quarta-feira, 17 de junho de 2009

Madrigal da manhã

Da série Breves Contos
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Atravesso a cavalo por entre os tanques de guerra encalhados em trilhas de sangue sobre o asfalto, deixando para trás o rio que corre em pororocas para o mar, arrebatando ilhas e submetendo árvores. Os abrigos subterrâneos esquecidos foram tomados pelas raízes das mangueiras apedrejadas desde a criação e pelas garrafas vazias que percorreram bueiros em busca do rio que procura o mar. Procuro a montanha que em verdade não há, porque não posso conter o galope. Nas ruas, rebeldes disfarçados de piratas enforcam animais de pelúcia e saqueiam os corações das mulheres. Mágicos trajados de soldados da paz arrancam dos quepes pombos macambúzios que se abalam rumo à montanha que não há, surpreendendo os mendigos que seguram rosas entre os dentes devastados. Nos salões, os generais dançam tango, embrulhando sua nudez em toalhas de linho, calçados com os scarpins das mulheres, enquanto os cães urinam nos mocassins e devoram na mesa o banquete intocado. Estendido numa calçada, um exemplar do Le Monde exibe a fotografia dos hipopótamos mortos pelo antraz que apodrecem nas ruas em Uganda. A manchete diz que a África não possui dólares suficientes para enterrar os cadáveres. Soterrado pela animalidade, salto do galope com destino ao limbo, derradeiro abrigo, onde poderei ser pós-humano. Acordo às seis, pensando em Gerineldo, que um dia percebeu o vazio da guerra e foi envelhecer na varanda, olhando a chuva.

8 comentários:

Z. disse...

Brevemente Ahmadinejad essas imagens. Gostei. Precisão de câmera Nikon. Abraços.

Márcia Corrêa disse...

Que sonho, Lulih... Que precisão de imagens do impreciso.

bete disse...

Olha...uma tela de Dali...

Bomdimais, cê tá afiada menina!

renato_oliveira disse...

Olá, Lulih!

É uma visão "escondida" da realidade de um mundo em decadência!

É na realidade uma pintura digna de um artista que vise o "surrealismo"!

Continue com as suas delicias de se ler!

Beijinho,

Renato

Jac. disse...

O fantástico é o que
mais se aproxima da vida!

Grande abraço!

Lulih Rojanski disse...

Queridos...
Que bom que gostaram dessa fase onírica.
Beijos...

julio miragaia disse...

gostei porque me lembrou muito, de alguma forma(?), de um poema de ferreira gullar, carta ao inventor da roda. as vezes o surreal nos fala de coisas muita mais objetivas do que imaginamos.
aguardo tua visita pelo blog que encontra-se em crise existencial. rs. bjos

Monday disse...

imaginação bem descrita sempre causa um efeito bom ... gostei do texto, moça, ficou diferente do comum de dois ...