sexta-feira, 6 de novembro de 2009

Contradança II

Haja o que houver, há de chegar a chuva, branca, telúrica sobre minha nudez estendida ao chão e exposta ao céu rachado em tiras de fogo. Tenho o ouvido colado à terra, onde ouço Madredeus e os resquícios das vibrações do big bang. Mergulho no beijo inspirado em vodkas e mentiras infernais colhidas nas promessas do acaso. Acordo o desejo encostado em sombras, o desejo que pulsa na boca, antes da queda vertiginosa, irreversível, imprescindível, das alturas geológicas do tempo e dos abismos do corpo. Componho recados inócuos, bilhetes em hieroglifos, teorias do esquecimento que são lidas em meus olhos por olhos gris. Não volto para a ceia, não preciso da porta aberta, não acendo a luz da espera. Antevejo a doçura da chuva. Nasceram-me asas voltadas para o caminho do tempo crepuscular, onde o meu amor não tem mais dono. Talvez eu voe, talvez morra, talvez pouse no telhado junto aos gatos, até que a chuva, translúcida e também alada, me conceda uma contradança.

11 comentários:

Jac. disse...

Amei essa contradança!
Ave palavra, que traduz
o que a alma sente!
Meu carinho.

aline disse...

Sem o meu comentário, pois pode cair como ironia, então! Beijocas!

Z, disse...

De tirar o fôlego. Abraços. Z.

Ernâni Motta disse...

A dança da minha alma se fez com essa "Contradança".
Uma ótima semana para você.
Beijos.

Fábio Luis Neves disse...

A chuva me parece mesmo a idéia de uma contradança, assim como o sangue a idéia de uma contramão. Enquanto o último parece percorrer sem licença, por falta de opção e de razão, vem a chuva e nos arrebata ao deslimite do pó, devolve o cheiro, a pureza e o a vontade de devolver os cheques da vida em contralances... qual será a palavra certa? onde estará a porta aberta? Talvez, como dizem os talvezes do seu estonteante texto dançante, numa contradança!
Desculpe eu viajar tanto, mas leio os textos aqui com todos os captadores atentos... rsrs.

Adorei a chuva "translúcida e também alada", são trechos como este que seu texto emociona! Abraços...

Kiara Guedes disse...

Que assim seja... Sempre!

Lulih Rojanski disse...

Jac, Aline, Z, Ernani, Fábio, Kiara e quem mais tem vindo...

Obrigada por continuarem presentes, embora minhas ausências tenham sido cada vez mais frequentes.
Abraços a todos.

luiz jorge ferreira disse...

VOCE PODE SE NEGAR ALGUMAS VEZES AO SEU PROPRIO CONVITE PARA UMA SEMPRE NOVA E CONSTANTE CONTRADANÇA.
MAS O DELINEAR DO ULTIMO VOLTEIO PERMANECE COMO UMA ASSINATURA BELA E PESSOAL.
RESTA-NOS, SEUS ASSIDUOS VISITANTES. RECONHECER QUE O SEU SILENCIO É O INTROITO DO PROXIMO CANTO.
LJORGE.

Fausto Suzuki disse...

Entre a possibilidade de voar, e de morrer, existe a de estar entre os... GATOS.
Sempre eles.
Não gosto de gatos, L. Mas não tenho como nem porquê maltratar. Os que merecem não chegam perto. Há algo neles que os avisa.

Lulih Rojanski disse...

Jorge,
Nâo, eu não me nego... de um modo ou de outro, eu sempre danço.
Um abraço.

Fausto,
Gatos são gatos, os outros são os outros e só.
Um abraço. Volte sempre.

julio miragaia disse...

as chuvas sempre nos concedem contradanças. Adorei Luli.