segunda-feira, 6 de agosto de 2007

Os aviões

Inspirado em Chuvisco na Paisagem, por sua vez inspirado em Pearl Harbor

Amanhecia quando começaram a passar os aviões. E o primeiro a passar foi o primeiro avião da vida do lugar. Nunca antes houve outro que tivesse sobrevoado tão remoto povoado ao sopé de tão remota montanha, onde tudo o que se via no céu eram as neves do inverno e as nuvens baixas que escondiam os sóis e as luas. Naquele dia as nuvens abriram espaço aos aviões e todos correram para os campos com o olhar perplexo para ver passarem os grandes pássaros de aço com seus roncos de monstro desperto. Os rostos queimavam de felicidade ao insólito desfile de meia dúzia de aeroplanos que faziam cinematográficas acrobacias, inusitados desenhos no céu. As crianças eram as mais encantadas, e habituaram-se logo à névoa mágica despejada sobre o povoado, pois as cerrações dos seus invernos na montanha eram infinitamente mais densas. Os velhos deitavam-se de costas uns ao lado dos outros, para ver o espetáculo, e nem eles nem as crianças sentiam passar o tempo, hipnotizados pelo milagre da descoberta de sua existência pelos homens que possuíam aviões. E quando não havia mais ninguém dentro das casas, quando todos se encontravam deitados na relva, os aviões despejaram a névoa vermelha que silenciosamente devastou os campos verdes e adormeceu os velhos, os jovens e as crianças para toda a eternidade.

4 comentários:

Fábio Luis disse...

Me lembrou Garcia Márquez. A longínqua Macondo e a descoberta da ciência. É muito interessante pensarmos na estupefação que "coisas", sobre as quais já nos habituamos na vida, causaram nos mesmos seres humanos. Como disse Jostein Garder "o verdadeiro filósofo é aquele que nunca deixa de se adimirar com as coisas simples da vida, seja o balançar dos galhos de uma árvore, seja a chuva, etc... "Que seja também inesgotável o nosso encanto em pensar que existem "grandes pássaros de aço com seus roncos de monstro desperto". Parabéns Luli, mais uma vez me encantou!

Júlia Rojanski disse...

Mãe... eu achei lindo o teu texto !! bjos,bjos,bjos !!!

Caio disse...

Lembrou-me meus 8 anos de idade, quando aos domingos à tarde, ia com meus pais até o aeroporto de Congonhas, e subíamos as escadas até uma enorme varanda onde podíamos ver Viscounts, Electras, Samurais e Caravelles, subindo e descendo perto de nós... irônicamente minha mãe comentou um par de vezes : "Como eles passam pertinho da rua !..." fechei os olhos e estava dentro de "Apocalypse Now" do Coppola, toda essa fumaça vermelha... Mágico, Mágico. Ave, Luli ! Abração !

Maria disse...

Terno, iluminado e ao mesmo tempo turvo, intenso... Mas pensei que ao chegar encontraria novo texto. Que tal escrever, mamãe? Beijo.

(Ah, mais uma coisa: tu és o máximo!)