segunda-feira, 8 de junho de 2009

O leite derramado

Ainda ontem, quando vi dois mergulhões viajando em direção às ilhas - embora todos os dias eu veja - percebi que janeiro, fevereiro, março, abril e - pasmem - maio já ficaram para trás. É que os mergulhões batiam as asas de um modo indiferente, como se achassem que em junho não há poesia. Não brincavam no ar rosado da tarde no rio Amazonas, como faziam até o mês anterior: simplesmente voavam para as ilhas, consumando o tempo.
.
Perdoem-me pelo simplismo de começar falando em passarinho... é que não encontrei nada mais leve que o vôo de dois pares de asas para dizer que a carga de quase seis meses mal vividos está esmigalhando minhas pobres costelas. Quando me dei conta de que estamos em junho, tive vontade de olhar nos olhos de cada caminhante do parque e perguntar em franco desespero: você acredita?
.
É tarde para colher a esperança fresca do novo janeiro, para esbaldar-se nas alegrias de fevereiro, ainda que tudo acabasse na quarta-feira. É tarde para amansar o coração sob as chuvas de março, para tomar um dos navios que partiram em abril levando cães clandestinos e amores extraviados, ou ainda ver os anjos dançando cirandas em torno de Maria em maio... é tarde.
.
Mas ainda dá tempo de colher mansas chuvas que estendem desertos na madrugada, de ler o Leite Derramado, do Chico Buarque, sem chorar o leite derramado. Dá tempo de dobrar uma esquina e dar de cara com a primavera que virá, trazendo quem sabe o aviso de um novo amor em seus ventos de rio, tempo para ouvir os sonhos de Júlia, o riso de Olívia, as canções pacifistas de Bob Marley. De confiar na reconciliação entre os povos e descobrir que "é preciso não se recusar à vida", antes que a morte, entre outras tantas coisas...
.
E antes que os meses vindouros comecem a pesar também sobre os ombros, voltemos a falar em passarinho... há um bem-te-vi me esperando no galho encostado em minha janela.

7 comentários:

Altar da Lua Crescente disse...

Então va lá amiga, converse com o bem-te-vi e encha o coração da alegria de seu canto maravilhoso.
estava com saudades.

Jac. disse...

Lulih, já não podemos colher
alegrias e esperanças que murcharam
Mas novas manhãs estão chegando e
entre cantos de bem-te-vis e noites de
chuvas mansas há sempre tempo de
colher novos amores!

Sempre me encanto com o que escreves!!
É muito lindo e toca o meu coração!

Lulih Rojanski disse...

Araciara e Jac,

Obrigada pela companhia nessa procura de compreender o tempo. Beijos.

bete disse...

Bem-te-vi! que você está aí, minha amiga da amazônia, sempre misturando reflexões profundas com coisas da natureza, como não poderia deixar de ser a tão autêntica brasileira. Conta mais, fala mais dos passarinhos pra gente...

renato_oliveira disse...

Olá, Lulih!

Deve ser lindo esse tal Bem-te-vi! Para estar junto da janela de uma mulher bela como você, só pode!

Realmente é encantador tudo o que você escreve!

Beijinho,

Renato

Mayara La-Rocque. disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Mayara La-Rocque. disse...

No meu quintal havia uma abelha, uma abelhinha. Todos os dias, na beira de uma flor, ela ia pra cima e para baixo, como numa dança, beijar e colher seu néctar. Ela não olhava para os lados, não contava quanta vezes tinha de bater as asas para chegar ao seu doce prazer. Apenas chegava, e quando chegava, não contava o tempo. Voltava para suaa cólmeia, e quando voltava, não ia de contra ao vento, apenas seguia em favor dos ares, em direção ao seu mel. Na minha janela há sempre um passarinho, ora um Bem -te-vi, ora uma Andorinha, ou uma Rolinha-cinzenta. Um dia, ao olhar o céu, percebi que um desses, voava levemente voava, voava e parecia não chegar, parecia não ir. Cheguei até a pensar que estava simplesmente parado no ar; o bicho era pequeno e quase parecia cair. Tentei voar até ele, sim, tentei aprender a voar para segurar as asas de um pássaro! Mas num instante, ele ergueu seu minúsculo bico e edificou seu vôo, como se fosse a conquista de todo o céu. Foi então que me dei conta que alí havia o vento, quem batia as asas era o passáro, um miúdo passáro. Me dei conta de que ali havia poesia, porque seu vôo seguia e ia infalivelmente, sem erro algum, contra ao vento.