domingo, 14 de outubro de 2007

Febre

Da série Breves Contos


Ele chegou no meio da vaga viagem pela noite. Trazia nas mãos um instante de febre e na boca uma tormenta para trocar pelo refúgio sob o meu vestido. Meu silêncio pediu apenas um momento de espera antes que entrasse, antevendo o risco e a delícia, mas seus dedos passeavam já pela geografia de minha nuca, descobrindo no tato o cheiro da rosa fresca, nascida na última manhã. Arrisquei um gesto desatado da palavra, os lábios ensaiando uma letra incógnita, aonde sua língua veio certeira encaixar-se, num movimento antecipado ao sim. Abandonei-me. Mãos sorrateiras, tentáculos de hera, se espalharam sem destino traçado, encontrando em breves percursos minhas entranhas em tempestade, seu falo em abalo sísmico. É a morte, ainda pensei, enquanto sua febre me desnudava na travessia incerta entre o corredor e o apocalipse. Agora o encontro marcado desde a porta. Os quadris do macho rompendo as sombras entre as pernas postas da fêmea, seus dedos opressivos maculando a alvura cósmica das costas, a boca lasciva em desvario entre o ouvido e o colo, os cheiros de flor e líquidos anunciando a queda vertiginosa. Minutos insondáveis de confusão de línguas, pernas, cabelos, mãos, num descompasso sincronizado em que a urgência do final rompia as linhas do tempo, da vida, da morte, até o gozo em alta freqüência. O gozo. Foi quando a verdade da lâmpada obtusa nos revelou atônitos mergulhados em olhos, por um minuto milenar, na mudez das coisas do quarto, no rumor quarto minguante, em mútuo reconhecimento. Voltamos então ao princípio. Ao verbo. Sussurrou-me odores, um hálito de promessa, uma língua de veludo morno. A pele dizendo do súbito, da felicidade clandestina, do segredo inviolável. Ainda agora permaneço em silêncio obediente, na quietude abismal dos verdadeiros segredos, porque nesta noite ele virá, trazendo outra febre.

terça-feira, 9 de outubro de 2007

Florzinha de papel


Da série Breves Contos



_ Sabe o que eu fiz com aquela florzinha de papel de guardanapo branca e leve como a pena de um passarinho que você me deu depois de misturar uns camparis com cerveja e dizer na frente de todo mundo que eu era gostosa que eu era “bonita pra burro” pensando que eu ia me impressionar só porque sabia de cor o Rondó de Efeito do Manuel Bandeira e ainda ter dito como se fosse a filosofia mais incrível que gosta mesmo é de viver como um cão sem dono sem precisar se dar pra ninguém e ter achado a maior graça do mundo quando eu disse olhando para o nada que tem gente que acha bonito ser canalha porque afinal de contas o Nélson Rodrigues veio com a idéia estapafúrdia de que ser canalha tinha poesia só que isso era nos anos 50 ou 40 não sei e todos os canalhas do Nélson caíram em desgraça mas você só prestou atenção nas partes em que eles tinham o mundo aos seus pés porque sabiam inventar verdades pra seduzir com os olhos mais limpos do mundo então você fez cara de sentimental com olheiras e disse com o maior cinismo que além da flor tinha pra mim umas pastilhas purgativas e nessa hora eu tive vontade de dizer só que fiquei sem graça e não disse que você está mais pra “O grande mentecapto” do que pra Don Juan com essa patética florzinha de papel que fica distribuindo pra qualquer fêmea desavisada que em pleno século vinte e um ainda acredita na sensibilidade do macho? Joguei na primeira poça de lama que encontrei quando fui embora.


domingo, 7 de outubro de 2007

Curta-metragem


De uma série de breves contos

Ela acendeu o último cigarro e fumou devagar. Prolongava sempre o prazer do último cigarro. A boquinha rosada, engelhando-se como um cuzinho ao contato com o filtro, movia-se fluida a exibir intelectualidades. “O melhor que vi foi do Godard”, disse, pensando que ao olhar a boquinha eu prestasse atenção ao que dizia. “Je vous salue, Marie”, concluiu, depois apenas se entregou ao gozo das mansas tragadas. “O melhor que vi está aí no telefone celular”, disse-lhe, juntando um pouco de sarcasmo, um pouco de tesão. Pegou o aparelho, certamente pensando na estranheza de eu achar mais interessante que Godard um daqueles breves vídeos sobre os acasos. Localizou as imagens feitas na véspera. Eu, macho ao último grau, em descarada cópula com a amante mais recente. Curtíssima metragem. Quatro segundos pré-gozo. Seis da sublime desmesura do gozo. Cinco de créditos aos suspiros e risos. “Godard é mais delicado, por isso mais macho”, ela disse apenas, sem mudar a expressão da boquinha rósea, desmontando meu cinismo e extraindo do fim do cigarro um último instante de prazer.

quarta-feira, 3 de outubro de 2007

“If you really want to touch someone… send them a letter”


Texto de Margarida C.


“A escrita é a única coisa que não se evapora. A única que não se tem jamais como negar ou tomar de volta. Ao limite, é assim como a derradeira generosidade de que ainda fomos capazes quando já não éramos capazes, acaso um dia o fim nos toque, seja por escolha ou ‘por magia’. É por isso que, de uma forma ou de outra, mais ou menos, melhor ou pior, eu escrevo. Escrevo sempre. Para que no auge de um qualquer ímpeto não leve tudo comigo quando me for embora. É o garante que ofereço aos outros de que, pelo menos, há de haver sempre qualquer coisa que lhes deixo, ainda que contra a minha vontade de nada consentir que lhes fique.”
“E é igualmente por isso que desconfio de todos os que nunca me escreveram nada. Um dia, se a vida nos separar, nem sequer o vago abraço das palavras terão consentido que ficasse comigo. Não é justo. E, por não ser justo, rebelar-me-ei sempre a que seja recíproco.”


Do blog Carnnets de Lisbonne 2007
carnnetsdelisbonne2007.wordpress.com

segunda-feira, 1 de outubro de 2007

Primeiras Chuvas


Memória

Aos nove anos tive meu primeiro contato com minha morte. Com a morte dos outros o contato foi anterior. Nina, por exemplo, a esquálida tuberculosa que morreu num quartinho abjeto ao lado de minha casa, vinha todas as tardes sentar-se à sombra de minha árvore, de onde me olhava com saudade da vida. Mas no improvável tempo de meus cinco anos, achava que todos os fantasmas humanos eram inofensivos. Aos nove, tinha medo da chuva. Foi a chuva o meu verdadeiro fantasma. Acreditava que qualquer garoa podia mudar de repente de humor e violar minha janela, minha cama, minhas cobertas.

Havia mesmo chuvas indomáveis, sempre na madrugada, que não se intimidavam em arrancar árvores do lugar, derrubar paredes, lançar ao chão telhados inteiros e tirar para sempre o nosso sono. Na manhã, eu ia para as ruas testemunhar a ressaca, e tinha pena e fascínio pelas casas destruídas, pela tristeza dos desabrigados, pelo desamparo dos quintais cheios de enormes galhos e cercas caídas.

Foi numa madrugada assim que a morte me acenou pela primeira vez. Na tormenta mais feroz daquele ano, os trovões explodiam em meu quarto, estremecendo a cama e acordando em mim um sentimento de orfandade. De olhos nos clarões que se abriam entre a mobília, eu pensava que aqueles relâmpagos tinham uma fúria que não era desse mundo, via o final dos tempos, e me encolhia diante da certeza de que um tufão me arrancaria da cama, me levando para a morte. E antes de completar 10 anos. Abandonei minha cama e me aninhei junto a meu irmão, cujo pequeno corpo ardia em febres de medo. Não sei quanto tempo se passou naquela madrugada antes que um tronco perdido na ventania abrisse um buraco na parede de tábuas e se alojasse em minha cama, onde a morte esperava me encontrar.

Do fundo das cobertas de meu irmão, pelo resto da noite vi pelo buraco a tempestade arremessando-se contra o mundo. Os que moravam na casa passaram a me olhar como se eu tivesse qualquer coisa de santo. Eu não. Mas depois disso as “chuvas tempestivas” e as “ventanias soltas” nunca mais me fizeram medo. Pelo contrário. Passamos a viver uma história de amor. Eterno.

domingo, 30 de setembro de 2007

Depois da chuva das duas


Texto de Maria Rojanski


“Meu pequeno menino, tanto relampeja, tanto é zinco este céu, tanto se anuncia esta chuva, a água ora parece a mais límpida, e é fria, é fria. O céu carregado de santa chuva conta-se chumbo, mas a tarde é tão clara, tão branca, querido. Meu pequenino. A copa da árvore cintila o verde das folhas e os jambos são mais saborosos quando assim molhados de chuva, quando assim a chuva é santa. A rolinha se esconde no regaço, acha abrigo entre os galhos. Vem, tu, menino querido, menino miúdo, também buscar teu abrigo, se aí estiver difícil. Aqui a rabeca arrebenta numa cantiga antiga, antiga, eu nunca vi. Não te sintas só, não fiques assim irritado, não te sintas magoado, não te digas pobre, que tu és grande. Tão grande, meu pequeno. Doce menino. Pálido e brando. É outubro, não te vejas um barco solto, não te vás mais para lá. Atraca neste porto e vem. Meu menino, é tão tolo dizer-te, mas a verdade é que ninguém tem culpa, é tão complicado, e não existe culpado. Não faça assim, enxuga teu olho de tua solidão. Se quiseres, se precisares, estou. Se não estiver bom, vem. Aqui tem música, aqui tem prosa, tem quem te ouça, tem colo e abraço, meu menino tão querido. Miúdo. Vem depois da chuva das duas da tarde, fazer passar tua dor”.

quarta-feira, 26 de setembro de 2007

Ballet


Deito-me na laje morna junto aos gatos que há horas se entregam lânguidos às próprias línguas. As últimas gotas da tarde escorrem em fios translúcidos sobre os telhados. No quarto fechado, a pequena bailarina ouve Chopin e dança de sapatilha “rota e fúlgida” o seu petit ballet, sem se importar que umas notas fugitivas do piano escapem por debaixo da porta e venham refugiar-se junto aos gatos. A este sinal, asas brancas dançam nas lonjuras azuis, nuvens dançam véus fluidos na atmosfera rosada, jovens e velhas folhas dançam de rosto colado às árvores. A bailarina vem para a laje, onde há espaço para o seu grand jeté. Chopin está vivo no quarto. Abraço um dos gatos, e num rompante de ternura, danço com aquele cego que não podia ver a primavera em Paris...



segunda-feira, 24 de setembro de 2007

Encontro com o Poeta


A segunda-feira mal desabando sobre a minha cabeça – depois de um doce sonho em que desembarcava em plena manhã de sábado para ir ver o encontro do sol com o rio – abro o portão para sair, e em frente à minha casa vai passando o meu amigo Poeta. Ia taciturno, observando as flores de jambo deitadas sobre as raras calçadas, e resmungava ainda umas notas de alguma canção que ouvira no bar onde provavelmente atravessara a noite. Se eu não me dirigisse à sua esquálida figura, não teria me visto. Iam com ele, sob o braço, aqueles mesmos originais que me mostrou cinco anos atrás, a sua obra, o seu suor, a alma do mundo traduzida em versos. Li-os naqueles remotos tempos e os achei belíssimos. “Bravo, Poeta”, disse-lhe na época, “em breve estará na livraria”. Ele se despediu de mim com lágrimas nos olhos. De alegria e confiança. Agora, de nosso breve encontro, o Poeta saiu novamente com lágrimas. Disse que ia enterrar para sempre a poesia no fundo de uma gaveta. Os originais, quase irreconhecíveis, tinham as nódoas deixadas pelas visitas inumeráveis a editoras, a órgãos do poder público, a empresários ocupadíssimos (e também riquíssimos), de onde ele sempre saiu com as mesmas respostas. Aquelas que foram embotando o seu poder criativo e a sua vontade de imprimir versos.


Disse adeus ao Poeta, sem coragem de lhe pedir que repensasse, que um dia alguém perceberia o tamanho da perda em não incentivar a publicação de sua obra, que coisa e tal... Não pude dizer para ele esperar. Não era justo. Minha antena, que há muito tempo não capta quase nada de novo no reino dos versos, sabe que os poetas têm vivido à margem do sistema literário, e as revistas especializadas mostram que a poesia é hoje um gênero esquecido pelos editores, apenas sobrevivendo num horizonte cheio de incertezas, porque o retorno do mercado é insignificante. É enorme a constelação dos poetas relegados aos confins do esquecimento.

Hoje acho lindíssimo ler Mário Quintana, João Cabral de Melo Neto, Paulo Leminsky, Manuel Bandeira, Manoel de Barros... e pra não dizer que só leio os brasileiros, já li um pouco de Pablo Neruda, Fernando Pessoa e Edgar Allan Poe – cheios de traças na última estante da biblioteca pública – e só, que eu também não costumo variar muito de poeta. Mas só pra completar a idéia, acho lindíssimo e tenho crises de tristeza por saber que depois deles, e dos outros que eu não leio – mas sei o quanto são grandes – não aparece nenhum novo poeta nas revistas, nos jornais, na televisão, nas livrarias. Ninguém mais faz alarde sobre um grande poeta de um desses centros urbanos inumeráveis ou de lá das lonjuras do Matão do Piaçacá. Simplesmente porque ninguém o descobre.

Quase lhe disse “não importa, Poeta, o teu sentimento, o teu transe, o teu lirismo, o teu apelo visionário, vive a tua angústia, que é dela que vivem os poetas.” Contudo, disse-lhe apenas – e muito sem graça – que maior que tudo isso é ter a poesia dentro da gente. Ele me olhou sem ilusão. Sabe que no ritmo em que vai, logo, logo, parte desta para melhor. E com ele vai morrer sua poesia, sem o abrigo perene encontrado por Bandeira, por Leminsky, Quintana, Neruda...

sexta-feira, 21 de setembro de 2007

Impressão anunciada


Nenhuma morte em toda a literatura que conheço me impressiona mais que a de Santiago Nasar. E digo isto com o verbo no presente porque acabo de reler “Crônica de uma morte anunciada”, de Gabriel García Márquez, e até o momento me encontro com o fôlego em suspenso com a morte do personagem. Eu não estou revelando aqui nenhuma surpresa do livro – sossegue, se ainda não o leu – pois a morte de Santiago Nasar tanto é anunciada no próprio título quanto na primeira linha do romance: “No dia em que o iam matar, Santiago Nasar levantou-se às 05:30 da manhã...”. Mas o que me é impressionante não é a brutalidade de sua morte, embora se possa ter uma vertigem à leitura de tanto sangue, nem as razões que levaram os assassinos a cometer tão primitivo e literário crime, mas o encadeamento de pormenores que tornaram uma cidade inteira sabedora do assassínio antes que ele acontecesse, sem que ninguém pudesse fazer algo para impedir. Os próprios assassinos, irmãos de uma mulher devolvida pelo marido na noite de núpcias, encarregaram-se de anunciar a quem passasse que estavam esperando Santiago Nasar para matá-lo, como se de algum modo desejassem que alguém pelo amor de Deus os impedisse. Por ceticismo, por indiferença, porque não houve tempo, e até em alguns casos por consentimento, a cidade inteira foi cúmplice de uma morte praticada a golpes de facas de estripar porcos, que por sua vez puseram pra fora, diante de centenas de olhos petrificados, todas as vísceras de Santiago Nasar. Contudo, Santiago Nasar morreu sereno, às sete horas da manhã, vestido de linho branco e sem saber porque morria, sob o sol radiante do Caribe, depois de ter visto passar o bispo dentro de um navio que nunca se detinha em seu povoado esquecido. A moça desonrada, sem nenhuma convicção do que dizia, o acusara de ter sido o seu “autor”.
Talvez esta minha dramática – mas sincera – impressão esteja ligada ao fato de García Márquez ter se baseado na morte real de seu amigo de infância Cayetano Gentile para escrever a história, reconstituída através de depoimentos, e só depois da morte da mãe do morto, Julieta Chimento, 30 anos depois, em respeito à sua dor. Impedido também por sua mãe, que tinha Cayetano como um filho, García Márquez não se sentiu “com ânimo para continuar vivendo em paz enquanto não escrevesse a história da morte de Cayetano”, conforme conta no livro autobiográfico “Viver para contar”.

Quando finalmente escreveu “Crônica de uma morte anunciada”, cujo tema literário definitivo é o da responsabilidade coletiva, a mãe disse que jamais o leria, pois “uma coisa que foi tão ruim na vida não pode ter ficado boa num livro”. Enganou-se. A força do realismo mágico de García Márquez neste livro nos faz esquecer sem culpa que Santiago Nasar é Cayetano Gentile, assassinado na porta da frente de sua casa, onde a mãe acabara de passar a tranca, acreditando que ele já houvesse se refugiado dentro.

quarta-feira, 19 de setembro de 2007

Meninas ao sol

Para Joana D' arc Gabriel

O sol tem nos esperado paciente naquele lugar onde mora a memória de nossos melhores dias. Se tu lá fores, vai como quem foge dos dias cinzentos de tua cidade de ipês amarelos, que eu deixarei aqui meu rio, meu barco de papel, minha garrafa de náufrago que guarda uma folha em branco, e passearei de mãos dadas contigo entre os gramados às vezes castigados pelo inverno, entre as papoulas agitadas pelos ventos constantes de nossa cidade tão alta. Desceremos as escadas que levam ao meio da praça e escolheremos o melhor canto para abrigar nossa saudade. Então rabiscaremos cadernos, faremos jogos infantis para descobrir o futuro, inventaremos poemas de sangue para quatro ou cinco daqueles nossos amores extraviados... Se quiseres, irei contigo visitar a casa da rua Tókio, quase oculta entre as samambaias, mas que deverá ainda guardar um pouco da doçura das meninas que debruçadas na janela do quarto espiavam a felicidade desenhada nas nuvens que pareciam encostar-se nos montes salpicados do gado branquinho. E tu irás comigo ao pequeno morro de onde veremos que o sol ainda é o mesmo, ainda que tantas sombras tenham vindo empalidecer por vezes as nossas tardes, ao passo desse tempo tão longo de nosso desencontro. Ou então, se for sábado, podemos outra vez pegar a estrada até Santa Isabel do Ivaí ou Santa Cruz do Monte Castelo, de onde voltaremos rindo depois, em qualquer boléia. Que só nos importe que seja sob o sol que está à nossa espera. E que ele seja generoso ao iluminar a lembrança daqueles teus cabelos que se derramavam em anéis dourados pelos teus ombros, na manhã em que fugimos da escola somente para assistir à passagem da própria manhã. De ti não possuo retratos, mas te vejo tão clara e tão bela sentada na calçada sob uma paineira, um pulôver vermelho, um livro gasto sob o braço, uns tênis muito brancos e um olhar de anjo livre sob os óculos. Com tua palavra simples poderás me ajudar a compreender as razões dos desencantos de agora, e para ti eu cantarei uma canção que devolva a ternura aos nossos olhares porventura endurecidos. Levarei aquele livrinho amarelo em que me escreveste em letrinhas reviradas que eu nunca esquecesse de nós duas. Guardo-o em minha gaveta há 25 anos. Deixa aí os ipês, que florescerão de novo na próxima primavera, que eu deixarei aqui as árvores que sob a chuva gotejam mangas. Vai, antes que o tempo. Antes que a vida. Que a lembrança. Vamos andar sob o sol de Loanda...

sexta-feira, 14 de setembro de 2007

Encontros


“Debaixo de minha pele alguém me olha esquisito pensando que eu sou ele”.
Affonso Romano de Sant’Anna

Todos os monstros que me habitam estão despertos nesta noite. Gostam da madrugada, quando me sabem de olhos acesos tecendo teias na escuridão, e fazem festa diante de minha cama. Tenho náuseas por seus sussurros jocosos, por seu tamanho vulgar, por seus disfarces de bons amigos, sempre prontos a comemorar em cirandas os meus passos incertos.
Há anos que estamos em guerra, e o da impaciência, rude como um demônio, tem me vencido em várias batalhas. Tem sempre um sorriso nos lábios, e com toda a paciência que guarda somente para si, instiga-me a quebrar os cristais que não possuo, a estilhaçar o espelho em que me vejo nua, a invadir a sala de meus inimigos e esbofetear sua máscara, a lançar o telefone silencioso contra o muro do itinerário vazio por onde estou de braços dados com o monstro da solidão.
Este, o único por quem guardo certa afeição, e com quem desde o meu princípio mantive íntimos solilóquios, deixou de me incomodar quando compreendi que ser sozinho nada mais é do que ser. Acalanto-o com poesia, Paulo Leminski, Manoel de Barros, com quem se compraz com cara de monstro tolo. Parece amar-me. Tenho-o em boa conta por seu franco amor. Ao primeiro sinal de minha introspecção, vem me buscar pela mão, e anda comigo por onde há alegria ou aridez, feliz como quem traz “uma flor na lapela e uma namorada no braço”.

Há um que até esta noite dormia como um gato na quietude de um crepúsculo de minha alma. Mas agora que volto exausta de uma madrugada de encontros com a face torta das fraquezas do homem, de suas implacáveis razões de ser tristes, de sua inércia congênita e de minhas próprias pieguices, encontro-o tão desperto quanto os outros, a olhar-me do fundo de sua inexpugnável presença. É o da desesperança. Seu olhar de esperança morta me contempla com certa tristeza, mas não se demora a me envolver em um abraço longo, como um amante, a sussurrar em meu ouvido que agora eu sou toda sua, me propondo esquecer para sempre a minha melhor lembrança...
Seus dedos lascivos passearão pelos meus cabelos enquanto adormeço nesta noite em que ele é o rei. Estou certa de que ao despertar, ele, então como um anjo subserviente, mas dono de mim, me trará ainda na cama o café da manhã.

segunda-feira, 10 de setembro de 2007

"O mais triste de um pássaro engaiolado
é que ele parece estar feliz."

Mário Quintana

sábado, 8 de setembro de 2007

A propósito da primavera – embora eu tenha a impressão de que em minha casa entre todos os dias um outono renitente – o amigo Caio, ou Z, como Maria gosta de chamar, veio me emocionar nesta manhã de sábado com um poema deixado na caixa de comentários da postagem anterior. Um poema delicado como as “chuvas suaves” que têm vindo na madrugada prosear com meu sono, como as “andorinhas adejando” pela atmosfera rosada das tardes de minha janela. Eis...


There will come soft rains
Sarah Trevor Teasdale – 1920

"Chegarão chuvas suaves e o perfume do solo,
E andorinhas adejando, com seu canto estridente.
E sapos nos charcos cantando de noite,
E ameixeiras silvestres, trêmulas e pálidas.
Todos vestirão sua plumagem de fogo,
Assoviando suas fantasias numa cerca baixa.
E ninguém saberá que há guerra,
ninguém se preocupará quando ela tiver fim.
Ninguém se importará, seja pássaro ou árvore,
Se a humanidade perecer totalmente.
E a própria primavera, quando despertar ao amanhecer,
Nem suspeitará do nosso próprio desaparecimento."

quarta-feira, 5 de setembro de 2007

... folhas novas, galhos que se deitam ao sol, luz da manhã nas asas do japiim, o vôo incólume da garça, intrépidos bandos de mergulhões, o rio indeciso entre ir e chegar, uns pés felizes sob a água morna do dia novo, mansas ondas abraçando a pedra nua, um papel branco perdido na alegria do vento, claras nuvens viajando no azul, um gosto de sol menino na boca, a vida em dobro... Ave, setembro!

sábado, 1 de setembro de 2007

Adeus, agosto

Já não era sem tempo que agosto terminasse. Por uma estranha combinação entre as energias negativas do universo, nosso agosto é sempre infeliz. Julho mal se fechava quando começamos a desconfiar de que neste ano agosto não nos surpreenderia com qualquer diferença. E desde o seu primeiro dia sentimos no peito um inusitado desconforto, como se a alma se sentisse estrangeira dentro do corpo e desejasse fugir para outras paragens. E com a alma ameaçando partir, sentimo-nos, por 31 dias, à beira da morte.
Tivemos medo de enlouquecer, como acontece aos cães, e até algumas vezes nos pegamos falando sozinhos, apresentando uma idéia e um argumento para nós mesmos em plena faixa de pedestres! Porque em agosto se morre e se enlouquece. Quando não, fica-se irremediavelmente suscetível.
Pois este agosto foi deveras triste... os pássaros confundiram a estação e perderam o rumo; um poeta morreu deixando um poema pela metade; entregamo-nos pusilânimes a gratuitas crueldades; os paradoxos se tornaram lógicos, e a filosofia daquele que é feliz em companhia da tristeza foi largamente aclamada; a distância entre a palavra e o gesto ficou maior, e as vírgulas invadiram as falas, tornando amargas as que seriam as mais ternas mensagens; os desejos se mostraram indomesticáveis e todas as perdas iminentes; todos os advérbios de modo foram gastos sem retorno; um barco zarpou em busca do mês de abril; nenhuma loucura foi perdoada e não houve abraços que fossem capazes de conter as agitações do espírito; a mentira assumiu o poder, reduzindo as coisas verdadeiras a meras banalidades; e como se não fosse suficiente o caos da espera infinita, do tempo multiplicado, da palavra que perdeu a razão porque não pôde ser dita, “no meio dessa confusão, alguém partiu sem se despedir*”...
Agosto se foi, e nosso coração desavisado ficou meio sem esperança no homem. Mas nestas primeiras horas de setembro já sentimos os ombros mais leves e pressentimos que devagar e sem alarde redescobriremos a confiança envolta na poeira do que passou. Sairemos da casca para receber o sol, como crisálidas. Escolheremos a primeira segunda-feira para nos sentar no banco de uma praça distante, ao crepúsculo, ainda que sozinhos, e nos surpeenderemos de que a vida agora pareça tão leve, apesar de tudo o que em agosto morreu em nós.

*Frase inicial da crônica Despedida, de Rubem Braga.

terça-feira, 28 de agosto de 2007

Um japiim

Júlia é uma menina cheia de idéias. Joga a bicicleta para um lado e se deita comigo na rede, onde também está recostado Rubem Braga. Ficamos em silêncio, os três, enquanto o vento verga as folhagens e as nuvens vêm marchando lentas em nossa direção.
_ Olha, mãe, aquele passarinho...
Há um japiim silencioso na jaqueira.
_ Por que ele tá quieto?
_ A jaqueira deve ter contado pra ele que descascaram seu tronco e ela vai morrer.
_ Passarinho gosta de árvore, né?
_ É...
_ ...
_ Sabe o nome dele?
_ Japirinho!
_ Japiim, meu amor, é japiim.
Mas Japirinho é tão belo fluindo de sua boquinha alegre, que me arrependo da correção.
_ Ah...
_ Aquele outro ali é o bem-te-vi.
_ Mãe, o bem-te-vi fala bem-te-vi. E o japirinho, o que que fala?
_ Ele imita os outros passarinhos. Vários outros.
_ Eu queria ser passarinho...
_ E eu queria ser garça.
_ Pra gente ir bem lá em cima ver os aviões, a floresta, as nuvens...
E continua desfiando a lista de coisas que poderia fazer se fosse passarinho. Depois pula sobre a bicicleta e ensaia seu vôo pelo quintal. Eu e Rubem Braga ficamos na rede para sempre. O japiim continua na árvore, e pelo seu jeitinho vergado, deve estar pensando na vida e na morte.

quarta-feira, 22 de agosto de 2007

A casa

Noite passada revi em sonho a casa de minha infância. Era ainda maior do que nas lembranças, que tantas vezes me traíram, e tinha o ar feliz das aquarelas que nunca perdem a cor. Branca e solitária entre as paineiras, dava-se ao deleite de receber o outono por todas as suas janelas. Somente Maria, minha irmã, que ainda era moça naquele tempo improvável do sonho, estava na varanda, varrendo folhas secas. Ninguém mais. O céu era rosado como nas tardes do princípio do inverno e o vento tornava a cobrir de folhas o chão de tábuas da varanda, mas ainda assim Maria sorria um sorriso que prenunciava a primavera. As roupas nos varais tremulavam como bandeiras floridas, quando um açoite maior do vento fechou com estrondo uma das janelas. Então acordei. Ma ainda vi um último lampejo do olhar de minha irmã, como um convite ao exílio na casa da nossa infância.
Era madrugada, e um vento amazônico nascido no princípio da noite teimava em continuar perturbando o sono das jaqueiras do quintal ao lado, como a paz das paineiras no sonho. Revi a casa, agora no escuro do quarto, pela madrugada que levou três noites para chegar ao fim. Em toda a sua solidez, continuei a vê-la como a luz de um sol implacável, cuja bolinha de fogo continuasse a me perseguir de olhos fechados. A casa em seu tempo, onde minha mãe, de cabelos compridos e alvos braços, levava pela mão um menino que não tinha consciência da imensa beleza de seus olhos azuis: meu pequenino irmão, que chorava porque meu pai não nos trouxera bergamotas. Em frente à casa, de um caminhão descia meu pai, o mesmo homem da fotografia na parede da sala, que trazia um cravo vermelho no bolso do uniforme do soldado triste que ele foi.
Num tempo menos feliz, na varanda da casa testemunhei o chorinho remoto do velho pai de Nina pela morte da filha tuberculosa. Naquele tempo intangível nenhum de nós disfarçava os afetos, e éramos puros demais para imaginar quantas mortes experimentaríamos antes da derradeira. Nina, que me contava as histórias dos fantasmas que viriam povoar minha vida, ao menos sabia que ela mesma seria deles o mais renitente.
Coberta de uma recôndita dignidade, a casa veio tão certeira na madrugada me dizer que intangível é o tempo, mas não o que ele ensina. E embora tenha levado meu sono, como uma brisa que despertasse folhagens inertes, veio me lembrar de que não precisamos ser tão rudes nem perder tanto tempo remoendo passagens mortificantes. Pois o que fica, no final de qualquer conta, é uma saudade demorada... das coisas, das pessoas, e até do que ainda está por vir.
Pensarei agora todos os dias na casa, que hoje existe apenas no chão incerto de minha memória e de meu sonho. Tenho medo que dia desses, nestes tempos também incertos, ela perca este seu último endereço.

segunda-feira, 6 de agosto de 2007

Os aviões

Inspirado em Chuvisco na Paisagem, por sua vez inspirado em Pearl Harbor

Amanhecia quando começaram a passar os aviões. E o primeiro a passar foi o primeiro avião da vida do lugar. Nunca antes houve outro que tivesse sobrevoado tão remoto povoado ao sopé de tão remota montanha, onde tudo o que se via no céu eram as neves do inverno e as nuvens baixas que escondiam os sóis e as luas. Naquele dia as nuvens abriram espaço aos aviões e todos correram para os campos com o olhar perplexo para ver passarem os grandes pássaros de aço com seus roncos de monstro desperto. Os rostos queimavam de felicidade ao insólito desfile de meia dúzia de aeroplanos que faziam cinematográficas acrobacias, inusitados desenhos no céu. As crianças eram as mais encantadas, e habituaram-se logo à névoa mágica despejada sobre o povoado, pois as cerrações dos seus invernos na montanha eram infinitamente mais densas. Os velhos deitavam-se de costas uns ao lado dos outros, para ver o espetáculo, e nem eles nem as crianças sentiam passar o tempo, hipnotizados pelo milagre da descoberta de sua existência pelos homens que possuíam aviões. E quando não havia mais ninguém dentro das casas, quando todos se encontravam deitados na relva, os aviões despejaram a névoa vermelha que silenciosamente devastou os campos verdes e adormeceu os velhos, os jovens e as crianças para toda a eternidade.

terça-feira, 31 de julho de 2007

Pegasus
Pegasus foi como o chamei. Tinha o cavalo alado tatuado no braço. Na primeira vez que o vi, conduzia um carro molhado que deslizava no asfalto veloz. Do alto da janela, e com os olhos respingados, eu reconhecia a bênção da chuva que viera encharcar os gramados do casarão. Na outra vez, era uma outra chuva, e eu continuava na janela. O carro passou manso e Pegasus acenou. Na terceira vez parou, desceu e esperou que eu fosse ao seu encontro. “Você mora na janela?”, perguntou de longe, o braço nu mostrando as asas surreais do cavalo. Eu lhe disse que sim, que minha alma morava. “Eu vou levar você daí”, disse ele, e seu olhar tinha a promessa de uma constelação boreal ao Norte do Aquário e ao Sul de Andrômeda. E eu lhe respondi que iria com ele, desde que fosse presa às suas grandes asas. Ele riu, com a inocência de quem compreende o impossível. No outro dia, passou voando rente à janela onde eu ficava, transmutado em Pegasus, as asas brancas reverberando ao sol tímido de um janeiro de chuvas. Foi a última vez que o vi. Diante do meu assombro e da minha recusa, voou sozinho, rompendo nimbos de chumbo pela tarde transcendental

quarta-feira, 25 de julho de 2007

O gato

Dorme o gato na terra seca e morna, sob a árvore carregada de tangerinas. Pressente a chuva fiel a toda tarde, e abre uma fresta de olho para as nuvens que vêm cobrir os raios de luz que vazam pelos galhos. Chamo-o por duas, três vezes, e ele me olha sereno, mas não se demora muito a voltar ao fundo de sua introspecção. Olhos amarelos, peito branco, capinha e máscara pretas. Zorro! Herói à antiga. Corpinho esquálido de gato de rua, boêmio e imensamente sábio. Quase sempre me ouve e com afagos me consola das minhas confusões e perplexidades. Aproveito seu instante de imóvel contemplação das folhas que se movem fluidas em torno de si, e vejo as horas nos seus olhos, como faria um chinês. Dezessete. Logo virá a noite, e com ela, ele me deixará no paroxismo do abandono. Como se adormece um sonho, gato? Pergunto-lhe do fundo de minha rede. Ele se levanta enigmático, se espreguiça, salta sobre a cerca estreita, onde exibe o talento equilibrista, e se afasta lento, ignorando sem a menor piedade o meu apelo. Tu não queres saber, gato, sobre os meus desatinos? Nau, nau, nau... sai ele dizendo caminho afora, rumo ao terreno baldio, onde poderá matar pequenos calangos sem o meu incômodo apego à sua companhia. E eu penso que ele me diz não, não, não... Nau, nau, nau, ele repete, já do outro lado do cercado, e enfim o compreendo: Eu também quero uma nau, gato. Uma nau para transpor o imenso oceano que é o vazio dessa vida. Ele nem se volta, o ingrato.

domingo, 22 de julho de 2007

Madrugada
Fechemos a porta. Não vê que lá fora a madrugada nos mostra a presença indestrutível da solidão? Feche os olhos e veja os sóis que se desenham tão vivos nas paredes das nossas pálpebras cerradas. Deixe lá fora os gritos dos que nos chamam, a sedução das cores e da chuva que parece pousar como uma borboleta em sua pálida fronte. Por hora não há verbo que indique a saída, e se quiser um pouquinho de dor, a poesia continuará a nos castigar com as chibatas das redondilhas. Já traímos as estradas que nos foram dadas, e agora só este lugar nos abrigará dos relógios anacrônicos que tornam ainda mais longa a madrugada. Olhe ali... há uma teia a obstruir nossa partida, há uma chave que caiu do outro lado da porta, há uma gota translúcida pendendo daquela haste, e que se parece, em sua perfeição, ao instante de paz que imaginamos nos dar. Deite-se sobre o meu peito, e eu contarei das batalhas que travei contra a conspiração das palavras que se recusaram a sair, contra as verdades que se negaram a chegar. Ouça a tempestade se armando contra o tempo que nunca cede lá fora, onde os ventos estão apagando nossos rastros, nossos odores, e já desenham outros caminhos que talvez nunca cheguemos a aprender. Se as interrogações da noite abalarem nosso sono, não adiantará abrir a janela para que entre o terno consolo das brisas. Entrará a tempestade, e então estaremos os dois condenados ao triste caos dos que sozinhos enfrentam temporais. Observe a delicadeza da gota, que poderá desabar no próximo instante, a menos que se disponha a sorvê-la em sua alma. Fique. Lá fora a angústia, a lavoura, a voragem. Aqui o silêncio, o porto, a mansidão, e a gotinha à espera da colheita. Fechemos a porta.

segunda-feira, 16 de julho de 2007

Agosto
Vês que de repente é agosto? Haveria poesia se fosse abril. Mas neste agosto súbito o que há é a lembrança de um alvorecer, que se tornará cada vez mais parecida a uma mentira, através dos dias que estão por vir. Lembras? O ruído cósmico do sol anunciando que naquele dia chegaria mais tarde, e que toda dor deveria ser deixada nas sombras da madrugada que já durava muito mais que o tempo. As águas do rio vinham trazendo pequenos arbustos que se moviam como náufragos, seguindo a trilha dos mergulhões, em busca da terra. E nós, náufragos da noite, tínhamos o ímpeto de nos lançar às águas, em busca de salvação. Havia por ali umas almas embriagadas, além das nossas, corpos estirados à espera de um sol paternal que os conduzisse pela mão a um porto mais seguro. E havia uma mulher bailando em torno de um homem cansado, tentando convertê-lo em menino. Depois, sentada ao seu lado, ela contava uma história triste, tirada de um livro, sobre alguém que perdeu todas as guerras, inclusive as do coração. E girava entre os dedos uma tampinha de guaraná como se fosse uma folha de louro entre os dedos alvos e diáfanos de uma pitonisa. A história aprofundava o olhar do homem que não queria converter-se em menino, mas a tudo ele respondia que sim, como quem diz sim a qualquer sorte. Foi quando chegou o sol que percebemos que era sábado, “o dia do presente”, e havia sobre o cais “uma tensão inusitada” de que somente agosto é capaz. Levantamo-nos à revelia de nossos próprios corpos gastos pela madrugada, e olhamos ainda uma vez o homem e a mulher antes de deixar o cais. Ela partia, tomando de carona o primeiro barco que zarpava, pois já era agosto, quando os barcos partem para onde existe quem sabe um abril. Se em algum sábado ela regressar, ele provavelmente, da maneira mais distraída, terá esquecido de como seu vestido tinha flores que se agitavam ao vento da margem, terá esquecido dos cirros que surgiram como anjos translúcidos por entre os nimbos, enquanto ela bailava naquela manhã.

terça-feira, 10 de julho de 2007

Rehael


"Começou a aparecer nos nossos sonhos, sem que pudéssemos evitar, e disse-nos se chamar Rehael. Aparecia em forma de andarilho, de artista, de velho sábio, e quase sempre acordávamos tristes da viagem, sem poder saber se um dia o veríamos real. Enquanto era andarilho, levava-nos para os mais recônditos povoados dos sonhos, e nos dizia maravilhas de se ter uma estrada sem fim como companhia. Como artista, era único. O melhor palhaço, ou o melhor Lisandro. E dos mais insólitos tablados que podiam se sustentar tanto em copas de árvores quanto em águas correntes, arrancava-nos aplausos que beiravam as lágrimas. Em todos os sonhos, de todas as madrugadas, em qualquer forma tinha o dom da potência. No sonho em que nos apareceu como menino, abraçamo-nos ao seu corpo, e com o mais desamparado dos olhares lhe perguntamos por que nos deixava à sorte dos que têm saudades. Desvencilhou-se enigmático, e no sonho seguinte apareceu-nos na forma que nos disse ser a original, do anjo Rehael, da segunda hierarquia dos anjos. Depois de recitar um salmo inédito, prometeu-nos que nunca mais precisaríamos ter saudades. E nos aprisionou no sonho para sempre."

segunda-feira, 9 de julho de 2007

Explicação da primeira postagem

Uma de minhas filhas, ainda pequena, ouvindo a leitura de um de meus textos, me perguntou se eu só sabia escrever sobre árvore e passarinho... Eu disse que sim, e ainda que o texto fosse sobre o amor ou o desamor, com todos os riscos de ser clichê, sempre haveria uma árvore, uma chuva ou um passarinho. Este primeiro, Espera, é a prova do crime confesso.


Espera

“As árvores estão esperando passar a estação do frio para recriar os frutos da primavera. A borboleta noturna espera passar o dia para voar livre na escuridão. As andorinhas esperam passar as chuvas do inverno para tornar aos ninhais do sul. E o homem, fitando as árvores que abrigam as andorinhas e escondem a borboleta, espera passar a dor do amor perdido”.