quarta-feira, 22 de agosto de 2007

A casa

Noite passada revi em sonho a casa de minha infância. Era ainda maior do que nas lembranças, que tantas vezes me traíram, e tinha o ar feliz das aquarelas que nunca perdem a cor. Branca e solitária entre as paineiras, dava-se ao deleite de receber o outono por todas as suas janelas. Somente Maria, minha irmã, que ainda era moça naquele tempo improvável do sonho, estava na varanda, varrendo folhas secas. Ninguém mais. O céu era rosado como nas tardes do princípio do inverno e o vento tornava a cobrir de folhas o chão de tábuas da varanda, mas ainda assim Maria sorria um sorriso que prenunciava a primavera. As roupas nos varais tremulavam como bandeiras floridas, quando um açoite maior do vento fechou com estrondo uma das janelas. Então acordei. Ma ainda vi um último lampejo do olhar de minha irmã, como um convite ao exílio na casa da nossa infância.
Era madrugada, e um vento amazônico nascido no princípio da noite teimava em continuar perturbando o sono das jaqueiras do quintal ao lado, como a paz das paineiras no sonho. Revi a casa, agora no escuro do quarto, pela madrugada que levou três noites para chegar ao fim. Em toda a sua solidez, continuei a vê-la como a luz de um sol implacável, cuja bolinha de fogo continuasse a me perseguir de olhos fechados. A casa em seu tempo, onde minha mãe, de cabelos compridos e alvos braços, levava pela mão um menino que não tinha consciência da imensa beleza de seus olhos azuis: meu pequenino irmão, que chorava porque meu pai não nos trouxera bergamotas. Em frente à casa, de um caminhão descia meu pai, o mesmo homem da fotografia na parede da sala, que trazia um cravo vermelho no bolso do uniforme do soldado triste que ele foi.
Num tempo menos feliz, na varanda da casa testemunhei o chorinho remoto do velho pai de Nina pela morte da filha tuberculosa. Naquele tempo intangível nenhum de nós disfarçava os afetos, e éramos puros demais para imaginar quantas mortes experimentaríamos antes da derradeira. Nina, que me contava as histórias dos fantasmas que viriam povoar minha vida, ao menos sabia que ela mesma seria deles o mais renitente.
Coberta de uma recôndita dignidade, a casa veio tão certeira na madrugada me dizer que intangível é o tempo, mas não o que ele ensina. E embora tenha levado meu sono, como uma brisa que despertasse folhagens inertes, veio me lembrar de que não precisamos ser tão rudes nem perder tanto tempo remoendo passagens mortificantes. Pois o que fica, no final de qualquer conta, é uma saudade demorada... das coisas, das pessoas, e até do que ainda está por vir.
Pensarei agora todos os dias na casa, que hoje existe apenas no chão incerto de minha memória e de meu sonho. Tenho medo que dia desses, nestes tempos também incertos, ela perca este seu último endereço.

3 comentários:

Márcia Corrêa disse...

As casas de infância, onde moramos, passam a morar na gente quando crescemos. Os endereços se entrelaçam e se vão... Lindo sonho.

Alexandre disse...

Esse sonho parece uma música que vc me mostrou há muito tempo atrás e que eu gostei muito. Agora não me lembro bem da letra, não vou arriscar. Trouxe saudade, se era essa a idéia... ABS

Fábio Luis disse...

Que belo exemplo de nostalgia que toca além dos limites da imaginação e de nossos sentimentos. Senti encanto por algo que não vi, nem vivi e nem sonhei, mas é como também tivesse acontecido tudo isso comigo.