domingo, 22 de julho de 2007

Madrugada
Fechemos a porta. Não vê que lá fora a madrugada nos mostra a presença indestrutível da solidão? Feche os olhos e veja os sóis que se desenham tão vivos nas paredes das nossas pálpebras cerradas. Deixe lá fora os gritos dos que nos chamam, a sedução das cores e da chuva que parece pousar como uma borboleta em sua pálida fronte. Por hora não há verbo que indique a saída, e se quiser um pouquinho de dor, a poesia continuará a nos castigar com as chibatas das redondilhas. Já traímos as estradas que nos foram dadas, e agora só este lugar nos abrigará dos relógios anacrônicos que tornam ainda mais longa a madrugada. Olhe ali... há uma teia a obstruir nossa partida, há uma chave que caiu do outro lado da porta, há uma gota translúcida pendendo daquela haste, e que se parece, em sua perfeição, ao instante de paz que imaginamos nos dar. Deite-se sobre o meu peito, e eu contarei das batalhas que travei contra a conspiração das palavras que se recusaram a sair, contra as verdades que se negaram a chegar. Ouça a tempestade se armando contra o tempo que nunca cede lá fora, onde os ventos estão apagando nossos rastros, nossos odores, e já desenham outros caminhos que talvez nunca cheguemos a aprender. Se as interrogações da noite abalarem nosso sono, não adiantará abrir a janela para que entre o terno consolo das brisas. Entrará a tempestade, e então estaremos os dois condenados ao triste caos dos que sozinhos enfrentam temporais. Observe a delicadeza da gota, que poderá desabar no próximo instante, a menos que se disponha a sorvê-la em sua alma. Fique. Lá fora a angústia, a lavoura, a voragem. Aqui o silêncio, o porto, a mansidão, e a gotinha à espera da colheita. Fechemos a porta.

Um comentário:

Fábio Luis disse...

Só não fechemos a porta para a transfiguração da madrugada que você nos apresenta. Se a poesia continuará a nos castigar com as chibatas das redondilhas, seu texto nos absolverá da angústia que a vida insiste em nos causar. Observei a delicadeza da gota e resolvi sorvê-la em minha alma, sim! E por quê não? Parabéns Luli, você escreve muito bem! Capta toda a simplicidade esquecida e a delicadeza perdida! Adorei o texto e também a foto com a gota!

Beijos!