quarta-feira, 25 de julho de 2007

O gato

Dorme o gato na terra seca e morna, sob a árvore carregada de tangerinas. Pressente a chuva fiel a toda tarde, e abre uma fresta de olho para as nuvens que vêm cobrir os raios de luz que vazam pelos galhos. Chamo-o por duas, três vezes, e ele me olha sereno, mas não se demora muito a voltar ao fundo de sua introspecção. Olhos amarelos, peito branco, capinha e máscara pretas. Zorro! Herói à antiga. Corpinho esquálido de gato de rua, boêmio e imensamente sábio. Quase sempre me ouve e com afagos me consola das minhas confusões e perplexidades. Aproveito seu instante de imóvel contemplação das folhas que se movem fluidas em torno de si, e vejo as horas nos seus olhos, como faria um chinês. Dezessete. Logo virá a noite, e com ela, ele me deixará no paroxismo do abandono. Como se adormece um sonho, gato? Pergunto-lhe do fundo de minha rede. Ele se levanta enigmático, se espreguiça, salta sobre a cerca estreita, onde exibe o talento equilibrista, e se afasta lento, ignorando sem a menor piedade o meu apelo. Tu não queres saber, gato, sobre os meus desatinos? Nau, nau, nau... sai ele dizendo caminho afora, rumo ao terreno baldio, onde poderá matar pequenos calangos sem o meu incômodo apego à sua companhia. E eu penso que ele me diz não, não, não... Nau, nau, nau, ele repete, já do outro lado do cercado, e enfim o compreendo: Eu também quero uma nau, gato. Uma nau para transpor o imenso oceano que é o vazio dessa vida. Ele nem se volta, o ingrato.

2 comentários:

Fábio Luis disse...

Clarice Lispector disse que o homem é o único ser que sabe que vai morrer. Os animais não pensam a respeito disso. E isso pode ser um dos motivos de tanta diferença no compromisso com a vida e o mundo. O imenso oceano que é o vazio dessa vida, não é vazio para o gato. Será? Talvez. Belo texto!

Júlia disse...

Tu és boa pra inventar texto, muita criatividade e etc... te amo ! #]