quinta-feira, 6 de maio de 2010

Crônica pra cachorro

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Ainda não consegui alcançar a filosofia da frase de Ovídio que diz “se os bichos falassem, nada diriam”, mas acho a frase um espetáculo. Tenho um enorme encantamento por bichos, e acho que o fato de não falarem com palavras foi muito bem pensado pela natureza. Quanta poesia comunica um cachorro de olhar manso para o crepúsculo, ou o de olhar sereno que parece confundir estrelas com longínquos vaga-lumes. Quanta poesia num cachorro que silencia para os latidos da madrugada, indiferente ao abandono, feliz com a própria solidão... Num cachorro que espera o dono morto de vergonha (o dono) na porta da escola. Falar pra que? É isso, Ovídio?
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Eu nunca passo por um cachorro sem cumprimentá-lo. Reconheço em todos extrema simpatia, por mais ferozes que possam parecer ou por mais medonhas que sejam as piras dos abandonados. Quanto a certas pessoas, não me lembro de onde conheço, se ao menos conheço, por mais interessantes que possam parecer. A dúvida toma tempo, passo em frente... tarde demais pra cumprimentar.
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Se eu tivesse nascido cachorro, seria um cachorro que comeria massas. Se não me dessem massas, seria um cachorro infeliz. Se tivesse nascido cachorro, gostaria de me chamar Lilih, com toda a doçura desta sonoridade e com toda a frescura que o h lhe empresta. Se me dessem o nome de Bolinha, seria um cachorro rebelde, onde já se viu, do alto de minha superioridade de cachorro manso, livre e levemente taciturno, me chamar Bolinha... Dormiria em folhas secas e ficaria olhando os navios no cais, com vontade de partir. Seria um cachorro pensativo sobre os nadas que garantem a possibilidade de filosofar sobre a vida.
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Sem dúvida, em alguma encarnação perdida por aí, eu fui cachorro. Embora gostasse mais de ter sido um gato seráfico e esquisito, um gato de todo encantamento e de inaudito miado brando*, um gato com postura de esfinge, em cujos olhos fosforescentes um chinês pudesse ver as horas, e que preenchesse de elegância e enigmas os versos de Baudelaire.
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*Do poema O Gato, de Baudelaire (que amava os gatos).

10 comentários:

Alexandre Alves Neto disse...

Gostei por demais, também adoro os cachorros.

Sunshine disse...

Eu gosto de sua brincadeira de dizer verdades. E o Stefen Fry, por onde andará?

neo-orkuteiro disse...

Bela blogada!
Os cães são uma ambiguidade ambulante. Simbolizam amizade e fidelidade, por um lado. Do mesmo modo que as corujas sabedoria, os asnos teimosia, as pombas paz, as raposas astúcia, e por aí vai.
Por outro lado, o quer não faltam são conotações negativas associadas a eles. "Vida de cão" é outro jeito de se dizer vida infeliz, miserável. Nada semelhante à vida que levam cães reais a cujos donos Duzek sugere a substituição por uma criança pobre, esta sim levando vida "canina".
Também não compreendi a tirada do velho romano que você cita aqui, mas concordo integralmente com você quanto a seu efeito. Adorei!
Parabéns pelo post e até qualquer momento, Lulih.

Lulih Rojanski disse...

Alex,
E também as borboletas, passarinhos, tartarugas, coelhos, garças...

Sunshine,
Do Stephen Fry ninguém sabe o paradeiro.

Neo,
Sobre o velho romano, são coisas que nos contam e a gente quase acredita. Vou pegar o Bonde Andando hoje! Aguarde.

Abraços a todos.

Ernâni Motta disse...

Lulih, me amarro num cachorro, por sua sabedoria e seu riso fácil. Parece que eles se dedicaram a estudar as metáforas e fazem delas a razão de um diálogo. Eu converso com os cachorros, também. Por gostar tanto deles, aqui, em casa, tenho dois: a Anita e o Shumy (é o cara tem nome alemão, afinal, ele é um portentoso Weimaraner. Beijos e uma ótima semana para você.

Pepê Mattos disse...

Minha namorada que é espírita-kardecista diz um monte de coisas sobre eu ter sido alguém totalmente ao contrário do que sou hoje. Ainda não me assegurou que eu fui um dia bicho. Diz-me ela queu fui um crente ardoroso preu ser esse descrente-niilista que sou hoje. De bichos não sou muito fã em casa. Porém-contudo-todavia admiro a amizade canina que uns têm por eles. Em casa há Platão, soçobra de pai husky/pastor alemão e mãe viralata/outra raça-seilákwal. Super alegre tem me quebrado um grande galho reparando a casa. Mas acho que se tivesse nascido bicho já tinham me empalhado. Mês que vem compro o teu Abilash com autógrafo e alguma prosa acompanhada de uma gelada por aí. Abraços...

Lulih Rojanski disse...

Ernâni, experimente ficar olhando nos olhos de seu cachorro... Você vai ver como ele compreende melhor que a gente a finitude de tudo isso qe aí está. E de modo sereno.
Um abraço.

Pepê, a ideia de você empalhado é muito engraçada.
Um abraço.

Maria disse...

Pois é, por onde é que anda o nosso gato robusco e doce, que se deitava em cima do livro eberto à nossa frente, em cima da mesa?

Maria disse...

Opa... Robusto!

saitica disse...

Vamos esticar nossos blogs ?
Belos trabalhos. Eu te linco e você nos linca, ok ?
www.saitica.blogspot.com