sábado, 1 de setembro de 2007

Adeus, agosto

Já não era sem tempo que agosto terminasse. Por uma estranha combinação entre as energias negativas do universo, nosso agosto é sempre infeliz. Julho mal se fechava quando começamos a desconfiar de que neste ano agosto não nos surpreenderia com qualquer diferença. E desde o seu primeiro dia sentimos no peito um inusitado desconforto, como se a alma se sentisse estrangeira dentro do corpo e desejasse fugir para outras paragens. E com a alma ameaçando partir, sentimo-nos, por 31 dias, à beira da morte.
Tivemos medo de enlouquecer, como acontece aos cães, e até algumas vezes nos pegamos falando sozinhos, apresentando uma idéia e um argumento para nós mesmos em plena faixa de pedestres! Porque em agosto se morre e se enlouquece. Quando não, fica-se irremediavelmente suscetível.
Pois este agosto foi deveras triste... os pássaros confundiram a estação e perderam o rumo; um poeta morreu deixando um poema pela metade; entregamo-nos pusilânimes a gratuitas crueldades; os paradoxos se tornaram lógicos, e a filosofia daquele que é feliz em companhia da tristeza foi largamente aclamada; a distância entre a palavra e o gesto ficou maior, e as vírgulas invadiram as falas, tornando amargas as que seriam as mais ternas mensagens; os desejos se mostraram indomesticáveis e todas as perdas iminentes; todos os advérbios de modo foram gastos sem retorno; um barco zarpou em busca do mês de abril; nenhuma loucura foi perdoada e não houve abraços que fossem capazes de conter as agitações do espírito; a mentira assumiu o poder, reduzindo as coisas verdadeiras a meras banalidades; e como se não fosse suficiente o caos da espera infinita, do tempo multiplicado, da palavra que perdeu a razão porque não pôde ser dita, “no meio dessa confusão, alguém partiu sem se despedir*”...
Agosto se foi, e nosso coração desavisado ficou meio sem esperança no homem. Mas nestas primeiras horas de setembro já sentimos os ombros mais leves e pressentimos que devagar e sem alarde redescobriremos a confiança envolta na poeira do que passou. Sairemos da casca para receber o sol, como crisálidas. Escolheremos a primeira segunda-feira para nos sentar no banco de uma praça distante, ao crepúsculo, ainda que sozinhos, e nos surpeenderemos de que a vida agora pareça tão leve, apesar de tudo o que em agosto morreu em nós.

*Frase inicial da crônica Despedida, de Rubem Braga.

3 comentários:

Margarida C. disse...

Sim, sei desse "desconforto inusitado", dessa alma revalada, subitamente "estrangeira", dessa insólita coincidência "cósmica" que faz Agosto doer na pele e no peito, vá lá a gente saber porquê. E fico a perguntar-me pelo cristalino simples das afinidades que tão sempre encontro do outro lado do Grande Oceâno... E fico eu grata de ter guardado no bolso o fio de acaso que me trouxe aqui há uns dias atrás. E fico eu grata porque você escreve. Eu, que trago a escrita travada faz tanto tempo e me animo agora a te balbuciar breves palavras. Pra dizer bela, a sua escrita. Muito bela. Mesmo quando dói. Pra dizer que sentaremos juntas na praça, nesse caso. Na 1ª segunda-feira, então. Aguardando um crepúsculo mais suave que sopre adiante o ardido de tantos Agostos.

Fica um forte abraço meu.

Anônimo disse...

esse foi sim, minha querida, um agosto denso demais. quase não deu pra respirar.
todos os fantasmas do passado voltaram para me assombra. com medo, me armei de ódio.
agosto é assim de enlouquecer.
mas setembro está aí para nos trazer dias mais claros e o vento bom da esperança de um novo amor que chegou nos primeiros raios desse mês de encantamentos.

seja feliz.
do fundo do meu coração.

Fábio Luis disse...

Se agosto foi ruim, lembre-se que Setembro vem aí, e no dia 22 ele nos traz a Primavera, a estação que nos dá o direito de florir.