terça-feira, 8 de junho de 2010

Naquele tempo

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Naquele tempo (disse Jesus aos seus discípulos...). Eu tinha a maior vontade de começar um texto assim, com esta expressão e com estes parênteses, tinha medo de fazer imitação barata de Mario Prata. Agora já fiz e está feito. Mário Prata nem vai ficar sabendo, esse mundo é muito grande. Enfim, naquele tempo, eu era consumida pela vontade de conversar sobre as coisas que lia, sobre as coisas que escrevia... Queimava-me o desejo de abrir o livro que estava lendo, e ler trechos em voz alta para o meu interlocutor, ao que ele poderia dizer puxa vida, que lindo, de onde esse cara foi buscar inspiração pra escrever uma coisa tão louca?... Você não acha que ele pode ter sofrido a influência do fulano de tal ou ter sido tocado pelo movimento tal? E eu, morta de feliz, responderia.

Ou então imprimir um texto fresco, recém-saído da alma pendurada nas pontas dos dedos que o digitaram, e mostrar a alguém que pudesse dizer ao menos eu, hein... que coisa piegas... você já escreveu coisas melhores. Talvez fosse chato ouvir. Mas não tanto quanto jamais receber a opinião.

Utilizei os mais óbvios e os mais inusitados recursos na tentativa de captura de um interlocutor que me satisfizesse esse ardente desejo. E nesse percurso desatinado, encontrei tipos com desejos bem mais estranhos que os meus. Um deles desejava apenas olhar para a lua com a atenção de um astronauta enquanto eu me enredava em impressões sobre as publicações digitais. Outro desviava sempre o assunto para um sonho que lhe era recorrente desde a infância. Um outro ainda apenas fumava, em silêncio, olhando sorrateiramente pelo espelho o jogo de futebol na televisão às suas costas. Eu poderia abrir aqui um breve parágrafo para singulares exceções. Mas não. As exceções me compreendem, porque afinal são exceções.

Aquele tempo passou, porque o tempo, o mais disciplinado dos fenômenos (blablablá...), cumpre sua obrigação de passar, aconteça o que acontecer. E eu sinto muito por ter descoberto, à custa de muito empenho de meus eventuais interlocutores – que passaram vidas tentando me mostrar – o que era evidente desde o princípio: eu sou uma grande chata. Meu vício em literatura é incurável. Eu realmente lamento... Enfio a viola – ou o livro, a folha avulsa, o manuscrito – no saco e saio de cena de mansinho, se o papo não está agradando. Mas naquela vontade nada põe rédeas. Nem a viagem do tempo.

6 comentários:

Olívia Rojanski disse...

Eu sempre te escuto sem olhar pra lua. :)

Sugai disse...

O mundo não é tão grande assim, moça.
Mas pode usar, seja discípula.
Beijo
Mario Prata
mac.prata@terra.com.br

Lulih Rojanski disse...

Sugai,
Depois de Prolegômenos não tem mais nada? Por que? Fiquei curiosa... E além de Coisa de Viado tem outro blog?
Volte sempre. Um abraço.

Maria disse...

Tem gente que é chata, mas também tem gente que é bunda mole pra caramba, com o perdão do termo em seu respeitoso blog. Eu não acho você chata, e olha que tenho, acredito, respaldo pra dizer isso. Ainda hoje, quando abro a primeira página do Cem anos de solidão, posso ouvir a tua voz me lendo o primeiro parágrafo daquela história maravilhosa, quase de cor, e a emoção com que contou do episódio da morte da Remédios. E me lembro de mim pequenininha, da história que você contava de um lugar onde choveu sem parar durante quatro anos. E quantas histórias mais, de outros livros! São ótimas recordações...
Todo mundo devia ser contaminado pela paixão da literatura!
Beijos.

Alexandre Alves Neto disse...

Que alívio, acho que tô no final do terceiro parágrafo. Será que sim? Será que não?

Lulih Rojanski disse...

Que bom ter a família reunida! Cadê a Júlia?