sábado, 14 de março de 2009

Reticências

Deixe-me sozinha... morreu o trema. Sou mais uma entre milhões de órfãos piegas que andam chorando sua morte. Pobrezinho, tão protetor dos us desamparados dentro das toscas palavras sequela e tranquilo. Até linguiça, com a presença do trema, era menos bizarra. Ao deparar com a palavra, era regra que minha atenção se voltasse para os dois pinguinhos parecidos com dois olhinhos meio desconfiados olhando de baixo para cima o altivo pingo do i. Pois o novo acordo da Língua Portuguesa matou o trema, e ele nunca mais deverá ser visto cobrindo a concavidade dos us, que vulneráveis às intempéries, se encherão de poeira e folhas secas e chuva. Estou triste, mas antes o trema que as reticências...

Ai de mim, se o acordo – que não é reforma – matasse as reticências. Nunca mais meu texto seria o mesmo. Tenho um caso de amor com elas que vai durar pelo tempo necessário para exprimir as coisas mais naturais e mais fundas de alguém que adora os dramas e umas tantas sentimentalidades, já que todos nós herdamos no sangue lusitano uma boa dosagem de lirismo. E no meu caso, além das vírgulas, é claro. Ao iniciar qualquer escrito, tenho sempre à mão um bom saco de vírgulas, usado sem a menor economia. De vez em quando uma delas cai no lugar errado e fica lá agonizando, até que eu a veja e a pendure na palavra certa. Isto quando ela não se eterniza, errante e perdida de tristeza, entre um sujeito e um verbo.

Mas as reticências, estas são parte da minha vida, que por sua vez está no que escrevo. Elas empregam às palavras a doçura que não encontro jamais nos homens e são como janelas que me permitem contemplar o infinito significado de uma frase dita pela metade, de uma verdade que sabe não ser absoluta, de uma anunciação que se quer interminável, ou ainda de uma coisa qualquer que possa ser desdita, porque mudamos de ideia, afinal... só quem está morto não muda.

Preste atenção: hoje é sábado, vá olhar o rio de sua cidade – se aí houver –, contemple a forma de pelo menos um distante cirro, sinta o cheiro da árvore mais próxima... embora, e talvez, você não tenha percebido, a paisagem também tem reticências. Espane a poeira de um livro e o abra numa página aleatória. Se houver ali uma frase reticente, leia a página toda. Se fizer tudo isso, você terá colocado uma reticência em sua vida. E nunca vai se arrepender. Elas têm infinitamente mais poesia que os pontos finais...

10 comentários:

Ernâni Motta disse...

Lulih, também, me sinto um órfão do trema... Sentimento que as reticências conseguem entender e publicar. Quanto às vírgulas, vejo-as como pétalas, pois, todos nós temos um carinho divinal por elas. As vírgulas, assim como você, todos nós as temos em punhados, prontos a distribui-las aleatoriamente. Mas, há os que não as entendem e as veem como intrometidas entre um sujeito e um verbo, mas, coitadinhas não se pode lhe imputar qualquer culpa se lá estão, pois lá não se intrometeram e, sim, foram colocadas. Ih! Ia esquecendo das reticências... Se bem que para estas, as palavras são todas desqualificadas, porquanto elas preferem que o que temos para dizer que guardemos no pensamento... E que outros escutem com os ouvidos da alma.
Uma ótima semana para você.
Beijos.

Márcia Corrêa disse...

Quando comecei no jornalismo, meu editor querido, Elson Martins, quando lia um texto salpicado de vírgulas desengonçadamente colocadas de qualquer jeito, perguntava: "Vocês são asmáticos?"

Sobre o trema, sempre o achei tão delicado, que não me perecia coisa desse mundo.

As reticências são essenciais. Lendo suas pelavras me deu vontade de mandar fazer um vestido rodado todo de reticências...

Renato de Oliveira disse...

Olá Lulih!

Não se incomode com o trema! Deixe lá, porque ele não faz falta nenhuma!

Agora as reticências... essas sim são parte integrante da vida de muitos!

Beijinho,

Renato

bete disse...

Minina, que texto gostoso três pontinhos.

Sabe que lendo me dei conta de que havia uma certa sensualidade no trema?

Se um dia deixar de existir reticências eu paro de escrever, imaginem, uma pessoa cheia de dúvidas como eu, ficaria como?

saitica disse...

Reticências ...
Que belo texto
Que bela prosa
Trema sim
Me enchia
de incertezas ...

daniel de andrade
www.saitica.blogspot.com
Vamos nos lincar ?

Lulih Rojanski disse...

ERNANI, tudo o que a gente quer é ser ouvida com os ouvidos da alma. Se as reticências ajudarem...
MÁRCIA, seria o mais lindo vestido de todos. Saudade do Elson.
FELÍCIA, como têm...
RENATO, do outro lado do Oceano também se usa muito a reticência?
BETE, eu penso em para onde vão essas delicadezas que morrem.
DANIEL, será um grande prazer estar lincada com você. Obrigada pela visita.

Renato de Oliveira disse...

Olá Lulih!

Aqui por estes lados do Atlântico, não usamos, há muitos anos, o trema! Mas as reticências sim, usamos muito!

Já agora deixe-me dizer-lhe que no blog da Bete, falou-se muito da parábola, mas não é bem aquilo! O que a Bete postou são mais metáforas do que parábola! Isto porque você ficou na dúvida, me pareceu!

Desejo-lhe um Bom Domingo!

Beijinho,

Renato

aline disse...

- Estive comtemplando o rio amazonas nesse sábado,e saiba que você estava lá! Estava em minhas mãos o seu livro moça,minha bela e nova companhia de todos os dias...Até dei gargalhadas ao ver esse texto,pois é muita coensidência,não achas?
Um beijo!

Maria Rojanski disse...

Mãezinha, teu texto tem leveza na forma, força na idéia, e uma pitada de humor e de ironia que deixa tudo muito gracioso.
Eu gosto da forma como tu escreves.
Um cheiro

Jac. disse...

Lulih, eu também amo as reticências!
Não viveria sem elas, ou melhor,
não escreveria sem elas!
Gosto quando as palavras deixam o
pensamento continuar...
Mas também preciso muito das exclamações!
Estou sempre me surpreendendo e sentindo
mais do que posso tudo!

Lamentei, é claro, a morte do trema!
As palavras sem ele me parecem meio desnudas,
ou que jogaram fora seus adornos. Ficaram meio esquisitas...como uma parede sem quadros!

Carinhoso abraço!