quarta-feira, 22 de julho de 2009

Esperando agosto

.
Eu era bem menina quando me ensinaram que agosto era mês de cachorro louco. Fazia sentido: no lugar onde eu morava, nos confins do Paraná, o clima de agosto era propício à proliferação do vírus da raiva canina. Cachorro louco era coisa comum por lá, de forma que cresci com este agosto estigmatizado na ideia. Além de mês de cachorro louco, era o mês da bruxa solta, do azar desgovernado e uma série de outras crenças.

Pelo mundo inteiro agosto é uma ameaça porque historicamente coisas terríveis aconteceram neste mês, gerando paranoias universais. Mas no balanço geral, acredito que outras coisas não menos terríveis aconteceram em outros meses e nem por isso se teme outros meses.

Foi em agosto que as cidades de Hiroshima e Nagazaki foram destruídas pelas bombas atômicas, foi em agosto que Hitler assumiu o governo alemão e começou a fazer o diabo, que Nelson Mandela foi preso, que se iniciou a construção do muro de Berlim, que Elvis Presley, Marilyn Monroe, Trotski, Nietzche e a princesa Diana morreram, que nasceu Bill Clinton...

Em compensação, foi em agosto que nasceram Herman Melville, Louis Armstrong, Alfred Hitchcock, Jorge Amado, Tolstoi e a Madre Teresa de Calcutá. Se isto não é suficiente para demonstrar que agosto é um mês injustiçado, foi em agosto que se iniciou o Festival de Woodstock, do qual eu poderia ter participado se não morasse nos confins do Paraná e se não tivesse três anos de idade. Mas este desejo é assunto pra outro dia.

Agosto só se tornou agosto em homenagem ao imperador romano César Augusto, que não queria ficar por baixo do imperador Júlio César, que por sua vez já era dono do mês de julho. E como julho tem 31 dias, César Augusto bateu o pezinho e disse: eu também quero! Por isso agosto também é de 31. Antes desta crise de frescura, agosto se chamava Sextil.

Pra quem não sabe – e eu também não sabia até hoje, parte do medo do brasileiro do mês de agosto foi herdada de Portugal. Como a época era a melhor para o início das navegações, em Portugal mulher nenhuma queria casar em agosto, porque o marido ia embora pro mar e em muitos casos nunca mais voltava. Morria afogado, se arranjava com outra em outro porto, etc... É por isso que no Brasil se diz que casar em agosto traz desgosto. Agora, não lavar a cabeça no mês de agosto, porque disque isso chama a morte, é coisa de argentino.

Portanto, prefiro esperar agosto como quem gosta da vida, e não como quem espera uma chuva ácida.

4 comentários:

bete disse...

Luly, ando com muitas dificuldades de ler tudo, devido a correria, mas prometo no proximo final de semana colocar minhas leituras em ordem.

Estou com saudades suas, passe por la...


beijos betuxa

araciara disse...

o teu texto lembrou um que fiz e que guardo a sete chaves. é um que fala da minha mania de somar placas de carro, se o numero final for 3 ou 8 é sinal de tristeza. coisa boba né? minha mãe sempre nos chamou a atenção para não viajar, fechar negocios, casar ou tentar discutir a relação no mes de agosto pruq é um mes agourento. eu gosto do mes de agosto, não tenho nada contra o pobre coitado.

Sunshine disse...

Esperando sextil.

Kiara Guedes disse...

...
eu fiquei aqui pensando se pra mim, existiria algum mês não tão querido, mas lesa do jeito que sou, isso seria impossivel, eu não lembro as vezes que dia foi ontem e amanhã é sempre outro dia, né.
Em todo caso, que seu agosto seja do seu gosto e pelo q conheço de suas palavras, q nao são diferentes da pessoa nunca, será de muito bom gosto! Bjs, meus.