor tempestuoso da noite, quero deixar claro que continuo fazendo o amor e não a guerra, que tenho sobrevivido a toda forma de autoritarismo, combatendo o meu próprio e descobrindo o amor libertário. Ave, Roberto Freire!
quarta-feira, 12 de agosto de 2009
Ballet
quinta-feira, 6 de agosto de 2009
Túnel do tempo
Testei isto em minha filha mais nova, minha pequena bailarina, quando ela pediu pela trigésima vez sua sonhada sapatilha de ponta. Você vai ganhar... daqui a 30 anos! E fiquei esperando a reação. Foi de total descrédito. Os adolescentes não acreditam em nada do que a gente diz... mas fazem menos dramas.
Pois quem imaginaria? Aprender aquela música foi um dos meus maiores desejos, quando meu acesso aos discos, aos aparelhos eletrônicos, à sintonia das rádios era difícil.
30 anos, e assim, quase do nada, pesquisando umas coisas nas veredas do google, me encontro com ela, clara, transparente, com todas aquelas mágicas palavras que fizeram o encanto dos meus 13 anos: a letra. Embora na época eu não percebesse, já era a letra que primeiro me chamava a atenção.
O tempo brinca mesmo com a cara da gente. Literalmente, inclusive. Durante os 30 anos eu não procurei pela canção, embora esporadicamente me lembrasse dela, e nunca mais a ouvi em lugar nenhum. Eu podia ter aproveitado um milésimo desse tempo para procurá-la e provavelmente a teria encontrado, uma vez que eu sempre soube quem é o compositor. Mas o tempo sempre me desviou para outras viagens, outras ideias, outras canções.
Eu devia saber que ela havia de me chegar um dia. Estava escrito. Não preciso dizer que agora a tenho cantado diariamente, envolta numa espécie de espiral do túnel do tempo.
Não esperem que eu diga de que música se trata. Desnecessário. O encanto está no sentido que o tempo lhe deu, no que ela representa para minha vida. Se fosse possível cantá-la pelo blog, então eu a cantaria.
sábado, 1 de agosto de 2009
Despertar em agosto
domingo, 26 de julho de 2009
Souvenir
Tonico come formigas e diz que elas têm sal. Diz que toda vez que vê um dinossauro tem vontade de pega-lo. Eu escrevo e armo no papel meu pequeno tabuleiro de palavras-souvenirs e lhe pergunto aonde viu um dinossauro. Ele aponta em inúmeras direções o dedo pintado de tinta óleo azul. Inclusive o cirro mais alto da tarde, um rabinho de cavalo. O tabuleiro está pronto... Lírico, trepidante, libertino, platiplanto, entre outras palavras que vão dar no sem fim. Pergunto a Tonico se ele sabe fazer avião. Não. Quer aprender? Não. E fica olhando de perto minha imperícia em dobrar papel. Demoro, para ganhar importância. Quando enfim lanço em vôo as palavras-souvenirs, vejo os olhos encantados de Tonico, que refletem um pequeno avião de papel sobrevoando um dinossauro.
quarta-feira, 22 de julho de 2009
Esperando agosto
Pelo mundo inteiro agosto é uma ameaça porque historicamente coisas terríveis aconteceram neste mês, gerando paranoias universais. Mas no balanço geral, acredito que outras coisas não menos terríveis aconteceram em outros meses e nem por isso se teme outros meses.
Foi em agosto que as cidades de Hiroshima e Nagazaki foram destruídas pelas bombas atômicas, foi em agosto que Hitler assumiu o governo alemão e começou a fazer o diabo, que Nelson Mandela foi preso, que se iniciou a construção do muro de Berlim, que Elvis Presley, Marilyn Monroe, Trotski, Nietzche e a princesa Diana morreram, que nasceu Bill Clinton...
Em compensação, foi em agosto que nasceram Herman Melville, Louis Armstrong, Alfred Hitchcock, Jorge Amado, Tolstoi e a Madre Teresa de Calcutá. Se isto não é suficiente para demonstrar que agosto é um mês injustiçado, foi em agosto que se iniciou o Festival de Woodstock, do qual eu poderia ter participado se não morasse nos confins do Paraná e se não tivesse três anos de idade. Mas este desejo é assunto pra outro dia.
Agosto só se tornou agosto em homenagem ao imperador romano César Augusto, que não queria ficar por baixo do imperador Júlio César, que por sua vez já era dono do mês de julho. E como julho tem 31 dias, César Augusto bateu o pezinho e disse: eu também quero! Por isso agosto também é de 31. Antes desta crise de frescura, agosto se chamava Sextil.
Pra quem não sabe – e eu também não sabia até hoje, parte do medo do brasileiro do mês de agosto foi herdada de Portugal. Como a época era a melhor para o início das navegações, em Portugal mulher nenhuma queria casar em agosto, porque o marido ia embora pro mar e em muitos casos nunca mais voltava. Morria afogado, se arranjava com outra em outro porto, etc... É por isso que no Brasil se diz que casar em agosto traz desgosto. Agora, não lavar a cabeça no mês de agosto, porque disque isso chama a morte, é coisa de argentino.
Portanto, prefiro esperar agosto como quem gosta da vida, e não como quem espera uma chuva ácida.
terça-feira, 14 de julho de 2009
Querido pai
Por isso sei que os ouvidos de meu pai foram educados pela mais pura música sertaneja de raiz, aquela que cantavam Cascatinha e Inhana, Tonico e Tinoco, Pena Branca e Xavantinho... Aquela mesma que ele teimava em continuar ouvindo em discos antigos quando eu já era adolescente e morria de rir de seu gosto pré-histórico.
Um dia, muito tempo depois – eu já era bem adulta – surpreendi meu pai encantado com uma música que eu costumava ouvir nas ocasiões em que tentava desvendar o que fazer para unir o fio das minhas saudades à presença real do objeto de minhas saudades... Era Louis Armstrong cantando What a wonderful world.
Ontem entrei no supermercado no justo momento em que no sistema de som ambiente Louis Armstrong começava: I see trees of green, red roses too/ I see them bloom for me and you/And I think to myself/what a wonderful world... A música de meu pai, pensei, e então de repente me lembrei que era o dia de seu aniversário. 13 de julho. Seu Casemiro estava fazendo 74 anos.
Deixei lá na cestinha o pacote de arroz com brócolis que fui comprar. Saí do supermercado para chorar de saudade de meu pai no meio do sol de meio-dia, pois já era tempo de arrepender-me das tantas vezes que zombei do sertanejo que havia em sua alma, as mesmas vezes em que ele desligou o disco de suas poucas manhãs de folga somente para me agradar.
sexta-feira, 10 de julho de 2009
Semeadores de utopias
quarta-feira, 1 de julho de 2009
Meninos de julho
Os meninos de julho amanhecem colorindo com pipas o céu às margens do Amazonas dourado, cujas águas ondulam desde o princípio do mundo. Circundam a secular Fortaleza de São José de Macapá, onde dormem os negros que a construíram, iluminados pelo sol menino que penetra as paredes de pedra. Correm incansáveis e descalços no sedimento da praia, até que se acendam as luzes do trapiche, até que julho termine.
Agora que o menino está sonhando, Macapá sente a falta de pipas cruzando o céu, transportando o sonho de voar do menino.
segunda-feira, 29 de junho de 2009
Considerações sobre o nada
segunda-feira, 22 de junho de 2009
Aventura
Resolvi me aventurar no domingo à noite em busca de um hambúrguer. A pé, porque calculei que a barraca da esquina estaria à minha espera. Não estava. Sempre em frente, como o Legião – e evitando a direção da beira do rio, onde a metade da população passeia, come churros e corre atrás de crianças tresloucadas no domingão – andei quase um quilômetro sem encontrar o hambúrguer. Um cheese banana, então, nem pensar.
Costumo pensar muito quando caminho – tem gente que fala sozinha, chuta pedras, apedreja cachorros – e ia pensando em como é interessante que sejam as perguntas, e não as respostas, que movem o mundo, quando dobrei a esquina da Padre Júlio com a Tiradentes e dei de cara com uma multidão parada na calçada. Assim, depois do nada. Uma multidão.
Eu não sei o que aquela gente toda estava fazendo ali, imagino que esperando por uns 15 ônibus, mas nem é isso o que me interessa. Foi o susto de ser engolida por uma multidão que olhava na direção contrária o que me fez sentir meio perdida, com a sensação de estar numa cena do Expresso da Meia Noite, ou de ser observada por todos: pelo rapaz que cantava eu vou fazer um ie-ie-iê romântico, pela grávida escorada no poste, pela mulher que assustava o filho dizendo que lá vinha o homem do saco (embora todo homem tenha).
Passei, e nada do sanduíche. Pra resumir, depois de dar mil voltas, encontrei uma barraca numa praça erma, a da Conceição... não porque seja distante, mas porque a falta de iluminação e o mato crescido a tornam desolada. Sua única beleza hoje é ter hambúrgueres para quem tem fome.
Voltei comendo o sanduíche pela rua, evitando pontos de ônibus com multidões, esquinas escuras – nunca se sabe onde se vai dar de cara com o homem do saco – e pra minha surpresa, ao dobrar outra esquina, fui surpreendida com a boca cheia de sanduíche por uns 30 fiéis da Comunidade Cristã de Macapá (pertinho da casa do falecido Brow), que tentaram me arrastar para aceitar Jesus.
Eu aceito, eu aceito! Mas primeiro me deixem terminar de comer, disse a eles, e em sua primeira distração, empreendi a fuga. No próximo domingo à noite, vou ficar em casa, vou comer as sobras do almoço. Se tiver.
quarta-feira, 17 de junho de 2009
Madrigal da manhã
segunda-feira, 8 de junho de 2009
O leite derramado
terça-feira, 26 de maio de 2009
Ágata
terça-feira, 19 de maio de 2009
Esses dias...
segunda-feira, 11 de maio de 2009
I
Deus, não espero que a esta carta o senhor responda formalmente, já que não me respondeu a tantas outras. Mas espero por um sinal. Se o senhor se aborrecer, pode responder com um temporal que arranque as telhas da minha casa, por exemplo. Antes assim do que me deixar pensando que para o senhor eu sou apenas uma bolha n´água.
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Estou lhe escrevendo para dizer que acho que o senhor dorme, sim. Ao contrário do que dizem os pára-choques dos caminhões, que Deus não dorme. E acho inclusive que o senhor anda dormindo de touca, perdendo a boca e fugindo da briga, senão como é possível explicar essa vida tão torta?
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Percebe o tamanho do desencontro? É a maior das catástrofes humanas. Se Lúcifer tivesse vencido a revolução contra o senhor, talvez tivesse administrado as coisas de modo mais simples: João, Teresa, Raimundo, Maria, Joaquim e Lili se amariam uns aos outros, e viveriam em recíproca e constante entrega de seus corpos e almas, sem que isso representasse uma vergonha. E seriam todos felizes. Não vamos nos enganar.... Lúcifer é um libertário!
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Eu não queria parecer vago nem obtuso, mas o mundo sob o seu comando anda muito paradoxal. Em quem eu devo acreditar enquanto o senhor dorme? No sujeito que disse que existe muito mais inferno entre o céu e a filosofia do que possa supor meu vão mistério? Em que eu devo pensar enquanto espero providências: no poder da olfação dos gnus? Na migração sazonal das borboletas amarelas?
Lili continua sem amar ninguém, e eu me despeço sem pedir desculpas, porque não sou do tipo que morre de medo quando o pau quebra, embora haja quem diga que eu não sei de nada e que eu não sou de nada. Assino embaixo tudo o que disse. As outras dúvidas que possuo ficam para a próxima carta, que o senhor poderá ler quando acordar. Se...
sábado, 9 de maio de 2009
Presente
Nas noites mais escuras, sem lampiões nas esquinas castigadas de poeira, extintos já os vaga-lumes na paisagem calcinada pelo sol da eras, sentávamo-nos à beira da rua, nossa mãe apagava a única lamparina da casa e pedia que fechássemos os olhos para ouvir as histórias que ludibriavam nossas dores antigas, nossa fome hereditária e o sono milenar de deus que nos eternizara no esquecimento, até que chegava o momento mágico em que ela nos dava o sinal para abrir os olhos, e então emergíamos da escuridão e dos abismos de toda a vida, para receber, por suas mãos iluminadas, o fabuloso presente do acender da lua.
segunda-feira, 4 de maio de 2009
Divaganças e desesperações
Prefiro continuar a vê-lo com o olhar perdido para as lonjuras do rio Amazonas, e ouvi-lo dizer as estranhezas permitidas a quem está chegando aos sessenta. Eu respeito sua cabeça branca. Outro dia me disse, com os olhos rútilos mirando o copo de cerveja: semana que vem vou passar 14 dias sem beber. Aperto-lhe a mão e lhe digo: Claro, eu compreendo como será comprida sua semana. Ele não entende. Está outra vez pensando na singular finalidade de nossa existência e importância no cosmos, se todos os seres vieram dos seres do mar, pra onde irão os bons e os bobos, os maus e os malas, etc. Eu penso no meu último desejo para o dia do juízo: lasanha de espinafre, que isso sim vale a pena.
Eu não mato suas esperanças, mas também não as alimento. Ando impressionada com a constatação de que o ser humano não muda, apesar da determinação científica de que a evolução nunca cessa. No futuro não teremos pelos no corpo... E daí, se estamos cultivando na alma monstros cada vez mais peludos e perversos que se expressam em nossas desumanidades diárias? Não. Não sou dada a obviedades existenciais. Já vou parar.
Depois de sua insólita promessa, meu amigo disse que não está contente consigo, que quer mudar, a burrice e a truculência com que tem se defrontado têm-no levado a repensar suas atitudes. E como tenha captado em meus olhos uma expressão de ceticismo nada sutil, arrematou: Ei, Lulih... eu estou mudando devagar. Reciclagem é fácil numa lata. Eu sou um ser humano. Foi a minha vez de estender os olhos para as lonjuras do rio. E meio envergonhada de minha própria desesperança, me limitei a divagar: por que todos os barcos são brancos?