sábado, 15 de agosto de 2009

Eu no Woodstock

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Se em 1969 eu tivesse uns 20 anos, seguramente teria ido ao Festival de Woodstock. Ainda que pra isso eu precisasse antes passar meses vendendo coxinha, lavando roupa pra fora ou entregando leite nos portões da madrugada, nas ruazinhas esmigalhadas de solidão de minha cidade perdida nos pinhais do Paraná. E ainda que isso só servisse para a passagem de ida.

Por isso acho que nasci na época errada. Se tivesse nascido pelos anos 50, não teria sido necessariamente hippie, mas também não teria perdido a oportunidade de usar saias e cabelos imensos, ou de criar meus filhos como índios, ou ainda andar por aí mostrando pra todo mundo aqueles dois dedinhos mágicos dizendo paz e amor... e de ter ido ao Woodstock, é claro.

Mas não é só isso, que o meu desejo não é tão superficial. Se tivesse nascido nos anos 50, poderia até ser chamada hoje de dinossauro por minhas filhas ultra-jovens, mas não tenho dúvidas de que seria um dinossauro libertário, que traria no sangue, no olhar e nas atitudes a essência do movimento hippie, pois sua essência perdura, a despeito da morte dos saiões, dos cabelões e de todos os símbolos exteriores consumíveis.

Eu sei, eu sei. Não é preciso ter nascido hippie ou ter ido ao Woodstock para se ter ideias libertárias. Mas naquela época era mais original, reconhecia-se um libertário pela roupa, pelo cabelo, pelos olhos, pelo vocabulário... hoje até o mais genial marginal criativo é confundido com o conservador burguês, etcétera e tal, esse papo está ficando caretão.

Se eu pudesse ter engrossado os coros contra o consumismo, contra as guerras e pelo amor, e depois disso ainda ter rolado na lama do Woodstock, dormido no campo do Woodstock, visto luas brotarem das poças d´água do Woodstock e ainda acordado em plena segunda-feira ouvindo Jimi Hendrix no Woodstock... ai, ai. Quem me conhece, não se iluda com uns certos modos clássicos de minha aparência. Aqui dentro existe uma criatura derrubando cercas e vivendo overdoses de chuva no Woodstock.

Eu não vivi o movimento hippie nem fui ao lendário festival, mas como consolo ao meu sonho frustrado e ao calor tempestuoso da noite, quero deixar claro que continuo fazendo o amor e não a guerra, que tenho sobrevivido a toda forma de autoritarismo, combatendo o meu próprio e descobrindo o amor libertário. Ave, Roberto Freire!

6 comentários:

Sunshine disse...

Todos nós queríamos ir, tendo ou não tendo algo haver com woodstock.
Beijos e boa semana.

Alexandre Alves Neto disse...

Ave! Achei.

Maria disse...

Veio na cabeça uma música dos Secos e Molhados que diz assim: Na simles e suave coisa / suave coisa nenhuma / que em mim amadurece...
Terá aí uma idéia embutida, uma opinião?
Gostei muito do texto, a fluidez é marca do teu estilo. Eu gosto muito de tudo o que escreves.
Um beijo grande!

Lulih Rojanski disse...

Sunshine,
Obrigada por seu raio de sol por aqui.

Alexandre,
Obrigada por achar (?). Volte sempre.

Maria,
Minha Maria...

renato disse...

Lulih!

Carissima amiga, para se ter ideias libertárias, seria melhor ter vivido o Maio de 1969 (Paris), apesar de também me apetecer ter ido a Woodstock!

Continue a clamar por paz e fazer amor, sinal de que tem ideias de ser humano!

Beijinho,

Renato

Caio disse...

Consta nos anais de Woodstock que James Marshall Hendrix e sua Band of Gypsies (sim, uma Banda de Ciganos) tocou no final de uma madrugada, visivelmente incomodado pelo horário que lhe era adverso, pela chuva que não parava de cair, e pelos músicos que não estavam, digamos, no melhor estado físico e mental. O hino americano, entre toneladas de microfonia e distorção, foi uma forma (genial) de dizer ao mundo : "Tá chovendo, tá tudo enlameado. Acorda, moçada, pra cima com a Vida !" Obrigado por fazer lembrar dessa passagem. Um beijo carinhoso. Z.