domingo, 7 de outubro de 2007

Curta-metragem


De uma série de breves contos

Ela acendeu o último cigarro e fumou devagar. Prolongava sempre o prazer do último cigarro. A boquinha rosada, engelhando-se como um cuzinho ao contato com o filtro, movia-se fluida a exibir intelectualidades. “O melhor que vi foi do Godard”, disse, pensando que ao olhar a boquinha eu prestasse atenção ao que dizia. “Je vous salue, Marie”, concluiu, depois apenas se entregou ao gozo das mansas tragadas. “O melhor que vi está aí no telefone celular”, disse-lhe, juntando um pouco de sarcasmo, um pouco de tesão. Pegou o aparelho, certamente pensando na estranheza de eu achar mais interessante que Godard um daqueles breves vídeos sobre os acasos. Localizou as imagens feitas na véspera. Eu, macho ao último grau, em descarada cópula com a amante mais recente. Curtíssima metragem. Quatro segundos pré-gozo. Seis da sublime desmesura do gozo. Cinco de créditos aos suspiros e risos. “Godard é mais delicado, por isso mais macho”, ela disse apenas, sem mudar a expressão da boquinha rósea, desmontando meu cinismo e extraindo do fim do cigarro um último instante de prazer.

4 comentários:

Maria disse...

Belo texto! Desposado, provocador. Curti muito a linguagem, a forma como foi escrita... super diferente.

Tu és linda.

Te amo muito. Beijos

Fábio Luis disse...

Gostei. A linguagem é bem diferente. O sarcasmo, a ironia, o erótico e a sedução são a todo momento desconstrídos pela simplicidade e por signos inusitados, mas logo são reconstruídos pela forma poética em que o texto está ancorado e isso é de muito mérito, pois o texto é de curta extensão.Também gostei do título e das relações metafóricas feitas entre corpo, objeto, texto e imaginação.
Gostei muito, apesar de não gostar nem um pouquinho de cigarro hahaha, Parabéns!

Escreva sempre Luli. Beijos!

Maria disse...

Errata: em desposado, leia despojado.

julio miragaia disse...

gosto desse.