segunda-feira, 17 de maio de 2010

Se bem me lembro...

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Quando Clarice Lispector morreu, na manhã de dezembro de 1977, fazia uma sexta-feira formidável. Eu tinha sardas que se abriam como flores quando o sol no rosto, pernas brancas como mandiocas recém-descascadas e uma recôndita vergonha de ser polaca. Talvez colecionasse piolhos. Não sei. Mas tinha sobre os outros a vantagem de já ter ouvido falar em Clarice Lispector. Nada, entretanto, que alguém visse como vantagem. Clarice se foi quando era a hora da estrela e eu ainda chorava sobre o túmulo de Elvis Presley.
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Naquele dia voltei da escola mais cedo, fugindo de uma ameaça de morte durante o recreio. O menino que me prometera um soco no estômago para a hora da saída era o mesmo que quebrava as vidraças da escola a pedradas, que assaltava os que possuíam lanche, que não gostava de ser olhado de frente – e este foi o meu delito. Voltei pra casa pela sombra das paineiras das alamedas desertas de Salto Santiago, colhendo furtivamente dos quintais alheios folhinhas de hortelã para o chá da tarde.
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Como me lembro disso? Todos os dias de dezembro eram formidáveis na primeira infância. Todos eram como a véspera do Natal e em todos eles havia a promessa da primeira bicicleta. Eu sempre voltava da escola pela sombra das paineiras, sempre furtava folhas para o chá e era constantemente ameaçada pelo menino louco.
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Pois na manhã em que Clarice morreu não foi diferente. Havia sol, havia vento, e havia uma paisagem magnífica enlaçando meus ombros. Não sei como, mas neste tempo improvável eu já sabia que a paisagem sempre transcenderia o que se olha. Não tinha a menor noção do que acontecia no resto do mundo – e o resto do mundo era o que sobrava depois do meu, mas já colhia daquelas caminhadas solitárias sentimentos que não tinham nome.
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Soube do fim de Clarice um tempo depois, e ele não me chegou a ter importância, pois só lhe conhecia o nome, não podia ainda lhe compreender a alma. Também tempos mais tarde o menino louco me acertou o estômago, num dia cerúleo em que eu colhia a felicidade clandestina de furtar mudas de manjericão. Levei outros socos ao longo de outros caminhos e um dia consegui dar nome aos sentimentos que povoavam as caminhadas dos meus sete anos, mas nunca deixei de olhar ninguém de frente. Precisei, porém, conhecer Lunardi*, 32 anos depois da morte de Clarice, para entender, finalmente, que naquele tempo, embora pálida e avoada, eu já pertencia à Ordem dos Corações Selvagens.
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*Adriana Lunardi é escritora, autora do livro Vésperas, entre outros tão belos quanto.

8 comentários:

Olívia Rojanski disse...

Mãe,tu já tiveste onze anos?! Mentira...
Mas essa fotinho precisava de um tratamento.
Beijos.

Sunshine disse...

Lulih, como se faz pra entrar para a Ordem?

Lulih Rojanski disse...

Olívia,
Tá.

Sunshine,
Tem que ter nascido meio lunático...

Beijos.

neo-orkuteiro disse...

Que passeio, que viagem! Devo voltar aqui mais vezes.
Beijos, Lullih

jac rizzo disse...

Lulih, todos nós fomos conhecer
Clarice mais tarde...
Há um poema de Drummond, em que
ele diz..."Deixamos para compreendê-la mais tarde.
Mais tarde, um dia, saberemos amar Clarice..."

E porque você foi aquela menina alheia, distraída, é que sua alma, hoje, abriga tanta sensibilidade.

Pura emoção colho em seus textos!
Um beijo.

Lulih Rojanski disse...

Neo,
Obrigada pela condução de seu Bonde até aqui.

Jac,
O melhor de tudo é que Clarice viverá para sempre.

Beijos aos dois.

saitica disse...

Esta maçã...é tri provocante

luli rojanski disse...

Daniel e Stella,
Sempre que abro o blog, sinto o cheiro da maçã...