quarta-feira, 1 de julho de 2009

Meninos de julho

Do livro Lugar da Chuva
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Em caminhadas crepusculares pelas ruas da cidade, pergunto-me por onde estarão perdidos neste setembro aqueles meninos que soltam pipas em julho. Vi um deles passando ali pela esquina entre as avenidas Rio Pedreira e Rio Tocantins. Sobre sua cabeça havia mil bolhas imaginárias ocupadas pelas maquinações da infância, bicicletas voadoras, sapatos com imensas molas propulsoras, asas de papelão, o sonho pré-histórico de voar alimentado pelo homem... Ia cabisbaixo, esperando julho chegar. Um outro atravessava distraído a monotonia da praça Chico Noé. Talvez pensasse em como seria bom se, em vez de empinarem pipas, pipas empinassem meninos. Os outros, não sei por onde andam, neste setembro vazio de meninos nas ruas, quando os jambeiros da General Rondom derramam flores nas calçadas e as mangueiras da Leopoldo Machado repousam até abril.
Os meninos de julho amanhecem colorindo com pipas o céu às margens do Amazonas dourado, cujas águas ondulam desde o princípio do mundo. Circundam a secular Fortaleza de São José de Macapá, onde dormem os negros que a construíram, iluminados pelo sol menino que penetra as paredes de pedra. Correm incansáveis e descalços no sedimento da praia, até que se acendam as luzes do trapiche, até que julho termine.
Agora que o menino está sonhando, Macapá sente a falta de pipas cruzando o céu, transportando o sonho de voar do menino.

5 comentários:

Sunshine disse...

Lugar da Chuva é um lindo nome! O texto dos meninos também.
BJS.

bete disse...

Legal a idéia das pipas empinando os meninos, de repente eu vi a cena e achei lindo, aliás esse texto me pareceu uma bela pintura.

Jac. disse...

Ainda bem, Lulih, que a sua alma
não dorme e voa por aí, empinada
por tão grande e delicada poesia!

Sempre tocas meu coração!!!

maria disse...

Esse é lindo e muito oportuno...

maria disse...

Vc podia publiar mais deles (do livro) aqui. Que tal?
Eu ia curtir!