terça-feira, 14 de julho de 2009

Querido pai

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Meu pai tem nome de poeta: Casemiro... Nasceu no Rio Grande do Sul, na década de 1930, mas não chegou a antenar-se nunca na efervescência cultural da época, na revolução industrial, na nova poesia modernista, nos romances regionalistas, na popularização dos automóveis e etcétera. Morava nos mais longínquos rincões gaúchos e precisava plantar e criar o que ia comer. Mas ouvia rádio nas altas oito horas da noite, cansado de roça, espiando pela janela a cadência das estrelas sobre o matão e com a cama já preparada para dormir. O arado à espera para a madrugada do outro dia.

Por isso sei que os ouvidos de meu pai foram educados pela mais pura música sertaneja de raiz, aquela que cantavam Cascatinha e Inhana, Tonico e Tinoco, Pena Branca e Xavantinho... Aquela mesma que ele teimava em continuar ouvindo em discos antigos quando eu já era adolescente e morria de rir de seu gosto pré-histórico.

Um dia, muito tempo depois – eu já era bem adulta – surpreendi meu pai encantado com uma música que eu costumava ouvir nas ocasiões em que tentava desvendar o que fazer para unir o fio das minhas saudades à presença real do objeto de minhas saudades... Era Louis Armstrong cantando What a wonderful world.

Ontem entrei no supermercado no justo momento em que no sistema de som ambiente Louis Armstrong começava: I see trees of green, red roses too/ I see them bloom for me and you/And I think to myself/what a wonderful world... A música de meu pai, pensei, e então de repente me lembrei que era o dia de seu aniversário. 13 de julho. Seu Casemiro estava fazendo 74 anos.

Deixei lá na cestinha o pacote de arroz com brócolis que fui comprar. Saí do supermercado para chorar de saudade de meu pai no meio do sol de meio-dia, pois já era tempo de arrepender-me das tantas vezes que zombei do sertanejo que havia em sua alma, as mesmas vezes em que ele desligou o disco de suas poucas manhãs de folga somente para me agradar.

10 comentários:

Jac. disse...

Essas lembranças antigas...esse
Louis Armstrong e esse mundo maravilhoso que encanta e emociona...
Senhor Casemiro com sua alma
sertaneja e seu arado...nada acaba
quando vive em nossa memória!

Aroldo Pedrosa disse...

Depois de concluir leitura de "Querido pai", e com os fiozinhos de cabelo dos braços todos em pé, fiquei preocupado com o seu Casemiro - gaúcho de boa cepa pai da escritora e inspirador de tão virtuosa crônica. Luli, pede pra alguém estar ao lado do "tchê", lá no Trairão, na hora que ele for acessar o "Ave, Palavra!", viu?! Viva o seu Casemiro e a música (com palavras) que também é mágica!

kiara Guedes disse...

viver é mesmo sentir... e qdo entra um desses genios pra nos trazer lembranças dessas é sempre forte, nao há como ser do contrario.

renato_oliveira disse...

Oi, Lulih!

Sabe a Lulih que quem nasce ou nasceu no mês de Julho, só pode ser muito boa pessoa, e com muito bom gosto!!!

E que linda recordação nos transmitiu, de seu querido Pai. E com o bom gosto de um génio da música como é o Louis Armstrong, tudo ficou na perfeição!

Parabéns Lulih por tudo!

Beijo,

Renato

Sunshine disse...

Que lindo poder comprar o almoço ouvindo What a wonderful world, poder ter uma recordação tão significativa e depois ainda escrever uma crônica tão bela. Beijos para ti!

Ernâni Motta disse...

Luli, então, vivas para o seu Casemiro! Sabe, meu pai também gostava de cantarolar suas músicas e, igualmente, eu e meus irmãos ríamos daquela pré-história... Hoje, minha filha faz o mesmo comigo. Acho que a vida é assim mesmo, mas, o interessante é que, assim como você, eu aprendi a gostar dar músicas que meu pai cantava e, cá pra nós, já peguei minha filha ouvindo os meu LPs... rs.
Um beijo.

Caio disse...

A citação do verso é a chave que abre a porta da Vida :

"Vejo árvores verdes, rosas vermelhas também;
Vejo tudo florescer para mim e para você;
E (então) eu penso : que mundo maravilhoso..."

Parabéns ao Sr.Casemiro. Parabéns, Lulih. Abraços. Z.

bete disse...

Lulih, depois de ouvir uma história bonita dessas, só me resta largar a cestinha das minhas preocupações no chão, e daqui do sul te dar um abraço super apertado, daqueles de quebrar a espinha. Porque tem hora que é só chorar mesmo, né?

Lulih Rojanski disse...

Jac, Aroldo, Kiara, Renato, Sunshine,Ernani,Z e Bete...

Bom saber que compartilharam comigo deste momento revivido.
Bem-vindos sempre!

maria disse...

Que triste, triste... Muito humano.
Emocionante.
Você sempre me provoca muitas reflexões, mãezinha.
Um grande beijo!