segunda-feira, 24 de setembro de 2007

Encontro com o Poeta


A segunda-feira mal desabando sobre a minha cabeça – depois de um doce sonho em que desembarcava em plena manhã de sábado para ir ver o encontro do sol com o rio – abro o portão para sair, e em frente à minha casa vai passando o meu amigo Poeta. Ia taciturno, observando as flores de jambo deitadas sobre as raras calçadas, e resmungava ainda umas notas de alguma canção que ouvira no bar onde provavelmente atravessara a noite. Se eu não me dirigisse à sua esquálida figura, não teria me visto. Iam com ele, sob o braço, aqueles mesmos originais que me mostrou cinco anos atrás, a sua obra, o seu suor, a alma do mundo traduzida em versos. Li-os naqueles remotos tempos e os achei belíssimos. “Bravo, Poeta”, disse-lhe na época, “em breve estará na livraria”. Ele se despediu de mim com lágrimas nos olhos. De alegria e confiança. Agora, de nosso breve encontro, o Poeta saiu novamente com lágrimas. Disse que ia enterrar para sempre a poesia no fundo de uma gaveta. Os originais, quase irreconhecíveis, tinham as nódoas deixadas pelas visitas inumeráveis a editoras, a órgãos do poder público, a empresários ocupadíssimos (e também riquíssimos), de onde ele sempre saiu com as mesmas respostas. Aquelas que foram embotando o seu poder criativo e a sua vontade de imprimir versos.


Disse adeus ao Poeta, sem coragem de lhe pedir que repensasse, que um dia alguém perceberia o tamanho da perda em não incentivar a publicação de sua obra, que coisa e tal... Não pude dizer para ele esperar. Não era justo. Minha antena, que há muito tempo não capta quase nada de novo no reino dos versos, sabe que os poetas têm vivido à margem do sistema literário, e as revistas especializadas mostram que a poesia é hoje um gênero esquecido pelos editores, apenas sobrevivendo num horizonte cheio de incertezas, porque o retorno do mercado é insignificante. É enorme a constelação dos poetas relegados aos confins do esquecimento.

Hoje acho lindíssimo ler Mário Quintana, João Cabral de Melo Neto, Paulo Leminsky, Manuel Bandeira, Manoel de Barros... e pra não dizer que só leio os brasileiros, já li um pouco de Pablo Neruda, Fernando Pessoa e Edgar Allan Poe – cheios de traças na última estante da biblioteca pública – e só, que eu também não costumo variar muito de poeta. Mas só pra completar a idéia, acho lindíssimo e tenho crises de tristeza por saber que depois deles, e dos outros que eu não leio – mas sei o quanto são grandes – não aparece nenhum novo poeta nas revistas, nos jornais, na televisão, nas livrarias. Ninguém mais faz alarde sobre um grande poeta de um desses centros urbanos inumeráveis ou de lá das lonjuras do Matão do Piaçacá. Simplesmente porque ninguém o descobre.

Quase lhe disse “não importa, Poeta, o teu sentimento, o teu transe, o teu lirismo, o teu apelo visionário, vive a tua angústia, que é dela que vivem os poetas.” Contudo, disse-lhe apenas – e muito sem graça – que maior que tudo isso é ter a poesia dentro da gente. Ele me olhou sem ilusão. Sabe que no ritmo em que vai, logo, logo, parte desta para melhor. E com ele vai morrer sua poesia, sem o abrigo perene encontrado por Bandeira, por Leminsky, Quintana, Neruda...

2 comentários:

Aroldo Pedrosa disse...

Se a página se chama "Ave, palavra!", o texto da Luli Rojanski - mesmo em prosa que é uma especialidade dela -, naturalmente me remete para uma nova e ligeira exclamação: Ave, poesia!

Anônimo disse...

Luli, vc sempre dá um jeito de nos enviar esperança, né? Mesmo qd quer falar do triste prefixo q ela pode carregar. Um bj. O Abeporá estará no SE$SC amanhã no botequim, vai lá com a gente ouvir poesia. CARLA NOBRE