Tonico come formigas e diz que elas têm sal. Diz que toda vez que vê um dinossauro tem vontade de pega-lo. Eu escrevo e armo no papel meu pequeno tabuleiro de palavras-souvenirs e lhe pergunto aonde viu um dinossauro. Ele aponta em inúmeras direções o dedo pintado de tinta óleo azul. Inclusive o cirro mais alto da tarde, um rabinho de cavalo. O tabuleiro está pronto... Lírico, trepidante, libertino, platiplanto, entre outras palavras que vão dar no sem fim. Pergunto a Tonico se ele sabe fazer avião. Não. Quer aprender? Não. E fica olhando de perto minha imperícia em dobrar papel. Demoro, para ganhar importância. Quando enfim lanço em vôo as palavras-souvenirs, vejo os olhos encantados de Tonico, que refletem um pequeno avião de papel sobrevoando um dinossauro.
domingo, 26 de julho de 2009
Souvenir
Tonico come formigas e diz que elas têm sal. Diz que toda vez que vê um dinossauro tem vontade de pega-lo. Eu escrevo e armo no papel meu pequeno tabuleiro de palavras-souvenirs e lhe pergunto aonde viu um dinossauro. Ele aponta em inúmeras direções o dedo pintado de tinta óleo azul. Inclusive o cirro mais alto da tarde, um rabinho de cavalo. O tabuleiro está pronto... Lírico, trepidante, libertino, platiplanto, entre outras palavras que vão dar no sem fim. Pergunto a Tonico se ele sabe fazer avião. Não. Quer aprender? Não. E fica olhando de perto minha imperícia em dobrar papel. Demoro, para ganhar importância. Quando enfim lanço em vôo as palavras-souvenirs, vejo os olhos encantados de Tonico, que refletem um pequeno avião de papel sobrevoando um dinossauro.
quarta-feira, 22 de julho de 2009
Esperando agosto
.
Eu era bem menina quando me ensinaram que agosto era mês de cachorro louco. Fazia sentido: no lugar onde eu morava, nos confins do Paraná, o clima de agosto era propício à proliferação do vírus da raiva canina. Cachorro louco era coisa comum por lá, de forma que cresci com este agosto estigmatizado na ideia. Além de mês de cachorro louco, era o mês da bruxa solta, do azar desgovernado e uma série de outras crenças.
Pelo mundo inteiro agosto é uma ameaça porque historicamente coisas terríveis aconteceram neste mês, gerando paranoias universais. Mas no balanço geral, acredito que outras coisas não menos terríveis aconteceram em outros meses e nem por isso se teme outros meses.
Foi em agosto que as cidades de Hiroshima e Nagazaki foram destruídas pelas bombas atômicas, foi em agosto que Hitler assumiu o governo alemão e começou a fazer o diabo, que Nelson Mandela foi preso, que se iniciou a construção do muro de Berlim, que Elvis Presley, Marilyn Monroe, Trotski, Nietzche e a princesa Diana morreram, que nasceu Bill Clinton...
Em compensação, foi em agosto que nasceram Herman Melville, Louis Armstrong, Alfred Hitchcock, Jorge Amado, Tolstoi e a Madre Teresa de Calcutá. Se isto não é suficiente para demonstrar que agosto é um mês injustiçado, foi em agosto que se iniciou o Festival de Woodstock, do qual eu poderia ter participado se não morasse nos confins do Paraná e se não tivesse três anos de idade. Mas este desejo é assunto pra outro dia.
Agosto só se tornou agosto em homenagem ao imperador romano César Augusto, que não queria ficar por baixo do imperador Júlio César, que por sua vez já era dono do mês de julho. E como julho tem 31 dias, César Augusto bateu o pezinho e disse: eu também quero! Por isso agosto também é de 31. Antes desta crise de frescura, agosto se chamava Sextil.
Pra quem não sabe – e eu também não sabia até hoje, parte do medo do brasileiro do mês de agosto foi herdada de Portugal. Como a época era a melhor para o início das navegações, em Portugal mulher nenhuma queria casar em agosto, porque o marido ia embora pro mar e em muitos casos nunca mais voltava. Morria afogado, se arranjava com outra em outro porto, etc... É por isso que no Brasil se diz que casar em agosto traz desgosto. Agora, não lavar a cabeça no mês de agosto, porque disque isso chama a morte, é coisa de argentino.
Portanto, prefiro esperar agosto como quem gosta da vida, e não como quem espera uma chuva ácida.
Pelo mundo inteiro agosto é uma ameaça porque historicamente coisas terríveis aconteceram neste mês, gerando paranoias universais. Mas no balanço geral, acredito que outras coisas não menos terríveis aconteceram em outros meses e nem por isso se teme outros meses.
Foi em agosto que as cidades de Hiroshima e Nagazaki foram destruídas pelas bombas atômicas, foi em agosto que Hitler assumiu o governo alemão e começou a fazer o diabo, que Nelson Mandela foi preso, que se iniciou a construção do muro de Berlim, que Elvis Presley, Marilyn Monroe, Trotski, Nietzche e a princesa Diana morreram, que nasceu Bill Clinton...
Em compensação, foi em agosto que nasceram Herman Melville, Louis Armstrong, Alfred Hitchcock, Jorge Amado, Tolstoi e a Madre Teresa de Calcutá. Se isto não é suficiente para demonstrar que agosto é um mês injustiçado, foi em agosto que se iniciou o Festival de Woodstock, do qual eu poderia ter participado se não morasse nos confins do Paraná e se não tivesse três anos de idade. Mas este desejo é assunto pra outro dia.
Agosto só se tornou agosto em homenagem ao imperador romano César Augusto, que não queria ficar por baixo do imperador Júlio César, que por sua vez já era dono do mês de julho. E como julho tem 31 dias, César Augusto bateu o pezinho e disse: eu também quero! Por isso agosto também é de 31. Antes desta crise de frescura, agosto se chamava Sextil.
Pra quem não sabe – e eu também não sabia até hoje, parte do medo do brasileiro do mês de agosto foi herdada de Portugal. Como a época era a melhor para o início das navegações, em Portugal mulher nenhuma queria casar em agosto, porque o marido ia embora pro mar e em muitos casos nunca mais voltava. Morria afogado, se arranjava com outra em outro porto, etc... É por isso que no Brasil se diz que casar em agosto traz desgosto. Agora, não lavar a cabeça no mês de agosto, porque disque isso chama a morte, é coisa de argentino.
Portanto, prefiro esperar agosto como quem gosta da vida, e não como quem espera uma chuva ácida.
terça-feira, 14 de julho de 2009
Querido pai
.
Meu pai tem nome de poeta: Casemiro... Nasceu no Rio Grande do Sul, na década de 1930, mas não chegou a antenar-se nunca na efervescência cultural da época, na revolução industrial, na nova poesia modernista, nos romances regionalistas, na popularização dos automóveis e etcétera. Morava nos mais longínquos rincões gaúchos e precisava plantar e criar o que ia comer. Mas ouvia rádio nas altas oito horas da noite, cansado de roça, espiando pela janela a cadência das estrelas sobre o matão e com a cama já preparada para dormir. O arado à espera para a madrugada do outro dia.
Por isso sei que os ouvidos de meu pai foram educados pela mais pura música sertaneja de raiz, aquela que cantavam Cascatinha e Inhana, Tonico e Tinoco, Pena Branca e Xavantinho... Aquela mesma que ele teimava em continuar ouvindo em discos antigos quando eu já era adolescente e morria de rir de seu gosto pré-histórico.
Um dia, muito tempo depois – eu já era bem adulta – surpreendi meu pai encantado com uma música que eu costumava ouvir nas ocasiões em que tentava desvendar o que fazer para unir o fio das minhas saudades à presença real do objeto de minhas saudades... Era Louis Armstrong cantando What a wonderful world.
Ontem entrei no supermercado no justo momento em que no sistema de som ambiente Louis Armstrong começava: I see trees of green, red roses too/ I see them bloom for me and you/And I think to myself/what a wonderful world... A música de meu pai, pensei, e então de repente me lembrei que era o dia de seu aniversário. 13 de julho. Seu Casemiro estava fazendo 74 anos.
Deixei lá na cestinha o pacote de arroz com brócolis que fui comprar. Saí do supermercado para chorar de saudade de meu pai no meio do sol de meio-dia, pois já era tempo de arrepender-me das tantas vezes que zombei do sertanejo que havia em sua alma, as mesmas vezes em que ele desligou o disco de suas poucas manhãs de folga somente para me agradar.
Por isso sei que os ouvidos de meu pai foram educados pela mais pura música sertaneja de raiz, aquela que cantavam Cascatinha e Inhana, Tonico e Tinoco, Pena Branca e Xavantinho... Aquela mesma que ele teimava em continuar ouvindo em discos antigos quando eu já era adolescente e morria de rir de seu gosto pré-histórico.
Um dia, muito tempo depois – eu já era bem adulta – surpreendi meu pai encantado com uma música que eu costumava ouvir nas ocasiões em que tentava desvendar o que fazer para unir o fio das minhas saudades à presença real do objeto de minhas saudades... Era Louis Armstrong cantando What a wonderful world.
Ontem entrei no supermercado no justo momento em que no sistema de som ambiente Louis Armstrong começava: I see trees of green, red roses too/ I see them bloom for me and you/And I think to myself/what a wonderful world... A música de meu pai, pensei, e então de repente me lembrei que era o dia de seu aniversário. 13 de julho. Seu Casemiro estava fazendo 74 anos.
Deixei lá na cestinha o pacote de arroz com brócolis que fui comprar. Saí do supermercado para chorar de saudade de meu pai no meio do sol de meio-dia, pois já era tempo de arrepender-me das tantas vezes que zombei do sertanejo que havia em sua alma, as mesmas vezes em que ele desligou o disco de suas poucas manhãs de folga somente para me agradar.
sexta-feira, 10 de julho de 2009
Semeadores de utopias
Estou começando hoje a compor uma lista de nomes que tiveram e têm relevância nas lutas pela preservação do meio ambiente em todos os tempos. São os semeadores de utopias ligadas à natureza. Gostaria de receber sua contribuição. Acrescente, belos olhos e doce coração que me lê, um nome a esta lista que até agora está ssim:
.
Chico Mendes, Liev Tolstói, Buda, Dorothy Stang, Bacon, Rousseau, Aristóteles, Virgílio, Fernando Gabeira, Marina Silva, Mary Allegretti, Antônio Alves,Vandana Shiva, Brundtland, Muir, Carson, Darwin, Thiago de Mello, João Alberto Capiberibe, Christiane Torloni, Lovelock, São Francisco de Assis, Marx, Mahatma Gandhi, Heidegger, Betinho, McKibben, Al Gore, Júlio Roberto, Tom Jobim...
.
Muito obrigada. A razão eu conto depois!
quarta-feira, 1 de julho de 2009
Meninos de julho
Do livro Lugar da Chuva
.
Em caminhadas crepusculares pelas ruas da cidade, pergunto-me por onde estarão perdidos neste setembro aqueles meninos que soltam pipas em julho. Vi um deles passando ali pela esquina entre as avenidas Rio Pedreira e Rio Tocantins. Sobre sua cabeça havia mil bolhas imaginárias ocupadas pelas maquinações da infância, bicicletas voadoras, sapatos com imensas molas propulsoras, asas de papelão, o sonho pré-histórico de voar alimentado pelo homem... Ia cabisbaixo, esperando julho chegar. Um outro atravessava distraído a monotonia da praça Chico Noé. Talvez pensasse em como seria bom se, em vez de empinarem pipas, pipas empinassem meninos. Os outros, não sei por onde andam, neste setembro vazio de meninos nas ruas, quando os jambeiros da General Rondom derramam flores nas calçadas e as mangueiras da Leopoldo Machado repousam até abril.
Os meninos de julho amanhecem colorindo com pipas o céu às margens do Amazonas dourado, cujas águas ondulam desde o princípio do mundo. Circundam a secular Fortaleza de São José de Macapá, onde dormem os negros que a construíram, iluminados pelo sol menino que penetra as paredes de pedra. Correm incansáveis e descalços no sedimento da praia, até que se acendam as luzes do trapiche, até que julho termine.
Agora que o menino está sonhando, Macapá sente a falta de pipas cruzando o céu, transportando o sonho de voar do menino.
Os meninos de julho amanhecem colorindo com pipas o céu às margens do Amazonas dourado, cujas águas ondulam desde o princípio do mundo. Circundam a secular Fortaleza de São José de Macapá, onde dormem os negros que a construíram, iluminados pelo sol menino que penetra as paredes de pedra. Correm incansáveis e descalços no sedimento da praia, até que se acendam as luzes do trapiche, até que julho termine.
Agora que o menino está sonhando, Macapá sente a falta de pipas cruzando o céu, transportando o sonho de voar do menino.
segunda-feira, 29 de junho de 2009
Considerações sobre o nada
A formiga adivinha a linha que leio no centro da página e percorre as letras em disparada, até a palavra poeira. O que quer me dizer? Pra sacudir a poeira? Pra deixar a poeira sentar? Formiguinha infame! No mínimo, levantou minhas poeiras passadas. Se pelo menos tivesse parado na palavra acordeão, telúrica, ou vento... Como se quisesse desculpar-se, ou responder às minhas indefinições, ela corre para o meio da linha seguinte e fica descansando sobre a palavra nada. Fecho o livro? Ou a deixo continuar provocando minha incrível disposição para os pensamentos inúteis em plena manhã de segunda-feira?
segunda-feira, 22 de junho de 2009
Aventura
Às vezes acho Macapá uma cidade estranha. Noutras tenho certeza. Meus leitores daqui me compreendem. Os demais devem limitar-se a visualizar a situação, e jamais pensar que Macapá é o fim do mundo. Só a quem é daqui ou mora aqui há 23 anos é permitido pensar isso. E a gente aproveita esse privilégio pra pensar coisas bem piores.
Resolvi me aventurar no domingo à noite em busca de um hambúrguer. A pé, porque calculei que a barraca da esquina estaria à minha espera. Não estava. Sempre em frente, como o Legião – e evitando a direção da beira do rio, onde a metade da população passeia, come churros e corre atrás de crianças tresloucadas no domingão – andei quase um quilômetro sem encontrar o hambúrguer. Um cheese banana, então, nem pensar.
Costumo pensar muito quando caminho – tem gente que fala sozinha, chuta pedras, apedreja cachorros – e ia pensando em como é interessante que sejam as perguntas, e não as respostas, que movem o mundo, quando dobrei a esquina da Padre Júlio com a Tiradentes e dei de cara com uma multidão parada na calçada. Assim, depois do nada. Uma multidão.
Eu não sei o que aquela gente toda estava fazendo ali, imagino que esperando por uns 15 ônibus, mas nem é isso o que me interessa. Foi o susto de ser engolida por uma multidão que olhava na direção contrária o que me fez sentir meio perdida, com a sensação de estar numa cena do Expresso da Meia Noite, ou de ser observada por todos: pelo rapaz que cantava eu vou fazer um ie-ie-iê romântico, pela grávida escorada no poste, pela mulher que assustava o filho dizendo que lá vinha o homem do saco (embora todo homem tenha).
Passei, e nada do sanduíche. Pra resumir, depois de dar mil voltas, encontrei uma barraca numa praça erma, a da Conceição... não porque seja distante, mas porque a falta de iluminação e o mato crescido a tornam desolada. Sua única beleza hoje é ter hambúrgueres para quem tem fome.
Voltei comendo o sanduíche pela rua, evitando pontos de ônibus com multidões, esquinas escuras – nunca se sabe onde se vai dar de cara com o homem do saco – e pra minha surpresa, ao dobrar outra esquina, fui surpreendida com a boca cheia de sanduíche por uns 30 fiéis da Comunidade Cristã de Macapá (pertinho da casa do falecido Brow), que tentaram me arrastar para aceitar Jesus.
Eu aceito, eu aceito! Mas primeiro me deixem terminar de comer, disse a eles, e em sua primeira distração, empreendi a fuga. No próximo domingo à noite, vou ficar em casa, vou comer as sobras do almoço. Se tiver.
Resolvi me aventurar no domingo à noite em busca de um hambúrguer. A pé, porque calculei que a barraca da esquina estaria à minha espera. Não estava. Sempre em frente, como o Legião – e evitando a direção da beira do rio, onde a metade da população passeia, come churros e corre atrás de crianças tresloucadas no domingão – andei quase um quilômetro sem encontrar o hambúrguer. Um cheese banana, então, nem pensar.
Costumo pensar muito quando caminho – tem gente que fala sozinha, chuta pedras, apedreja cachorros – e ia pensando em como é interessante que sejam as perguntas, e não as respostas, que movem o mundo, quando dobrei a esquina da Padre Júlio com a Tiradentes e dei de cara com uma multidão parada na calçada. Assim, depois do nada. Uma multidão.
Eu não sei o que aquela gente toda estava fazendo ali, imagino que esperando por uns 15 ônibus, mas nem é isso o que me interessa. Foi o susto de ser engolida por uma multidão que olhava na direção contrária o que me fez sentir meio perdida, com a sensação de estar numa cena do Expresso da Meia Noite, ou de ser observada por todos: pelo rapaz que cantava eu vou fazer um ie-ie-iê romântico, pela grávida escorada no poste, pela mulher que assustava o filho dizendo que lá vinha o homem do saco (embora todo homem tenha).
Passei, e nada do sanduíche. Pra resumir, depois de dar mil voltas, encontrei uma barraca numa praça erma, a da Conceição... não porque seja distante, mas porque a falta de iluminação e o mato crescido a tornam desolada. Sua única beleza hoje é ter hambúrgueres para quem tem fome.
Voltei comendo o sanduíche pela rua, evitando pontos de ônibus com multidões, esquinas escuras – nunca se sabe onde se vai dar de cara com o homem do saco – e pra minha surpresa, ao dobrar outra esquina, fui surpreendida com a boca cheia de sanduíche por uns 30 fiéis da Comunidade Cristã de Macapá (pertinho da casa do falecido Brow), que tentaram me arrastar para aceitar Jesus.
Eu aceito, eu aceito! Mas primeiro me deixem terminar de comer, disse a eles, e em sua primeira distração, empreendi a fuga. No próximo domingo à noite, vou ficar em casa, vou comer as sobras do almoço. Se tiver.
quarta-feira, 17 de junho de 2009
Madrigal da manhã
Da série Breves Contos
.
Atravesso a cavalo por entre os tanques de guerra encalhados em trilhas de sangue sobre o asfalto, deixando para trás o rio que corre em pororocas para o mar, arrebatando ilhas e submetendo árvores. Os abrigos subterrâneos esquecidos foram tomados pelas raízes das mangueiras apedrejadas desde a criação e pelas garrafas vazias que percorreram bueiros em busca do rio que procura o mar. Procuro a montanha que em verdade não há, porque não posso conter o galope. Nas ruas, rebeldes disfarçados de piratas enforcam animais de pelúcia e saqueiam os corações das mulheres. Mágicos trajados de soldados da paz arrancam dos quepes pombos macambúzios que se abalam rumo à montanha que não há, surpreendendo os mendigos que seguram rosas entre os dentes devastados. Nos salões, os generais dançam tango, embrulhando sua nudez em toalhas de linho, calçados com os scarpins das mulheres, enquanto os cães urinam nos mocassins e devoram na mesa o banquete intocado. Estendido numa calçada, um exemplar do Le Monde exibe a fotografia dos hipopótamos mortos pelo antraz que apodrecem nas ruas em Uganda. A manchete diz que a África não possui dólares suficientes para enterrar os cadáveres. Soterrado pela animalidade, salto do galope com destino ao limbo, derradeiro abrigo, onde poderei ser pós-humano. Acordo às seis, pensando em Gerineldo, que um dia percebeu o vazio da guerra e foi envelhecer na varanda, olhando a chuva.
segunda-feira, 8 de junho de 2009
O leite derramado
Ainda ontem, quando vi dois mergulhões viajando em direção às ilhas - embora todos os dias eu veja - percebi que janeiro, fevereiro, março, abril e - pasmem - maio já ficaram para trás. É que os mergulhões batiam as asas de um modo indiferente, como se achassem que em junho não há poesia. Não brincavam no ar rosado da tarde no rio Amazonas, como faziam até o mês anterior: simplesmente voavam para as ilhas, consumando o tempo.
.
Perdoem-me pelo simplismo de começar falando em passarinho... é que não encontrei nada mais leve que o vôo de dois pares de asas para dizer que a carga de quase seis meses mal vividos está esmigalhando minhas pobres costelas. Quando me dei conta de que estamos em junho, tive vontade de olhar nos olhos de cada caminhante do parque e perguntar em franco desespero: você acredita?
.
É tarde para colher a esperança fresca do novo janeiro, para esbaldar-se nas alegrias de fevereiro, ainda que tudo acabasse na quarta-feira. É tarde para amansar o coração sob as chuvas de março, para tomar um dos navios que partiram em abril levando cães clandestinos e amores extraviados, ou ainda ver os anjos dançando cirandas em torno de Maria em maio... é tarde.
.
Mas ainda dá tempo de colher mansas chuvas que estendem desertos na madrugada, de ler o Leite Derramado, do Chico Buarque, sem chorar o leite derramado. Dá tempo de dobrar uma esquina e dar de cara com a primavera que virá, trazendo quem sabe o aviso de um novo amor em seus ventos de rio, tempo para ouvir os sonhos de Júlia, o riso de Olívia, as canções pacifistas de Bob Marley. De confiar na reconciliação entre os povos e descobrir que "é preciso não se recusar à vida", antes que a morte, entre outras tantas coisas...
.
E antes que os meses vindouros comecem a pesar também sobre os ombros, voltemos a falar em passarinho... há um bem-te-vi me esperando no galho encostado em minha janela.
terça-feira, 26 de maio de 2009
Ágata
Da série Breves Contos
O corpo veludo pérola do oriente se levanta leve, entre a intenção e o bocejo, no dia líquido de céu turquesa. Ela anda em direção à esquina, e os olhos verde jade, lânguidos da tarde entregue à preguiça, lambem o colar de topázio azul da vitrine. Perde-se parada a sustentar o desejo na língua quartzo rosa, envolta na brisa do mar esmeralda, e se volta à melodia do canto que chega do jardim de pássaros safira. É o fim do crepúsculo opala quando atravessa de volta entre os transeuntes que fogem do anoitecer que se prenuncia em granada castanho. Na sala, abandona-se aos dedos decorados em água-marinha que lhe enfeitam o pescoço com o pingente de ametista, e como em passos de petit ballet, salta felina para o telhado a miar para as estrelas diamantes que cintilam no ônix da noite.
terça-feira, 19 de maio de 2009
Esses dias...
.
Faz dias que nada penso, nada escrevo, nada prometo... Culpa de Thiago de Mello, poeta e louco, que me ensinou a brincar com os rinocerontes e caminhar pelas tardes com uma imensa begônia na lapela.
segunda-feira, 11 de maio de 2009
I
Escrevi uma pequena série que não pretende se enquadrar em nenhuma forma literária – nem conto, nem crônica. São apenas textos que fluíram do desejo de dizer... Dei à série o nome de Linhas Tortas.
Deus, não espero que a esta carta o senhor responda formalmente, já que não me respondeu a tantas outras. Mas espero por um sinal. Se o senhor se aborrecer, pode responder com um temporal que arranque as telhas da minha casa, por exemplo. Antes assim do que me deixar pensando que para o senhor eu sou apenas uma bolha n´água.
.
Estou lhe escrevendo para dizer que acho que o senhor dorme, sim. Ao contrário do que dizem os pára-choques dos caminhões, que Deus não dorme. E acho inclusive que o senhor anda dormindo de touca, perdendo a boca e fugindo da briga, senão como é possível explicar essa vida tão torta?
Deus, não espero que a esta carta o senhor responda formalmente, já que não me respondeu a tantas outras. Mas espero por um sinal. Se o senhor se aborrecer, pode responder com um temporal que arranque as telhas da minha casa, por exemplo. Antes assim do que me deixar pensando que para o senhor eu sou apenas uma bolha n´água.
.
Estou lhe escrevendo para dizer que acho que o senhor dorme, sim. Ao contrário do que dizem os pára-choques dos caminhões, que Deus não dorme. E acho inclusive que o senhor anda dormindo de touca, perdendo a boca e fugindo da briga, senão como é possível explicar essa vida tão torta?
.
Eu sou um cara simples, que até pra escrever precisa da ajuda dos poetas, de quem vive tomando versos por empréstimo. E pra não parecer leviano poderia enumerar razões para a certeza de que o senhor dorme, mas esta é tão grave que deve ser suficiente... olha: João amava Teresa que amava Raimundo que amava Maria que amava Joaquim que amava Lili que não amava ninguém.
.
Percebe o tamanho do desencontro? É a maior das catástrofes humanas. Se Lúcifer tivesse vencido a revolução contra o senhor, talvez tivesse administrado as coisas de modo mais simples: João, Teresa, Raimundo, Maria, Joaquim e Lili se amariam uns aos outros, e viveriam em recíproca e constante entrega de seus corpos e almas, sem que isso representasse uma vergonha. E seriam todos felizes. Não vamos nos enganar.... Lúcifer é um libertário!
.
Eu não queria parecer vago nem obtuso, mas o mundo sob o seu comando anda muito paradoxal. Em quem eu devo acreditar enquanto o senhor dorme? No sujeito que disse que existe muito mais inferno entre o céu e a filosofia do que possa supor meu vão mistério? Em que eu devo pensar enquanto espero providências: no poder da olfação dos gnus? Na migração sazonal das borboletas amarelas?
.
Percebe o tamanho do desencontro? É a maior das catástrofes humanas. Se Lúcifer tivesse vencido a revolução contra o senhor, talvez tivesse administrado as coisas de modo mais simples: João, Teresa, Raimundo, Maria, Joaquim e Lili se amariam uns aos outros, e viveriam em recíproca e constante entrega de seus corpos e almas, sem que isso representasse uma vergonha. E seriam todos felizes. Não vamos nos enganar.... Lúcifer é um libertário!
.
Eu não queria parecer vago nem obtuso, mas o mundo sob o seu comando anda muito paradoxal. Em quem eu devo acreditar enquanto o senhor dorme? No sujeito que disse que existe muito mais inferno entre o céu e a filosofia do que possa supor meu vão mistério? Em que eu devo pensar enquanto espero providências: no poder da olfação dos gnus? Na migração sazonal das borboletas amarelas?
.
Lili continua sem amar ninguém, e eu me despeço sem pedir desculpas, porque não sou do tipo que morre de medo quando o pau quebra, embora haja quem diga que eu não sei de nada e que eu não sou de nada. Assino embaixo tudo o que disse. As outras dúvidas que possuo ficam para a próxima carta, que o senhor poderá ler quando acordar. Se...
Lili continua sem amar ninguém, e eu me despeço sem pedir desculpas, porque não sou do tipo que morre de medo quando o pau quebra, embora haja quem diga que eu não sei de nada e que eu não sou de nada. Assino embaixo tudo o que disse. As outras dúvidas que possuo ficam para a próxima carta, que o senhor poderá ler quando acordar. Se...
sábado, 9 de maio de 2009
Presente
Continho para minha mãe
Nas noites mais escuras, sem lampiões nas esquinas castigadas de poeira, extintos já os vaga-lumes na paisagem calcinada pelo sol da eras, sentávamo-nos à beira da rua, nossa mãe apagava a única lamparina da casa e pedia que fechássemos os olhos para ouvir as histórias que ludibriavam nossas dores antigas, nossa fome hereditária e o sono milenar de deus que nos eternizara no esquecimento, até que chegava o momento mágico em que ela nos dava o sinal para abrir os olhos, e então emergíamos da escuridão e dos abismos de toda a vida, para receber, por suas mãos iluminadas, o fabuloso presente do acender da lua.
Nas noites mais escuras, sem lampiões nas esquinas castigadas de poeira, extintos já os vaga-lumes na paisagem calcinada pelo sol da eras, sentávamo-nos à beira da rua, nossa mãe apagava a única lamparina da casa e pedia que fechássemos os olhos para ouvir as histórias que ludibriavam nossas dores antigas, nossa fome hereditária e o sono milenar de deus que nos eternizara no esquecimento, até que chegava o momento mágico em que ela nos dava o sinal para abrir os olhos, e então emergíamos da escuridão e dos abismos de toda a vida, para receber, por suas mãos iluminadas, o fabuloso presente do acender da lua.
segunda-feira, 4 de maio de 2009
Divaganças e desesperações
.
Tenho um amigo que anda pensativo sobre o destino humano, sobre o que somos e o que estará reservado a quem tem, por uma vida inteira, se dedicado a errâncias. Graças a Deus é só um. Nas ocasiões em que o encontro me sinto tentada a lhe dizer, com toda a crueza que tenho aprendido comigo mesma, o que penso sobre a epígrafe de um livro do Saramago – As Intermitências da Morte – que diz: saberemos cada vez menos o que é um ser humano. Mas tenho medo que lhe soe como uma terrível e invencível verdade. E que isto lhe mate o resto de esperança de descobrir de repente que somos qualquer coisa que o Céu aproveite mais tarde.
Prefiro continuar a vê-lo com o olhar perdido para as lonjuras do rio Amazonas, e ouvi-lo dizer as estranhezas permitidas a quem está chegando aos sessenta. Eu respeito sua cabeça branca. Outro dia me disse, com os olhos rútilos mirando o copo de cerveja: semana que vem vou passar 14 dias sem beber. Aperto-lhe a mão e lhe digo: Claro, eu compreendo como será comprida sua semana. Ele não entende. Está outra vez pensando na singular finalidade de nossa existência e importância no cosmos, se todos os seres vieram dos seres do mar, pra onde irão os bons e os bobos, os maus e os malas, etc. Eu penso no meu último desejo para o dia do juízo: lasanha de espinafre, que isso sim vale a pena.
Eu não mato suas esperanças, mas também não as alimento. Ando impressionada com a constatação de que o ser humano não muda, apesar da determinação científica de que a evolução nunca cessa. No futuro não teremos pelos no corpo... E daí, se estamos cultivando na alma monstros cada vez mais peludos e perversos que se expressam em nossas desumanidades diárias? Não. Não sou dada a obviedades existenciais. Já vou parar.
Depois de sua insólita promessa, meu amigo disse que não está contente consigo, que quer mudar, a burrice e a truculência com que tem se defrontado têm-no levado a repensar suas atitudes. E como tenha captado em meus olhos uma expressão de ceticismo nada sutil, arrematou: Ei, Lulih... eu estou mudando devagar. Reciclagem é fácil numa lata. Eu sou um ser humano. Foi a minha vez de estender os olhos para as lonjuras do rio. E meio envergonhada de minha própria desesperança, me limitei a divagar: por que todos os barcos são brancos?
Prefiro continuar a vê-lo com o olhar perdido para as lonjuras do rio Amazonas, e ouvi-lo dizer as estranhezas permitidas a quem está chegando aos sessenta. Eu respeito sua cabeça branca. Outro dia me disse, com os olhos rútilos mirando o copo de cerveja: semana que vem vou passar 14 dias sem beber. Aperto-lhe a mão e lhe digo: Claro, eu compreendo como será comprida sua semana. Ele não entende. Está outra vez pensando na singular finalidade de nossa existência e importância no cosmos, se todos os seres vieram dos seres do mar, pra onde irão os bons e os bobos, os maus e os malas, etc. Eu penso no meu último desejo para o dia do juízo: lasanha de espinafre, que isso sim vale a pena.
Eu não mato suas esperanças, mas também não as alimento. Ando impressionada com a constatação de que o ser humano não muda, apesar da determinação científica de que a evolução nunca cessa. No futuro não teremos pelos no corpo... E daí, se estamos cultivando na alma monstros cada vez mais peludos e perversos que se expressam em nossas desumanidades diárias? Não. Não sou dada a obviedades existenciais. Já vou parar.
Depois de sua insólita promessa, meu amigo disse que não está contente consigo, que quer mudar, a burrice e a truculência com que tem se defrontado têm-no levado a repensar suas atitudes. E como tenha captado em meus olhos uma expressão de ceticismo nada sutil, arrematou: Ei, Lulih... eu estou mudando devagar. Reciclagem é fácil numa lata. Eu sou um ser humano. Foi a minha vez de estender os olhos para as lonjuras do rio. E meio envergonhada de minha própria desesperança, me limitei a divagar: por que todos os barcos são brancos?
sexta-feira, 1 de maio de 2009
Continhos da Chuva
Fechei a porta na cara da chuva.
Ela nem viu que foi distração:
vingou-se no meu jardim,
deixando à mingua minha roseira...
Escondeu-se da chuva sob a árvore e
a árvore lhe choveu mangas sobre a cabeça.
Era um dia feliz:
foi comer manga na chuva.
Espiei a chuva mansa pela janela
enquanto ela espiava minha casa
pela goteira.
Ela nem viu que foi distração:
vingou-se no meu jardim,
deixando à mingua minha roseira...
Escondeu-se da chuva sob a árvore e
a árvore lhe choveu mangas sobre a cabeça.
Era um dia feliz:
foi comer manga na chuva.
Espiei a chuva mansa pela janela
enquanto ela espiava minha casa
pela goteira.
segunda-feira, 27 de abril de 2009
Quadro silencioso
Da série Breves Contos
Posto à margem pelos cachorros da casa, o gato dorme impávido sobre o dicionário aberto na mesa, a pata delicada e branca pousada na palavra segregacionismo. No canto oposto da mesa, as formigas devoram o doce esquecido pelo homem. A postos, os cachorros esperam que o homem venha abrir a porta para a corrida festiva nas ruas povoadas de folhas e odores de outros cães. À margem da vida nas alamedas do outono vindouro, o homem dorme incólume sobre o livro aberto na cama, a mão envelhecida e pálida abandonada num conto de solidão.
Posto à margem pelos cachorros da casa, o gato dorme impávido sobre o dicionário aberto na mesa, a pata delicada e branca pousada na palavra segregacionismo. No canto oposto da mesa, as formigas devoram o doce esquecido pelo homem. A postos, os cachorros esperam que o homem venha abrir a porta para a corrida festiva nas ruas povoadas de folhas e odores de outros cães. À margem da vida nas alamedas do outono vindouro, o homem dorme incólume sobre o livro aberto na cama, a mão envelhecida e pálida abandonada num conto de solidão.
terça-feira, 21 de abril de 2009
O último dia da primavera
Da série Breves Contos
Não sei como ou quando, mas voltarei para ver os estragos da tempestade que deixei na cozinha onde preparei a poção, no guarda-roupa onde escolhi o melhor traje para a viagem. Levo um cálice de cristal com o líquido verde-azul, o canudo de prata e os sapatos mais leves ao admirável tempo novo. Não deixo nenhum recado, para que vejam que eu apenas não me preocupo. O tempo passará depressa até que saibam que escolhi o terraço mais alto para este último dia da primavera. Quando enfim me encontrarem, ainda haverá luz nas alturas da tarde e estarei luminosa em meu vestido de arco-íris, indiferente a todos eles, mergulhando o canudo de prata no cálice e soprando na janela infinita do crepúsculo inumeráveis e translúcidas bolhas de sabão.
segunda-feira, 13 de abril de 2009
.
Meus livros fazem fila para ir comigo ver os crepúsculos de abril. A cada dia levo um diferente, que mal pode disfarçar seu contentamento no calorzinho sob o meu braço.
.
No primeiro dia levei um exemplar de bolso de poemas de Manuel Bandeira, escolhi uma beirinha de rio, sentei no chão e o coloquei ao meu lado... Pensava em abri-lo tão logo acostumasse meus olhos à paisagem, tão logo falasse umas palavrinhas com o rio e com os mergulhões que iam passando para o lado das ilhas - que eu não sou do tipo que ignora os bichos e os minerais - mas veio um vento cheirando à floresta, confundiu meu cabelo com folhagem e abriu o livro na página que bem quis. É este o poema que o vento quer, pensei, e fiquei por ali, lendo baixinho, no ritmo dissoluto das ondas.
.
Ao longo dos crepúsculos fui levando Pablo Neruda, Cecília Meirelles, Alcy Araújo, Maiacóvski... de modo que cada crepúsculo teve o gosto da sierra, dos canteiros, do cais, da revolução.
.
Hoje passeei com Rubem Braga, a quem sou fiel com a felicidade da moça que junto dele fica bestando na areia onde o sol dourado atravessa a água rasa. Na mesma beirinha de rio li Conversa de Abril, para que ouvissem as nuvens e uns tantos pares de asas: Eu pensarei em coisas longe; me perdoareis, porque na verdade vos levo comigo nessa dança triste...
Hoje passeei com Rubem Braga, a quem sou fiel com a felicidade da moça que junto dele fica bestando na areia onde o sol dourado atravessa a água rasa. Na mesma beirinha de rio li Conversa de Abril, para que ouvissem as nuvens e uns tantos pares de asas: Eu pensarei em coisas longe; me perdoareis, porque na verdade vos levo comigo nessa dança triste...
.
Sim, nessa dança louca nem As Coisas me escapará. Para o próximo crepúsculo, Arnaldo Antunes já está a minha espera.
Sim, nessa dança louca nem As Coisas me escapará. Para o próximo crepúsculo, Arnaldo Antunes já está a minha espera.
quarta-feira, 8 de abril de 2009
Oh, efeito!
Uma brincadeira com Rondó de Efeito, de Manuel Bandeira - que há de me perdoar.
Olhei para ele com toda a ternura,
Disse que ele era lindo,
Que ele era brando,
Que ele tinha o toque de um deus:
Não fez efeito.
Virei vampira:
Usei cabelos vermelhos,
Batom de absinto - afrodisíaco,
Prometi uma rosa escarlate entre as pernas,
Sexo neotântrico,
E disse que o dele era de todos o maior.
À toa: não fez efeito.
Então encarnei a intelectual:
Ele era o elemento fundamental da minha fórmula,
Falei eu te amo em Armênio,
em Sânscrito e em Albanês.
Escrevi,
Recitei,
Desesperei
E comi a página onde havia a Canção das Lágrimas do Pierrot.
Decorei doze poemas de Flores do Mal para agradar seu gosto por Baudelaire,
E para boquiabri-lo de admiração, teorizei sobre o kama Sutra, (a literatura do desejo, por tal forma envolvente, que homem nenhum pode tocar no assunto sem ter copiosas ereções...)
Perdi meu tempo: não fez efeito.
Que sujeitinho insensível!
Foi uma antítese na minha vida,
Quase um anti-tesão.
Mas ainda mato sua indiferença:
Vou lhe enviar por email
Em arquivo descompactado
A fotografia do meu novo deus.
Nu.
É impossível que não faça efeito!
Olhei para ele com toda a ternura,
Disse que ele era lindo,
Que ele era brando,
Que ele tinha o toque de um deus:
Não fez efeito.
Virei vampira:
Usei cabelos vermelhos,
Batom de absinto - afrodisíaco,
Prometi uma rosa escarlate entre as pernas,
Sexo neotântrico,
E disse que o dele era de todos o maior.
À toa: não fez efeito.
Então encarnei a intelectual:
Ele era o elemento fundamental da minha fórmula,
Falei eu te amo em Armênio,
em Sânscrito e em Albanês.
Escrevi,
Recitei,
Desesperei
E comi a página onde havia a Canção das Lágrimas do Pierrot.
Decorei doze poemas de Flores do Mal para agradar seu gosto por Baudelaire,
E para boquiabri-lo de admiração, teorizei sobre o kama Sutra, (a literatura do desejo, por tal forma envolvente, que homem nenhum pode tocar no assunto sem ter copiosas ereções...)
Perdi meu tempo: não fez efeito.
Que sujeitinho insensível!
Foi uma antítese na minha vida,
Quase um anti-tesão.
Mas ainda mato sua indiferença:
Vou lhe enviar por email
Em arquivo descompactado
A fotografia do meu novo deus.
Nu.
É impossível que não faça efeito!
sexta-feira, 3 de abril de 2009
domingo, 29 de março de 2009
Inventário das coisas
Desde o amanhecer que percorro a casa à procura do que tenho. Tenho muito, pareceu-me até aqui. Ninguém no mundo precisaria ter tanto. Não é necessário ter todas as coisas que tenho para compor uma vida. Se não as tivesse, poderia ser até mais feliz... Mas tenho, e preparo o inventário, pois sonhei que logo estarei perdida no silêncio cósmico das noites sem lua.
O primeiro item do inventário: pressentimentos. Tenho-os em abundância, e só me são úteis para pequenas inutilidades como saber que no fim da tarde ouvirei o tilintar antigo do sino do carrinho de picolé. E quando na tarde o carrinho enfim passa, me traz uma profunda saudade de Ezequiel, que amava os picolés de tangerina e que morreu criança, bem no meio de minha primeira infância.
Segundo item: a solidão que nasceu no dia em que me perdi do olhar azul de meu anjo e que morrerá depois de mim. Não me serve para nada, mas não posso doa-la... Quem quereria cultiva-la, ela, que tem raízes subterrâneas, aquáticas e aéreas para perpetuar sua espécie?
Tenho um vestido de petit pois, um anel de azeviche e o livro das previsões, perdidos no baú de labirintos. Tenho um gato que mente que é de pelúcia para fazer uso da colcha de cetim, um cão que quer ser meu dono, um gato de pelúcia de olhos de falsa ametista que amedrontam o gato e o cão.
Acho que minhas coisas estão cansadas de ser. Encontro-as todas com o ar de enfado de ter a mesma cara desde o momento original. Se estão exaustas de mim, só posso dizer que eu delas. Mas temos, eu e as coisas, o consolo da libertação recíproca iminente. Quando eu estiver de malas prontas, fingirei um sorriso de prévia saudade. Elas haverão de me olhar com o alívio de me ver finalmente devorada pela porta de saída.
Tenho também um pacote completo de ilusões. Se tivesse ouvido o poeta, e jogado fora uma a uma ao longo do caminho, teria entendido como a vida é leve. Não dá mais tempo. Não dá mais tempo para o amor em prosa que tenho guardado na gaveta de uma cama que tem gavetas. Com o tempo que resta vou enumerar no inventário a constelação de néon, todas as palavras que continuam não ditas, o dicionário de Esperanto, o poeminho do contra rabiscado na mesa, a esperança de abril, a desordem do próprio inventário...
O primeiro item do inventário: pressentimentos. Tenho-os em abundância, e só me são úteis para pequenas inutilidades como saber que no fim da tarde ouvirei o tilintar antigo do sino do carrinho de picolé. E quando na tarde o carrinho enfim passa, me traz uma profunda saudade de Ezequiel, que amava os picolés de tangerina e que morreu criança, bem no meio de minha primeira infância.
Segundo item: a solidão que nasceu no dia em que me perdi do olhar azul de meu anjo e que morrerá depois de mim. Não me serve para nada, mas não posso doa-la... Quem quereria cultiva-la, ela, que tem raízes subterrâneas, aquáticas e aéreas para perpetuar sua espécie?
Tenho um vestido de petit pois, um anel de azeviche e o livro das previsões, perdidos no baú de labirintos. Tenho um gato que mente que é de pelúcia para fazer uso da colcha de cetim, um cão que quer ser meu dono, um gato de pelúcia de olhos de falsa ametista que amedrontam o gato e o cão.
Acho que minhas coisas estão cansadas de ser. Encontro-as todas com o ar de enfado de ter a mesma cara desde o momento original. Se estão exaustas de mim, só posso dizer que eu delas. Mas temos, eu e as coisas, o consolo da libertação recíproca iminente. Quando eu estiver de malas prontas, fingirei um sorriso de prévia saudade. Elas haverão de me olhar com o alívio de me ver finalmente devorada pela porta de saída.
Tenho também um pacote completo de ilusões. Se tivesse ouvido o poeta, e jogado fora uma a uma ao longo do caminho, teria entendido como a vida é leve. Não dá mais tempo. Não dá mais tempo para o amor em prosa que tenho guardado na gaveta de uma cama que tem gavetas. Com o tempo que resta vou enumerar no inventário a constelação de néon, todas as palavras que continuam não ditas, o dicionário de Esperanto, o poeminho do contra rabiscado na mesa, a esperança de abril, a desordem do próprio inventário...
domingo, 22 de março de 2009
Contradança
Da série Breves Contos
Tranquei no quarto escuro meu anjo da guarda. Ah, se houvesse uma solitária, uma masmorra... Ficará no quarto por esta noite, suportando meus espelhos esféricos, meu baú de labirintos e o fantasma que na madrugada insiste em libertinagens. É o meu troco por sua negligência, por sua bússola louca que me levou a tantos desertos. Hoje veio me contar que a vida mente, acendeu um cigarro de conteúdo black e disse que também foi ludibriado. Depois se estirou nu no divã e pediu seu bule de vinho das almas. Anjo herege e sem caráter... Ficará aprisionado enquanto pinto as unhas, enquanto enfeito o corpo em transparências e decoro o colo em pedras e metais. Se me perguntar para onde vou, lhe direi a verdade: ao inferno propor uma contradança.
sábado, 14 de março de 2009
Reticências
Deixe-me sozinha... morreu o trema. Sou mais uma entre milhões de órfãos piegas que andam chorando sua morte. Pobrezinho, tão protetor dos us desamparados dentro das toscas palavras sequela e tranquilo. Até linguiça, com a presença do trema, era menos bizarra. Ao deparar com a palavra, era regra que minha atenção se voltasse para os dois pinguinhos parecidos com dois olhinhos meio desconfiados olhando de baixo para cima o altivo pingo do i. Pois o novo acordo da Língua Portuguesa matou o trema, e ele nunca mais deverá ser visto cobrindo a concavidade dos us, que vulneráveis às intempéries, se encherão de poeira e folhas secas e chuva. Estou triste, mas antes o trema que as reticências...
Ai de mim, se o acordo – que não é reforma – matasse as reticências. Nunca mais meu texto seria o mesmo. Tenho um caso de amor com elas que vai durar pelo tempo necessário para exprimir as coisas mais naturais e mais fundas de alguém que adora os dramas e umas tantas sentimentalidades, já que todos nós herdamos no sangue lusitano uma boa dosagem de lirismo. E no meu caso, além das vírgulas, é claro. Ao iniciar qualquer escrito, tenho sempre à mão um bom saco de vírgulas, usado sem a menor economia. De vez em quando uma delas cai no lugar errado e fica lá agonizando, até que eu a veja e a pendure na palavra certa. Isto quando ela não se eterniza, errante e perdida de tristeza, entre um sujeito e um verbo.
Mas as reticências, estas são parte da minha vida, que por sua vez está no que escrevo. Elas empregam às palavras a doçura que não encontro jamais nos homens e são como janelas que me permitem contemplar o infinito significado de uma frase dita pela metade, de uma verdade que sabe não ser absoluta, de uma anunciação que se quer interminável, ou ainda de uma coisa qualquer que possa ser desdita, porque mudamos de ideia, afinal... só quem está morto não muda.
Preste atenção: hoje é sábado, vá olhar o rio de sua cidade – se aí houver –, contemple a forma de pelo menos um distante cirro, sinta o cheiro da árvore mais próxima... embora, e talvez, você não tenha percebido, a paisagem também tem reticências. Espane a poeira de um livro e o abra numa página aleatória. Se houver ali uma frase reticente, leia a página toda. Se fizer tudo isso, você terá colocado uma reticência em sua vida. E nunca vai se arrepender. Elas têm infinitamente mais poesia que os pontos finais...
Ai de mim, se o acordo – que não é reforma – matasse as reticências. Nunca mais meu texto seria o mesmo. Tenho um caso de amor com elas que vai durar pelo tempo necessário para exprimir as coisas mais naturais e mais fundas de alguém que adora os dramas e umas tantas sentimentalidades, já que todos nós herdamos no sangue lusitano uma boa dosagem de lirismo. E no meu caso, além das vírgulas, é claro. Ao iniciar qualquer escrito, tenho sempre à mão um bom saco de vírgulas, usado sem a menor economia. De vez em quando uma delas cai no lugar errado e fica lá agonizando, até que eu a veja e a pendure na palavra certa. Isto quando ela não se eterniza, errante e perdida de tristeza, entre um sujeito e um verbo.
Mas as reticências, estas são parte da minha vida, que por sua vez está no que escrevo. Elas empregam às palavras a doçura que não encontro jamais nos homens e são como janelas que me permitem contemplar o infinito significado de uma frase dita pela metade, de uma verdade que sabe não ser absoluta, de uma anunciação que se quer interminável, ou ainda de uma coisa qualquer que possa ser desdita, porque mudamos de ideia, afinal... só quem está morto não muda.
Preste atenção: hoje é sábado, vá olhar o rio de sua cidade – se aí houver –, contemple a forma de pelo menos um distante cirro, sinta o cheiro da árvore mais próxima... embora, e talvez, você não tenha percebido, a paisagem também tem reticências. Espane a poeira de um livro e o abra numa página aleatória. Se houver ali uma frase reticente, leia a página toda. Se fizer tudo isso, você terá colocado uma reticência em sua vida. E nunca vai se arrepender. Elas têm infinitamente mais poesia que os pontos finais...
sábado, 7 de março de 2009
Por enquanto
Inspirado em Por Enquanto, de Renato Russo.
Pobre Baby Zen, que apanhou na rua. Trouxe para casa um braço puído, uma mochila ferida, as mãos lacrimejantes e nos olhos uma flor. A flor do parque por onde andeja junto aos cachorros que ainda não puderam empreender a fuga no navio. O navio que não quis partir antes de abril, porque só em abril haverá poesia para partir. Baby Zen está triste, as pancadas lhe partiram menos a cara que o coração. Pergunta-me o que mudará ao mudar a estação, porque pensa que de tudo eu sei. Nada vai conseguir mudar o que ficou, Baby Zen, eu lhe digo, na silenciosa intimidade com o infinito e com a ternura resignada de quem diz sim a qualquer sorte. É quando ele vem contar que pensava em mim quando viu chegando a morte. Que pensava em mim quando a morte lhe deu as costas e lhe deixou voltar para casa. E que agora sabia que tudo era pra sempre. Na madrugada acalmo os cabelos em tempestade de Baby Zen, beijo as dores intermitentes dos seus olhos e lhe afago as mágoas nuas no peito. Não posso lhe dizer que não sei o que é para sempre. Talvez seja aquele instante em que ele esquece as feridas e salta sobre minhas costas nuas com suas garras de tigre, com sua sede de náufrago. Fecho os olhos para sentir a dança de Baby Zen, que jamais saberá que o pra sempre sempre acaba.
Pobre Baby Zen, que apanhou na rua. Trouxe para casa um braço puído, uma mochila ferida, as mãos lacrimejantes e nos olhos uma flor. A flor do parque por onde andeja junto aos cachorros que ainda não puderam empreender a fuga no navio. O navio que não quis partir antes de abril, porque só em abril haverá poesia para partir. Baby Zen está triste, as pancadas lhe partiram menos a cara que o coração. Pergunta-me o que mudará ao mudar a estação, porque pensa que de tudo eu sei. Nada vai conseguir mudar o que ficou, Baby Zen, eu lhe digo, na silenciosa intimidade com o infinito e com a ternura resignada de quem diz sim a qualquer sorte. É quando ele vem contar que pensava em mim quando viu chegando a morte. Que pensava em mim quando a morte lhe deu as costas e lhe deixou voltar para casa. E que agora sabia que tudo era pra sempre. Na madrugada acalmo os cabelos em tempestade de Baby Zen, beijo as dores intermitentes dos seus olhos e lhe afago as mágoas nuas no peito. Não posso lhe dizer que não sei o que é para sempre. Talvez seja aquele instante em que ele esquece as feridas e salta sobre minhas costas nuas com suas garras de tigre, com sua sede de náufrago. Fecho os olhos para sentir a dança de Baby Zen, que jamais saberá que o pra sempre sempre acaba.
quarta-feira, 4 de março de 2009
Perto do fim do mundo
Eu pensei que o mundo iria acabar no dia 21 de dezembro de 2012, e parece que não vai. Já havia começado a viver momentos com gosto de despedida, a olhar para a paisagem com a expressão melancólica de quem tem a certeza da viagem, do nunca mais, com cara de quem pode dizer com firmeza: tô vasando. Mas era potoca! Não pude evitar que duas volumosas lágrimas vertessem de meus olhos desolados quando o Fantástico desmascarou a profecia. Foi uma estrondosa desilusão.
.
Se o mundo acabasse de uma hora para outra, com o choque de um planeta, asteróide, cometa, ou seja lá o que for, com a Terra, seria menos sofrível do que a morte lenta que a gente sofre todos os dias, a morte da esperança numa humanidade mais justa e mais pacífica, já que a paz é produto-consequência-resultado da justiça.
Se o mundo acabasse de uma hora para outra, com o choque de um planeta, asteróide, cometa, ou seja lá o que for, com a Terra, seria menos sofrível do que a morte lenta que a gente sofre todos os dias, a morte da esperança numa humanidade mais justa e mais pacífica, já que a paz é produto-consequência-resultado da justiça.
.
Semana passada, por exemplo, eu morri um bocado. Morri quando soube que uma menina de nove anos, abusada sexualmente pelo padrasto desde os seis, está grávida de gêmeos. Morri quando um menino de 16 anos, do Quilombo do Curiaú, morreu eletrocutado quando nadava no lago e se encostou no suporte de um poste de energia elétrica enterrado sob a água por uma empresa contratada pelo governo do Amapá! E morri por uma série de outras coisas não menos terríveis, difíceis de enumerar.
Semana passada, por exemplo, eu morri um bocado. Morri quando soube que uma menina de nove anos, abusada sexualmente pelo padrasto desde os seis, está grávida de gêmeos. Morri quando um menino de 16 anos, do Quilombo do Curiaú, morreu eletrocutado quando nadava no lago e se encostou no suporte de um poste de energia elétrica enterrado sob a água por uma empresa contratada pelo governo do Amapá! E morri por uma série de outras coisas não menos terríveis, difíceis de enumerar.
.
Eu sei que vou continuar morrendo assim todos os dias, porque crianças continuarão a ser violentadas, atiradas pela janela, eletrocutadas em gambiarras elétricas de gente sem responsabilidade, e a maior parte da humanidade vai continuar assistindo a tudo isso nos telejornais, com cara de não tenho nada a ver com isso. Inclusive eu, que me permito ser governada por essa gente que está aí preocupada em mostrar na televisão o Governo em Ação inaugurando pracinha, eu, que nunca mais fui para o meio da rua, com minhas bandeiras, gritar que o povo brasileiro precisa de arroz, feijão, farinha, carne seca e trabalho, e que o prefeito, o governador e o presidente da república se virem pra arranjar!, que faz um tempão que não pratico solidariedade.
Eu sei que vou continuar morrendo assim todos os dias, porque crianças continuarão a ser violentadas, atiradas pela janela, eletrocutadas em gambiarras elétricas de gente sem responsabilidade, e a maior parte da humanidade vai continuar assistindo a tudo isso nos telejornais, com cara de não tenho nada a ver com isso. Inclusive eu, que me permito ser governada por essa gente que está aí preocupada em mostrar na televisão o Governo em Ação inaugurando pracinha, eu, que nunca mais fui para o meio da rua, com minhas bandeiras, gritar que o povo brasileiro precisa de arroz, feijão, farinha, carne seca e trabalho, e que o prefeito, o governador e o presidente da república se virem pra arranjar!, que faz um tempão que não pratico solidariedade.
.
Enfim, o fim seria a grande chance de recomeçar, do nada, da explosão, do verbo, um mundo novinho em folha. Ah, outra profecia diz que o mundo vai acabar numa quinta-feira! Hoje é quarta...
Enfim, o fim seria a grande chance de recomeçar, do nada, da explosão, do verbo, um mundo novinho em folha. Ah, outra profecia diz que o mundo vai acabar numa quinta-feira! Hoje é quarta...
domingo, 1 de março de 2009
Entre cinzas
Foi na quarta-feira de cinzas que reencontrei minha velha caixinha de recordações. Daquelas que a gente constrói em casa, usando papelão de outras caixas, papel de presente e até uns pedaços de renda para compor um certo ar de romantismo, naquele tempo em que se começa a supeitar de que a caixa da memória não será suficientemente boa para guardar tanta lembrança. E então a quarta-feira de cinzas foi tão longa que alcançou o domingo. A caixinha, descorada e torta, incorporou o longo tempo de minha ausência, e o tempo alongou a emoção do reencontro.
.
Pois neste domingo de cinzas eu continuo com a caixa aberta e faço a mim a contundente promessa de nunca mais fechá-la. Nunca mais ficarei longe da fotografia da menina de poncho verde e botinhas de camurça, cujas mãos na cintura dizem tanto quanto o olhar confiante de quem acredita que será capaz de conquistar todos os amores.
.
Quero reler todos os dias as cartas escritas em folhas de caderno, principalmente aquela que no post-scriptum diz Meu bem, tu és todo o mal da minha vida, trazida pelo carteiro ao portão dos 18 anos. Quero falar alto os poemas inacabados, rabiscados nas capas dos livros, e com eles voltar a sonhar, como o poeta que se esquece enfim que vai morrer e se distrai a construir castelos. A cada dia vou rever as pétalas da flor herdada de não sei quem, que secaram para sempre na página 88, entre o final da crônica Sobre o Amor e o início da Sobre o Inferno, de um livro de Rubem Braga.
.
Vou carregar no bolso velhos papéis com a receita para chamar a chuva, com a descrição juvenil de um amanhecer que se perdeu no tempo da maneira mais distraída, e a pequena pedra onde a ferro e fogo meu primeiro amor escreveu meu nome. Para nunca mais esquecer quem fui, quem sou.
sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009
A volta do enigma
Reli recentemente o clássico Dom Casmurro, para ajudar minha filha em um trabalho da escola, e voltei a pensar – com aquela estranha ansiedade que dá vontade de mastigar o cotovelo – sobre o enigma de Capitu. Vejam só, com tanta novela boa passando na televisão, eu pensando em Capitu. Todo mundo, até quem não lê, já pensou um dia em Capitu. O Saramago por aí, escrevendo coisas incríveis, seus livros virando filmes, a Malu Magalhães revolucionando a música aos 16 anos, namorando um Hermano, e eu aqui, escrevendo a quarta frase terminada com o nome de Capitu.
.
Onde quer que esteja, não tenho dúvidas de que Machado de Assis é uma alma perseguida, porque fez o favor de criar um enigma que persegue indefesos leitores pela vida afora. E continuará sendo, pela eternidade, enquanto Dom Casmurro não alimentar uma boa fogueira. Tá... é só um desabafo. O romance é tão bom que qualquer adjetivo da língua portuguesa pode lhe diminuir a significância. Arrisco dizer que quem não leu Dom Casmurro não viveu... mas vai morrer mais feliz. Ou menos infeliz.
.
Pensar sobre o enigma de Capitu é um sofrimento parecido a uma fome que não se pode matar, a procura de uma palavra que foge quando a gente mais precisa escrevê-la, ao incômodo de um cotovelo mastigado. O que me perturba em Capitu não é a possibilidade de ter traído, mas a de ter traído e não ter contado. Mas se não fosse isso não haveria enigma, e Dom Casmurro não seria. Enfim. Com Dom ou sem Dom, infidelidade é perdoável. Deslealdade, sabe Deus, Capitu.
.
Portanto, visitante, leitor esporádico ou assíduo... ajude-me a me livrar dessa embaraçosa perseguição do Machado e me responda: Como se chama aquela tartaruga de óculos das historinhas do Maurício de Sousa? Era o Mestre dos Magos o bandido da Caverna do Dragão? Usucapião é uma palavra masculina ou feminina?
domingo, 15 de fevereiro de 2009
Rehael
Começou a aparecer nos nossos sonhos, e disse-nos se chamar Rehael. Aparecia em forma de andarilho, de artista, de velho sábio, e quase sempre acordávamos tristes da viagem, sem poder saber se um dia o veríamos real. Enquanto era andarilho, levava-nos para os mais recônditos povoados dos sonhos, e nos dizia maravilhas de se ter a solidão de uma estrada sem fim como companhia. Como artista, era único. O melhor palhaço, o melhor Lisandro. E dos mais insólitos tablados que podiam se sustentar tanto em copas de árvores quanto em águas correntes, arrancava-nos aplausos que beiravam as lágrimas. Em todos os sonhos, de todas as madrugadas, em qualquer forma, tinha o dom da potência. No sonho em que nos apareceu como menino, abraçamo-nos ao seu corpo, e com o mais desamparado dos olhares lhe perguntamos por que nos deixava à sorte dos que têm saudades. Desvencilhou-se enigmático, e no sonho seguinte apareceu-nos na forma que nos disse ser a original, do anjo Rehael, da segunda hierarquia dos anjos. Depois de recitar um salmo inédito, prometeu-nos que nunca mais precisaríamos ter saudades. E nos aprisionou no sonho para sempre.
segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009
Previsões do tempo
O mar rumoreja inquieto, cantando à areia canções de náufragos, enquanto a estação se finda na lonjura transoceânica dos olhos do poeta que partiu. Hoje não fui às dunas nem esperei por aquela mensagem que parece viajar em um triste e desamparado navio de cargas que jamais chega ao seu destino. Debrucei-me à janela apenas, e até o sol se pôr sonhei com o poeta vindo pela areia branca do dia chumbo, procurando a liberdade de meu exílio e arrastando no braço nu sua poesia vestida de roxo-sangue. Vinha descalço e com os cabelos fluindo em ondas amendoadas pelo sol. Nada mais belo. Nem mesmo o próprio mar, que fluía em ondas de toda cor. O poeta deixava sem culpas seu navio atracado no caos e trazia o verão inteiro preso ao sorriso. No bolso um diapasão para as notas das marés, no peito a tatuagem de uma erva rara do Caribe. E como fosse tão cinza o dia, tinha aberta ao vento a blusa amarela feita com os três metros de poente dos desejos de um poeta da Rússia, que pensava em costurar calças pretas com o veludo da garganta. O meu navio atracava no mesmo caos, meu sorriso eternizado em outonos, meu diapasão do silêncio sob o travesseiro, e o vestido salpicado das ondas de ontem, disfarçadas em chuva. Mas da janela para o mar agora vejo o poeta passar ao largo, prosseguir desenhando pés assimétricos pela areia úmida, tornando ao seu país aquático pelo caminho inverso. Em suas veias pulsam as velas do barco que singra e sangra seu oceano de plumas. Presa ao cais deixa a poesia, e no doce aceno de adeus tem o desejo do ferro devorando a ferrugem, do sim devorando o não.
terça-feira, 27 de janeiro de 2009
Manhã
Acaba de amanhecer no mar. Foram-se embora da praia os visitantes noturnos, deixando a pequena fogueira com as brasas ainda acesas. Deixaram também seus papéis, suas cifras, que estão sendo levados pelo vento para outras paisagens, e levaram o violão, que atravessou insone as cantorias da madrugada. Ficou alguém deitado na areia, junto à fogueira, abraçado aos sapatos. Se o mar se esticasse mais um pouquinho lhe alcançaria os pés nus. Quando despertar, depois que este primeiro sol termine de lhe farejar o corpo imóvel como o de um morto, cujo único movimento é o dos cabelos e o da manga da camisa que freme como uma folha, andará errante e perdido de fome e abandono pela praia que não sabe ao menos onde é. Atravessará o tempo e os avisos de perigo pensando na moça de cabelos negros que na noite na praia lhe disse o último não. E esquecido de todas as teorias do acaso e do esquecimento, atravessará a tarde a escrever pequenos poemas na areia, que o mar depois apagará. Até que chegue outra noite, e ele possa enfim, ainda abraçado aos sapatos, sentir que o tempo liberta seu coração para voltar pra casa.
quarta-feira, 21 de janeiro de 2009
Ana e o mar
De tarde vejo Ana vestida de azul sobre uma rocha, procurando no horizonte o fim do mar. Sabe que de lá virá seu homem que foi para voltar. Como prometeu, ele trará uma esmeralda tão verde quanto os olhos de Ana, e ela espera há tantos sóis, que talvez se tenha perdido nas contas dos navios que viu chegar sem trazer o marujo sujo, de retorno à pátria e ao seu abraço. Um dia ele chegará com a pele curtida do calor de outras pátrias, com os cabelos compridos e amendoados pelo sol, e terá nas mãos o gosto amargo dos adeuses inumeráveis em outros cais. Nos olhos a luz serena das tardes de Fiji. Ana acolherá seu marinheiro, sem perceber que aquelas mãos que pousam como asas em seus cabelos têm ainda a areia das praias onde ele viveu estrangeiros amores, que sua pele tem o sal ainda fresco do suor de outras peles, e que seu coração não tem mais porto. E o marinheiro, acostumado à luz pálida da solidão dos olhos de tantos marujos do percurso, não perceberá que os olhos de Ana continuarão estendidos ao mar, à espera do homem que virá.
quinta-feira, 15 de janeiro de 2009
Ano do Boi
Chegamos ao ano do boi no horóscopo chinês, o signo da prosperidade e do trabalho duro. Não sei exatamente o que isto representa, se vou ter que continuar trabalhando duro em busca da prosperidade ou se isto está reservado apenas aos que nasceram sob o signo do boi. Eu sou cavalo... será que pra mim o ano vai ser moleza? Seria uma grande novidade. Acho que nunca consegui nada na vida sem ter que brigar muito e carregar muita estiva. Mas quase sempre consegui. Prefiro pensar que o que não consegui foi porque Deus pensou em outra coisa pra mim e não gosta de ser contrariado. Seja o que for, tenho um pacto comigo: neste ano, abaixo a rotina e as convenções!
Bem-vindos os que têm vindo. Não estou preparando nenhuma canção em que alguém se reconheça nem que fale como dois olhos, mas caminho por ruas que passam em muitos países, se não me vêem, eu vejo, e saúdo os animais que morgam nas tardes das calçadas. Graças à floresta, há chuvas temporais previsíveis pra inspirar uns escritos. Espero por eles.
domingo, 21 de dezembro de 2008
Au revoir!
Sem pressa de voltar, vou indo a um lugar onde não há um só tempo. Onde o tempo é simplesmente o tempo que você quiser que seja. Eu vou indo e quero que ele seja infância. Minha infância tem chuva nas cercas de tábuas, nas ruas de terra vermelha que entram pela floresta cujas árvores tocam nuvens, tem chá de ervas na tarde da varanda de papoulas e colibris, cheiro de maracujá, pitanga, araçá e grama molhada. Tem estrelas em noites inumeráveis, janelas abertas por onde entram a saudade e a lua. Esse tempo é o meu presente. A vocês, como presente, eu deixo O Amor:
.
Um dia, quem sabe,
ela, que também gostava de bichos,
apareça
numa alameda do zôo,
sorridente,
tal como agora está
no retrato sobre a mesa.
Ela é tão bela,
que, por certo, hão de ressuscitá-la.
Vosso Trigésimo Século
ultrapassará o exame
de mil nadas
que dilaceravam o coração.
Então, de todo amor não terminado
seremos pagos
em inumeráveis noites de estrelas.
Ressuscita-me,
nem que seja só porque te esperava
como um poeta,
repelindo o absurdo quotidiano!
Ressuscita-me,
nem que seja só por isso!
Ressuscita-me!
Quero viver até o fim o que me cabe!
Para que o amor não seja mais escravo
de casamentos,
concupiscência,
salários.
Para que, maldizendo os leitos,
saltando dos coxins,
o amor se vá pelo universo inteiro.
Para que o dia,
que o sofrimento degrada,
não vos seja chorado, mendigado.
E que, ao primeiro apelo:
- Camaradas!
Atenta se volte a terra inteira.
Para viver
livre dos nichos das casas.
Para que doravante
a família seja
o pai,
pelo menos o Universo;
a mãe,
pelo menos a Terra.
.
Maiacóvski
terça-feira, 2 de dezembro de 2008
Sofia

Último da série PANDORA
Ilustrado com tela de Modigliani
Sofia colheu a paixão na caixa de Pandora...
Na meia-noite eu penso em Baby Zen, eu olho as estrelas da constelação colada no escuro do quarto e elas se parecem com os seus dentes branquinhos que cintilam quando ele pergunta pela milésima vez se eu sei que ele leu Quando Nietzsche Chorou. Sim, Baby Zen, eu sei, eu sei também da encarnação em que você foi rei, digo a ele. Ele fingindo tristeza de menino diz que não pode mais comigo porque de tudo eu sei. Na meia-noite eu fecho os olhos cegos de ver a dança de Baby Zen, e na escuridão ele está rodopiando na madrugada sem grilos do gramado do parque, junto aos cachorros que confabulam a fuga no próximo navio. Baby Zen pede aos bichos que olhem pra mim, e que cantem com ele Sunshine Girl, sua invenção no violão imaginário que arrasta pela madrugada povoada de lua. Toda minha alma está no parque, dançando com Baby Zen a canção que diz que Sunshine nunca ficará só. Mas ele tão pouco sabe de solidão, do medo que tenho de um dia demorar em seu esquecimento, e perde a conta dos dias que some por outras constelações. Quer ser meu Miguel Littín, clandestino em meu corpo, o louco de minha primavera, meu Karenin... perdeu também a conta de quantas almas quer ter e mal compreende que eu quero apenas que seja meu homem. Por isso não posso ignorar Baby Zen na meia-noite em que ele volta chamando em minha janela com apelo de abandonado, quando salta para dentro com garras de tigre, e me sufoca a boca com sede de náufrago. Traz uma flor na mão aberta, a alquimia e o entrepossível. Se Nietzsche teve razões pra chorar, o que será de Sunshine Girl?
domingo, 16 de novembro de 2008
Nina

Série: Pandora
Nina colheu a loucura da caixa de Pandora...
Eu vejo o tempo sentado à minha porta, esperando que eu passe. Não me olha, não levanta a mão num de seus gestos de sábio, nem nunca ameaçou lançar-se sobre mim como a pantera da ingratidão para me devorar a doçura, minha única herança. Mas também não me parece ter complacência, e um dia, quando eu estiver bem perto, apenas me apontará um dedo sereno anunciando o fim já esperado. Enquanto ele me espera, escrevo-lhe a carta de despedida, sugiro-lhe urgente resposta porque não posso mais vê-lo ali na sua imobilidade de guardador das coisas que ele não ama. Porque o tempo simplesmente não ama ninguém. Quero saber dele quanto dura o nunca mais, quantos sóis dura um amor, em que parte da viagem ficou perdida a esperança, ficou perdido o meu nome, o desejo de ser uma mulher azul com asas de anjo, que tivesse um coração de pássaro, que respirasse saudades e cantasse ternas reticências... Ele não vai responder. Nem por isso vou odiá-lo. Vou fazer coisa pior: vou passar bem devagar e deixá-lo ao castigo da espera.
domingo, 9 de novembro de 2008
Hilda
Tenho uma necessidade estranha de dizer milhares de palavras todos os dias. Muitas mais que as sete mil da média das mulheres. Não posso suportar meu próprio silêncio. Por isso fui trabalhar no rádio. Tenho de manhã um programa de leitura de cartas de amor, de ódio e de problemas sexuais, um de música de tarde e outro de esculhambação de noite, que é o que eu mais gosto, porque dá pra falar o que quiser. Não tem censura nem hora pra acabar. Eu aproveito pra dizer que o Che Guevara era só um terrorista, que queimar um incenso é a mesma coisa que fumar três cigarros, que o ponto g é mais pra fora do que se pensa, que a chuva de meteoros do céu da Bulgária é ficção, que o livro A Boa Terra ensina como se fumar ópio, que o Elvis está pra morrer pela terceira vez... E também faço umas perguntas para os ouvintes, tipo: eram os deuses astronautas? Eles respondem as coisas mais loucas, que eu leio no ar. Hoje vou encerrar o programa da noite com a pergunta para um ouvinte que adora Tracy Chapman, que me ouve a noite inteira e só falta andar de dia com o radinho de pilha no ombro: Baby, can I hold you tonight?
quinta-feira, 30 de outubro de 2008
Marie
Série: PANDORAIlustrações: telas de Modigliani
Marie colheu a doença da caixa de Pandora...
Ferdinand voltou a freqüentar minha casa, como nos velhos tempos, seu espectro solitário no quarto dos livros, o lugar escolhido, antes e depois da morte. Na primeira vez em que o vi, muito depois de sua partida, espantou-se de que o tratasse como se o tivesse visto há pouco. “E os fantasmas contam o tempo?”, perguntei-lhe, e ele me respondeu que sim, que o tempo é muitas vezes mais longo se a morte é triste. “Escolhesse uma morte melhor”, desafiei-o, e ele sussurrou que sua morte era triste porque havia escolhido morrer. Sempre que chego, encontro-o no quarto dos livros e conversamos sobre as coisas que temos visto. Eu lhe conto dos poemas de amor que escrevo, como um grito de rebelião contra o nada, dos sonhos em que os ocasos se fazem a qualquer momento, com a mágica simples do sopro de uma palavra doce. Ele me conta de quantos têm chegado por lá por vontade própria, tangendo esses mesmos sonhos. “Ferdinand, você está muito mais velho do que quando se foi”, disse-lhe um dia. “Na morte também se envelhece, Marie, e depois vem outra morte”. Eu acho graça de seu apego. Matou-se porque quis. Embaraçou-me em solidão e também ficou sozinho. Ferdinand diz que logo vou morrer também, do mesmo mal: a crença demasiada na vida. Eu não sabia, mas acredito no que ele diz.
segunda-feira, 27 de outubro de 2008
Luna
Série: PANDORA Ilustrações: telas de Modigliani
.
Luna colheu a mentira da caixa de Pandora...
.
Passei três anos perdendo tempo na faculdade de Ciências Sociais. A única utilidade foi descobrir que Deus não existe e que a humanidade emburrece mais a cada solstício. Joguei uma mochila nas costas e andei pelo México e pela Inglaterra, procurando o sentido da existência. Los chicos me ensinaram um pouco. Dos ingleses não saiu nem um sorriso. Por aí disseram que eu estava passando uma temporada no Daime e que voltei inventando voltas pelo mundo. Então... voltei sem dinheiro, sem homem e sem ideologia, decidida a morar na rua, doesse o quanto doesse. Em algum lugar o sentido tinha que estar. Passei oito meses dormindo no papelão, comendo o pão sovado pelo diabo, sem lugar nem na mesa do inferno. Nos primeiros dois meses perdi seis quilos, dois dentes e o livro de poemas do Baudelaire que ganhei de um mexicano pra quem dei uma coisa. Os do contra dizem que deixei o livro, o peso e os dentes na cama de um figurão que tem fama de violento. Depois me acostumei a passar fome, a ficar dias sem tomar banho, desenvolvi até um pouco de afeto pelo beco onde esticava o papelão. Ou decifrava as ruas, ou me suicidava. Foi quando encontrei essa galera punk, me encontrei comigo mesma, punk na minha origem, o punk niilista, um pouco encardido, mas criativo, dissidente de todas as influências perversas. Não precisei mais procurar o sentido. Ele não existe. Dá uma olhada aí no meu zine e diz o que tu achas da minha filosofia. Mas me paga outra caipirinha que eu te conto mais uma história.
.
quarta-feira, 22 de outubro de 2008
Olga
Série: PANDORA Ilustrações: telas de ModiglianiPandora é a mulher mitológica criada por Zeus para castigar os homens pela ousadia de Prometeu em roubar dos céus o segredo do fogo. Zeus deu a Pandora uma caixa, cujo conteúdo eram os males que passariam a atingir a humanidade: a velhice, o trabalho, a doença, a loucura, a mentira e a paixão. Depois de aberta, somente a esperança ficou no fundo da caixa.
.
Olga colheu a velhice da caixa de Pandora...
.
Fui muda até os sete anos, porque a única pessoa com quem podia falar, num rincão dos pampas gaúchos, era minha mãe, que me trazia no ventre e que ficou muda quando recebeu a notícia de que meu pai tinha morrido num confronto da Coluna Prestes com a ditadura do Getúlio. Faz tempo. E era bem mentira. Meu pai estava vivo e feliz em Porto Alegre, vivendo com uma china que conheceu durante o recrutamento dos homens que iam subir o Brasil com o Prestes. Quando soube, anos depois, minha mãe, que estava muda da boca, ficou muda também dos braços e das pernas e logo morreu. Mas era tarde pra mudar meu nome. Apesar da mágoa de minha mãe pela revolução, fiquei Olga. Fui morar então com uma tia que vivia num pinhal do Paraná, e que também era quieta como um pinheiro. O que eu sabia bem quando cheguei ao pinhal era imitar os bichos: porco, galinha, cabra. Imito até hoje. Estou pertinho dos oitenta, mas o maior medo da minha vida não é o de morrer daqui a pouco, é o de ficar muda de verdade.
.
domingo, 19 de outubro de 2008
Depois do Enfim
Pepê Mattos é um poeta que sempre passa pela ruazinha incerta deste blog, observa aqui o tempo, desvenda circunstâncias, divisa sonhos e colhe em minha prosa um pouco do que sou. Em uma de suas vindas, deixou este breve conto, escrito no tronco de uma das árvores da ruazinha banhada de sol.
"Enfim, assim, estampado na camiseta, ela saiu pelas ruas. Seu estado de espírito resvalava ali pelo completo desapego a tudo que a circundava. Nem se importara com a imagem do espelho mostrando uma mulher que conhecia desde o momento em que levantava da cama até quando o sono (ou uma frustração qualquer) a jogava lá de volta. Conhecidos lhe paravam nas ruas querendo respostas que os convencessem de que tudo ia bem com ela. Ignoravam que resposta nenhuma ela tinha e o máximo que saía eram umas frases atropeladas que eram decodificadas como um "tudo bem", mas que ela mesma admitia que fosse "e daí?". Ensimesmada com tamanho infortúnio resolveu entrar na primeira sala de cinema que encontrasse pela frente, na ânsia de vislumbrar no infortúnio dos outros conforto para sua inquietude. A película lhe desdizia mais coisas que todos os desmandos ouvidos até então. Insatisfeita com sua decisão, resolveu atentar para a atuação dos atores. Isso não lhe tomou mais que duas horas de seu precioso tempo. Algumas lágrimas rolaram pela sua face límpida, perfazendo um percurso que terminara ali no canto dos lábios. Não soube dizer se eram pela história que assistia na tela ou pelo que vivenciara desde que saíra de casa..."
"Enfim, assim, estampado na camiseta, ela saiu pelas ruas. Seu estado de espírito resvalava ali pelo completo desapego a tudo que a circundava. Nem se importara com a imagem do espelho mostrando uma mulher que conhecia desde o momento em que levantava da cama até quando o sono (ou uma frustração qualquer) a jogava lá de volta. Conhecidos lhe paravam nas ruas querendo respostas que os convencessem de que tudo ia bem com ela. Ignoravam que resposta nenhuma ela tinha e o máximo que saía eram umas frases atropeladas que eram decodificadas como um "tudo bem", mas que ela mesma admitia que fosse "e daí?". Ensimesmada com tamanho infortúnio resolveu entrar na primeira sala de cinema que encontrasse pela frente, na ânsia de vislumbrar no infortúnio dos outros conforto para sua inquietude. A película lhe desdizia mais coisas que todos os desmandos ouvidos até então. Insatisfeita com sua decisão, resolveu atentar para a atuação dos atores. Isso não lhe tomou mais que duas horas de seu precioso tempo. Algumas lágrimas rolaram pela sua face límpida, perfazendo um percurso que terminara ali no canto dos lábios. Não soube dizer se eram pela história que assistia na tela ou pelo que vivenciara desde que saíra de casa..."
domingo, 12 de outubro de 2008
O marinheiro perdido
Hoje é também dia do mar. Um bom momento para publicar este conto tirado de um antigo blog que foi para sempre para o arquivo morto.
Fazia cem dias que o marinheiro extraviado vagava pela praia, fazendo nas tardes o mesmo percurso das manhãs e falando sempre com as mesmas pessoas que jamais entendiam sua língua. Perdera a partida do cargueiro de uma pátria que não era a sua, que de retorno aos seus portos o deixara para trás, perdido entre garrafas, entre companhias ignóbeis e as lembranças da mulher amada. Em troca do trabalho nos guindastes, davam-lhe pão e cachaça. Dos bêbados tornou-se amigo leal e era visto nas madrugadas chorando abraçado às putas que se trocavam pelas mais vulgares ervas. Eram dele os gritos que se ouviam na quase manhã, quando antes que o sol surgisse ele clamava que o dia lhe trouxesse de volta o navio que na verdade só viria no ano seguinte. Fazia cem dias que o marinheiro extraviado vagava inútil entre as carcaças dos navios quando se ouviu seu grito pela última vez, no instante em que se jogou ao mar do alto da mais alta rocha, com a fotografia de uma mulher russa tão linda quanto o sol da meia-noite. Quem ouviu o grito pensou que ele se revoltava ainda uma vez contra a própria sorte, e nunca soube que ele dizia eu te amo na língua de sua Narkissa.
quinta-feira, 9 de outubro de 2008
Um conto sem título, um pouco Breve.
.
Ele não tinha medo de nada. Das noites de janela aberta, da escuridão, dos tropeços nas pedras disfarçadas de sombra. Não importava a travessia, o cansaço, o açoite da chuva, a madrugada. Tinha no peito a garra de um Ícaro, podia viver nas regiões rebeldes, enfrentar o santo guerreiro e o dragão da maldade. Era sozinho e combatia com febre as machadadas de Brucutu. Multiplicava-se por si mesmo, podia descer às profundezas abissais do inferno, percorrer a extensão da muralha da China, derrubar maremotos, samurais, o dragão celestial que devora o sol. E se encontrasse a morte no caos ou no silêncio do Cosmos... encontraria. Mas nada podia contra Eles, que possuíam a arma para abater sorrisos. Para que Eles soubessem disso levou apenas o tempo de seu puro olhar ultrajando a covardia. A primeira coisa que Eles mataram então foi o outono, para que não mais sorrissem seus pés sobre as folhas envolvidas em húmus e povoadas de formigas. Mataram os crepúsculos, de modo que o sol, paralisado no céu, impediu a chegada da noite, e das constelações, e do sorriso inebriado de estrelas. Tomaram para si as suas melhores lembranças, para que nunca mais Ele adormecesse sorrindo pelo que passou. Mataram tudo para o que fosse possível sorrir e mataram um pouco mais. E como ainda assim Ele os olhasse nos olhos e sorrisse a esperança de que um dia compreendessem, Eles mataram a si mesmos.
segunda-feira, 6 de outubro de 2008
Enfim!
Como neste domingo eu vestisse uma blusa cuja estampa dizia Enfim, várias pessoas me perguntaram: Enfim o que? Sei lá, não pensei nisso ao comprar a blusa. Mas foi interessante o número de possibilidades que surgiram a partir da palavra. Enfins existenciais, políticos, sexuais, todo mundo queria fazer piada. Mas desde sábado os meus enfins são os seguintes:
1. Enfim assisti ao filme O Amor nos Tempos do Cólera. Puxa, que coisa, nem sei direito o que dizer... Acho que o G. G. Márquez não gostou. Ele nunca gosta, por isso sempre resiste a permitir que filmem seus livros. A atriz Giovanna Mezzogiorno, que interpretou Fermina Daza, ficou com a mesma expressão pregada na face durante as duas horas de filme. E mesmo aos 72 anos tinha a boca dos seus 18.
2. Enfim está provado que Javier Barden (Florentino Ariza) é um ator formidável, que Fernanda Montenegro (Transito Ariza) é uma deusa e que Benjamin Bratt (Juvenal Urbino) é a coisa mais sedutora do cinema universal atual.
3. Enfim um filme em que o diretor (o britânico Michael Newell) conserva falas originais das personagens do livro, embora nem assim consiga passar perto da emoção que a literatura provoca.
4. Enfim... derramei copiosas lágrimas na frente do vídeo, porque a história foi bem contada e emociona, ainda que de maneira óbvia. A fotografia é belíssima, a Shakira cantando toca fundo...
5. E enfim, não sou crítica nem comentarista de cinema pra dizer mais que isso. No geral, gostei do filme.
segunda-feira, 29 de setembro de 2008
sexta-feira, 26 de setembro de 2008
Foto e legenda 2
quinta-feira, 25 de setembro de 2008
Primeiro Maiakovski escreveu...
“Na primeira noite, eles se aproximam e colhem uma flor de nosso jardim
E não dizemos nada.
Na segunda noite, já não se escondem, pisam as flores, matam nosso cão
E não dizemos nada.
Até que um dia, o mais frágil deles, entra sozinho em nossa casa,
rouba-nos a lua, e, conhecendo nosso medo, arranca-nos a voz da garganta
E porque não dissemos nada, já não podemos dizer nada.”
Depois dele, veio Bertolt Brecht e escreveu...
"Primeiro levaram os negros
Mas não me importei com isso
Eu não era negro
Em seguida levaram alguns operários
Mas não me importei com isso
Eu também não era operário
Depois prenderam os miseráveis
Mas não me importei com isso
Porque eu não sou miserável
Depois agarraram uns desempregados
Mas como tenho meu emprego
Também não me importei
Agora estão me levando
Mas já é tarde.
Como eu não me importei com ninguém
Ninguém se importa comigo."
E eu, que não escrevo nada em verso, às vezes nem em prosa, digo apenas...
“Na primeira noite, eles se aproximam e colhem uma flor de nosso jardim
E não dizemos nada.
Na segunda noite, já não se escondem, pisam as flores, matam nosso cão
E não dizemos nada.
Até que um dia, o mais frágil deles, entra sozinho em nossa casa,
rouba-nos a lua, e, conhecendo nosso medo, arranca-nos a voz da garganta
E porque não dissemos nada, já não podemos dizer nada.”
Depois dele, veio Bertolt Brecht e escreveu...
"Primeiro levaram os negros
Mas não me importei com isso
Eu não era negro
Em seguida levaram alguns operários
Mas não me importei com isso
Eu também não era operário
Depois prenderam os miseráveis
Mas não me importei com isso
Porque eu não sou miserável
Depois agarraram uns desempregados
Mas como tenho meu emprego
Também não me importei
Agora estão me levando
Mas já é tarde.
Como eu não me importei com ninguém
Ninguém se importa comigo."
E eu, que não escrevo nada em verso, às vezes nem em prosa, digo apenas...
Formidável!
.
quarta-feira, 17 de setembro de 2008
Papillon

Série Breves Contos
Ilustrado com tela de René Magritte
Tirou dos pés os sapatos e tocou a transpor o campo indivisível de florezinhas púrpuras na beira de um rio azul da França, a alma insustentável dentro do corpinho impúbere, do vestido bordado em borboletas sobre o fundo branco. Desejou ser pássaro, vento, beija-flor safira que percorresse o campo numa velocidade vertiginosa e a leveza de um coração de quatro gramas, ao encontro da mansa chuva de pedras preciosas que havia depois do arco-íris. Com seu olhar de beija-flor em vôo, viu os roedores que subiam árvores à sua passagem, pares de asas surreais sumindo no horizonte como miragens, viu as flores novas brotando entre as antigas, e ao abaixar-se para apanhá-las, viu os próprios seios nascidos na última manhã. Mas não viu o bando de borboletas que a perseguia desde a partida, voejando entre as violetas o seu tempo de reprodução, a sua fome de flor e seu errante destino. Transpunha o último arbusto, pensando em retomar a viagem ao arco-íris na próxima manhã, e mal percebeu – beija-flor projetando o vôo em três direções – a revoada das borboletas que alçaram vôo de seu vestido para juntar-se à onda incólume de borboletas que viajava rumo ao fim das fronteiras. De vestido agora branco, a alma insustentável e o coração de beija-flor em repouso, tocou a transpor de volta o campo indivisível de florezinhas púrpuras, à beira de um rio azul da França.
.
segunda-feira, 15 de setembro de 2008
O louco e a primavera
Da série Breves Contos
Ilustrado com tela de René Magritte

Ilustrado com tela de René Magritte

O mendigo itinerante que naquela manhã morava na praça da Bandeira adormeceu no frescor do amontoado de folhas secas sob a amendoeira, e sonhou que de sua cabeça e dos vãos dos dedos de seus pés e de suas mãos brotavam flores. Acordou em pleno outono, com o sorriso cheio de brisas e uns olhos transbordantes de primavera, despetalando os próprios cabelos como se fossem azaléias.
.
quinta-feira, 11 de setembro de 2008
Os deuses

Da série Breves Contos.
Ilustrado por tela de René Magritte.
Depois de nove dias e nove noites pendurado de cabeça para baixo na árvore do conhecimento, Odin, rei dos deuses, estava preparado para comandar o exército de guerreiros mortos em batalha, para proteger os magos, os andarilhos e os que nascem na quarta-feira. Descansava em seu trono, de onde podia avistar o mundo todo, junto aos seus dois corvos, seus dois lobos e ao seu incrível cavalo de oito patas, todos se deleitando à visão das doze virgens aladas que recolhiam os mortos dos campos, quando a deusa Iduna, guardiã do pomar sagrado, chegou derramando sorrisos e o convidou para comer cogumelos alucinógenos atrás das moitas de amoras selvagens do pomar. O deus da morte e da sabedoria olhou no fundo dos olhos de Iduna, e sem pensar por mais de três segundos, seguiu atrás de seus passos, pensando em quanto teria sido melhor ter passado os nove dias e as nove noites pendurado àquela mulher. De cabeça para baixo.
Depois de nove dias e nove noites pendurado de cabeça para baixo na árvore do conhecimento, Odin, rei dos deuses, estava preparado para comandar o exército de guerreiros mortos em batalha, para proteger os magos, os andarilhos e os que nascem na quarta-feira. Descansava em seu trono, de onde podia avistar o mundo todo, junto aos seus dois corvos, seus dois lobos e ao seu incrível cavalo de oito patas, todos se deleitando à visão das doze virgens aladas que recolhiam os mortos dos campos, quando a deusa Iduna, guardiã do pomar sagrado, chegou derramando sorrisos e o convidou para comer cogumelos alucinógenos atrás das moitas de amoras selvagens do pomar. O deus da morte e da sabedoria olhou no fundo dos olhos de Iduna, e sem pensar por mais de três segundos, seguiu atrás de seus passos, pensando em quanto teria sido melhor ter passado os nove dias e as nove noites pendurado àquela mulher. De cabeça para baixo.
.
segunda-feira, 8 de setembro de 2008
Canção da Primavera
Para Margarida C, ainda que não seja primavera, nem aqui, nem em Lisboa. Mas é setembro...
Primavera cruza o rio
Cruza o sonho que tu sonhas.
Na cidade adormecida
Primavera vem chegando.
Catavento enloqueceu,
Ficou girando, girando.
Em torno do catavento
Dancemos todos em bando.
Dancemos todos, dancemos,
Amadas, Mortos, Amigos,
Dancemos todos até
Não mais saber-se o motivo...
Até que as paineiras tenham
Por sobre os muros florido!
Mário Quintana
Primavera cruza o rio
Cruza o sonho que tu sonhas.
Na cidade adormecida
Primavera vem chegando.
Catavento enloqueceu,
Ficou girando, girando.
Em torno do catavento
Dancemos todos em bando.
Dancemos todos, dancemos,
Amadas, Mortos, Amigos,
Dancemos todos até
Não mais saber-se o motivo...
Até que as paineiras tenham
Por sobre os muros florido!
Mário Quintana
quarta-feira, 27 de agosto de 2008
A hora do riso
Fazia tempo que eu não via televisão. Ver, via, o aparelho desligado, empoeirado, relegado ao silêncio cósmico dos objetos abandonados... Fazia tempo que eu não assistia à televisão, mas o horário reservado à propaganda eleitoral me instigou a ligar o aparelho e me deitar na cama munida de um saquinho de jujuba. Não, não foi necessário que os corajosos candidatos começassem a aparecer para a minha diversão dar partida. Vi pela primeira vez outra campanha que está no ar, a da Justiça Eleitoral, e não tive a menor dúvida quanto ao seu objetivo. Esclarecer? Conscientizar? Nada! Eles querem fazer graça. Desde os dias em que eu tinha dores no esôfago porque engolia ar de tanto rir na frente dos episódios de Friends que eu não ria tanto. Da abelha no ouvido, do choro ao toque do celular, mas de uma das peças em particular: a do homem que passa quatro anos sapateando toda vez que fica nervoso. Quase engasguei com uma jujuba de uva. A Justiça Eleitoral me conquistou, e eu sei que isso era tudo o que ela queria. Juro que dessa vez vou votar direito. Embora na esquerda...
sábado, 23 de agosto de 2008
Sobre o Velho Graça
Uma das minhas grandes admirações se chama Graciliano Ramos. Li Infância, Insônia, Vidas Secas, São Bernardo e Memórias do Cárcere. E depois de Angústia, passei muito tempo sem querer ler mais nada. Achava que nenhuma literatura além daquela valia a pena. Queria morrer. Queria nunca mais escrever. E ao mesmo tempo queria afundar nas páginas do livro e misturar meu sangue à literatura tão perfeita. Os solilóquios íntimos de Luis da Silva tiveram efeito catastrófico sobre minha existência. A crise passou, mas minha admiração pelo Velho Graça continua intocada. Tenho em casa uma brochura da Coleção Brasiliana, da Editora Duetto, com os “Relatórios do Prefeito de Palmeira dos Índios”, uma verdadeira raridade, com textos que marcaram o início da carreira literária do escritor. Sim... é preciso ser muito bom pra conseguir encantar com o texto de um relatório oficial! Graciliano foi prefeito de Palmeira dos Índios, em Alagoas, no final da década de 1920. Durante seu mandato, enviou ao governador do Estado dois relatórios de prestação de contas, escritos da maneira mais inusitada para um texto oficial. Entenda bem: até como prefeito Graciliano foi um formidável escritor! Fragmentos do relatório:
O início da administração
“Havia em Palmeira inúmeros prefeitos: os cobradores de impostos, o Comandante do Destacamento, os soldados, outros que desejassem administrar. (...) Os fiscais, esses, resolviam questões de polícia e advogavam. Para que semelhante anomalia desaparecesse, lutei com tenacidade e encontrei obstáculos dentro da prefeitura e fora dela – dentro, uma resistência mole, suave, de algodão em rama; fora, uma campanha sorna, oblíqua, carregada de bílis. Pensavam uns que tudo ia bem nas mãos de Nosso Senhor, que administra melhor do que todos nós; outros me davam três meses para levar um tiro.”
Iluminação pública
“A Prefeitura foi intrujada quando, em 1920, aqui se firmou um contrato para fornecimento de luz. Apesar de ser um negócio referente à claridade, julgo que assinaram aquilo às escuras. É um bluff. Pagamos até a luz que a lua nos dá.”
Telegramas
“De ordinário vai para eles dinheiro considerável. (...) Porque se derrubou a Bastilha – um telegrama; porque se deitou uma pedra na rua – um telegrama; porque o deputado F. esticou a canela – um telegrama. Dispêndio inútil. Toda a gente sabe que isto por aqui vai bem, que o deputado morreu, que nós choramos e que em 1559 D. Pero Sardinha foi comido pelos caetés.”
Conclusão
“(...) Não favoreci ninguém. Devo ter cometido numerosos disparates. Todos os meus erros, porém, foram da inteligência, que é fraca. Perdi vários amigos, ou indivíduos que possam ter semelhante nome. Não me fizeram falta. Há descontentamento. Se a minha estada na Prefeitura por estes dois anos dependesse de um plebiscito, talvez eu não obtivesse 10 votos. Paz e prosperidade.”
“Palmeira dos Índios, 10 de janeiro de 1929.”
segunda-feira, 18 de agosto de 2008
Passagem pela polícia
Mais uma pequena crônica sobre as meninas reais...
Pétala achou lindo ser presa. Foi recolhida por uma viatura da Polícia Militar na madrugada de uma terça-feira, quando dava inocentes voltinhas de carro ao redor de uma praça central, junto com quatro amigos adolescentes. Três meninos e uma menina de pijama, tirada da cama para passear. Só o motorista, Flavinho, era maior de idade, mas foi recolhido também porque transportava os menores, com a agravante de um estar de pijama. Todos foram recolhidos. Até o carro, com a documentação vencida. Pétala, Billy, Rodrigo e a do pijama numa moderna perua da Wolkswagen. Flavinho num camburão enferrujado. “Mas o que nós fizemos?” era a pergunta geral. E de cassetetes em punhos, os tiras os mandaram calar a boca e passar pra dentro da viatura. Direto para a Vara da Infância e Adolescência... ou Juventude, não sei. A caminho, descobriram, pela conversa entre os tiras, que tinham passado quatro vezes pela viatura parada, de plantão na praça, rindo de modo desvairado, como se fossem adolescentes. Despertaram suspeitas. “Suspeita de quê?” atreveu-se Pétala para o policial do volante. “De que são menores, ora...”. “Mas nós somos”, disse uma outra voz quase sumida, de dentro do pijama. Do fundo do camburão, pelo celular, Flavinho chamou o pai advogado. Que não se sabe por quais forças chegou à Vara da Infância antes das viaturas. Tudo esclarecido. Descobriu-se lá, que todos, menos Flavinho, eram menores dando umas voltinhas pela praça de madrugada... Só fiquei sabendo no dia seguinte, para a sorte de todos. Se dependesse de mim, teriam dormido no xadrez. O carro preso era o meu. Pétala passou a semana narrando a crônica policial, primeiro pra mim, depois para os amigos. Pessoalmente, pelo telefone, pela internet. E toda vez que passava por mim, ainda me gozava: “Tiras, mãe? Xadrez? Tu é muito sem noção...”
quarta-feira, 13 de agosto de 2008
Interrompendo a série...
Ando pensando seriamente em me mudar do Blogspot, por não ter descoberto ainda a difícil arte de instalar neste blog um contador de visitas. Não, eu não tenho a ilusão de que o Ave, Palavra! seja um endereço onde o leitor chega diariamente resfolegante de pressa para ler as eventuais bobagens que escrevo. Mas gostaria de saber se pelo menos sou visitada uma vez por dia! Meus três leitores, esses eu sei que aparecem por aqui de vez em quando, que queimam pestanas em torno do meu pobre latim, comem uns bolinhos de chuva, e me deixam gentis comentários. Não sei se há outros. Andei pensando também em trocar o nome do blog para algo mais atrativo, do tipo “Nós na Balada”, “Eu sou o cara”, “Muvuca”, porque conforme o último Censo, há muito mais gente que gosta de bandalheira do que de literatura. Mas a carga de pobreza seria pesada demais para as minhas costelas. E tudo para atrair leitores que não são nem de longe os que eu desejo ter... Depois, o que eu escreveria num blog com um nome desses em seu registro de nascimento? Não ando em baladas, que escritor que se preza, hoje e desde a Idade Média, gosta mesmo é de um bom boteco pé sujo – que obviamente é mais antigo que isso – apesar do exemplo de Vinicius de Moraes, que freqüentava as rodas acima das camadas de turbulência e só bebia uísque. Mas Vinicius podia. Era o cara. Já nós, do Ave, Palavra!, sentamo-nos no Empório do Índio e mastigamos as falanges pensando em estratégias miraculosas para atrair leitores... Ah, o blog poderia também se chamar “Diário Íntimo, Ilegal e Imoral”, e eu ia ter que rebolar pra inventar histórias que proporcionassem intenso prazer aos punhados de leitores. Paciência. Vamos ficando no Ave, Palavra!, sem saber quantos têm vindo.
domingo, 10 de agosto de 2008
Meninas reais
Esta pequena série de crônicas que começo a publicar hoje foi escrita há algum tempo, quando eu tentava escrever textos menos líricos, menos introspectivos – pra não dizer menos sentimentais – mas que acabaram resultando em algo que acabei considerando difícil publicar. Mudei de idéia. São textos sem mais compromisso que o de contar pequenas irrelevâncias diárias. Somente este primeiro foi publicado um dia, num blog cujo nome até esqueci, e foi lido, sem dúvida, pelos meus inumeráveis leitores de toda a pátria amada Brasil e alguns parentes da Cracóvia... A série, sem nome, é baseada em meninas reais.
Café e rock’n roll
Paula ouve rock às seis e meia da manhã, enquanto se apronta para a escola. Eu, enquanto faço o café, vou desmantelando a cozinha, procurando o açúcar que escondi das formigas. “Meu Deus, que música é essa, a uma hora dessas?”. Paula grita no banheiro, em língua indecifrável, acompanhando a melodia. “Essa guitarra não me é estranha...”, penso, e enfim o açúcar, na gaveta dos legumes, na geladeira. Cheio de formigas. A pirada sai do banheiro enrolada em três toalhas, enquanto os pés molhados vão deixando um rastro aquático até o quarto. “Por que ela não aprende a se enxugar antes de sair do banheiro?” Dou-me conta de que tenho me perguntado o mesmo todas as manhãs dos últimos dez anos – pelo menos – e tenho certeza de que vou continuar me perguntando. “Ela ainda diz que a maluca sou eu”. No quarto, a garota rock´n roll aumenta o som. “Essa música vai me enlouquecer”, digo pra mim em voz alta, sapecando os dedos na tampa do bule. Café pronto. Escondo o açúcar em lugar mais seguro. “Na idade dela, eu ouvia caras bons. Santana, Peter Frampton, Pink Floyd...”. Uniformizada, a maluca vem para a cozinha tomar café. E o som mandando fogo nas paredes da casa. “Minha filha, meus ouvidos não têm mais paciência pra isso... quem são esses caras que você ouve?”. E ela, com a cara mais impávida e a boca cheia de pão torrado: “Pink Floyd, mãe”.
Café e rock’n roll
Paula ouve rock às seis e meia da manhã, enquanto se apronta para a escola. Eu, enquanto faço o café, vou desmantelando a cozinha, procurando o açúcar que escondi das formigas. “Meu Deus, que música é essa, a uma hora dessas?”. Paula grita no banheiro, em língua indecifrável, acompanhando a melodia. “Essa guitarra não me é estranha...”, penso, e enfim o açúcar, na gaveta dos legumes, na geladeira. Cheio de formigas. A pirada sai do banheiro enrolada em três toalhas, enquanto os pés molhados vão deixando um rastro aquático até o quarto. “Por que ela não aprende a se enxugar antes de sair do banheiro?” Dou-me conta de que tenho me perguntado o mesmo todas as manhãs dos últimos dez anos – pelo menos – e tenho certeza de que vou continuar me perguntando. “Ela ainda diz que a maluca sou eu”. No quarto, a garota rock´n roll aumenta o som. “Essa música vai me enlouquecer”, digo pra mim em voz alta, sapecando os dedos na tampa do bule. Café pronto. Escondo o açúcar em lugar mais seguro. “Na idade dela, eu ouvia caras bons. Santana, Peter Frampton, Pink Floyd...”. Uniformizada, a maluca vem para a cozinha tomar café. E o som mandando fogo nas paredes da casa. “Minha filha, meus ouvidos não têm mais paciência pra isso... quem são esses caras que você ouve?”. E ela, com a cara mais impávida e a boca cheia de pão torrado: “Pink Floyd, mãe”.
quarta-feira, 6 de agosto de 2008
Autobiografia
ou Minha vida dá uma crônica!
Nasci no ano de 1415 do calendário Armênio, e o que me consola é que no Rúnico já era 2216. Só agora compreendo que o Gregoriano é o pacificador dos calendários. Era o ano do cavalo no horóscopo chinês e o ano internacional do arroz. Mas isto não influenciou em nada minha vida, que podia ter sido menos pálida se eu tivesse me deixado governar pelo fogo, pelo jasmim, pelo saxofone e pelo número 5. Bem, talvez o início da guerra do Vietnã naquele ano tenha suscitado em meu espírito um profundo desejo de paz, e a fundação da Igreja de Satã originado a impressão de um risco horizontal no meu olho esquerdo. Não sei.
A astrologia reversa diz que nasci Touro com a personalidade de Peixes. Paciência. O mundo andava muito louco em 1966... Manuel Bandeira fazia oitenta anos, ensinando ao mundo o Itinerário de Pasárgada, para onde finalmente aprendi a ir, mais de 30 anos depois. Nada mais. Apenas nascemos: eu, Zeca Baleiro e o terrorista iraquiano Abu Musab al-Zarqawi, enquanto a boca ávida de Bob Dylan procurava a gaita, nalgum lugar.
Em 1970, quando o Pelé voltou do México abraçado à taça Jules Rimet, eu ainda não tinha televisão em casa. Ainda não havia me dado conta de minha própria existência. Mas se tivesse televisão, certamente colocaria no canal do Capitão Aza. Um pouco depois o Etna entrou em erupção, a juventude entrou em erupção porque Jim Morrison se foi, as crianças entraram em erupção pelo maior parque de diversões do mundo, o Walt Disney World. Mas na época não fiquei sabendo de nada. Tinha cinco anos e talvez estivesse pensando no Nobel de Literatura do Pablo Neruda.
Passei os anos de 1972, 73 e 74 me guardando dos invernos implacáveis dos confins do Paraná. Nos dias hibernais, meu companheiro fiel era o Gato Felix, que me ensinou a compreender as primeiras frases escritas. De vez em quando a Vila Sésamo me despertava da letargia. Mas o ano de 1975 chegou e tudo o que me rodeava foi salvo dos insípidos anos de geada: descobri que existiam livros, e foi o princípio de um amor eterno, embora naquele tempo eu ainda saltasse de cima da cerca com uma fronha amarrada nas costas. Pensava que era o Flash Gordon.
1980 foi o primeiro ano do resto de minha vida porque topei de frente com o amor numa tarde de maio em que o sol de outono estendia caminhos amarelos sob as paineiras. Todos os amores que nasceram naquele ano foram embalados pela Imagine do beatle assassinado, pelos sonetos do Vinicius morto. O meu não foi diferente.
De lá pra cá dei mais 26 voltas ao redor do sol, plantando muito pé de flor que deu capim, capim que deu flor, e nada me desviou do caminho da circunspeção... nem a passagem do Halley, a queda do muro de Berlim, a carona que pegaram Drummond, Chico Mendes e Rubem Braga no relâmpago do adeus. Mas estive atenta ao mundo, vendo muita coisa que não queria ver e outras tantas que não pretendo morrer sem rever, como a chuva nas ruas esmigalhadas de solidão da cidade distante onde nasci.
Paro aqui de enumerar os anos porque daí pra frente “os céus se misturaram com a terra e o espírito de Deus voltou a se mover sobre a face das águas”, embora não tenha mencionado relevâncias como as palavras em polonês que aprendi aos seis anos, os pássaros de papel na tarde de Curitiba, a música para alegrar o dia que aprendi com uma índia Karipuna, o encontro com o poeta vestido de branco que canta ainda que faça escuro...
Já é 1457 no calendário Armênio, 2258 no Rúnico, e o horóscopo continua me prometendo um pouco de ternura depois da lua cheia. Mas tudo está bem, enquanto vou achando que sou zen. Amanheço abraçada ao tempo, construindo as manhãs com mais esperança do que raios de sol. Entardeço enumerando sonhos na margem do meu rio, derramando uma a uma as páginas do livro de areia de Borges. Anoiteço dançando entre os cristais do sentimento das gentes, e adormeço no cheiro dos cravos capturados nos quintais da infância que continua a arder no sonho. No peito trago a vontade insondável de voltar a ter cinco anos, e não saber de nada. No espelho vejo o olhar sereno de alguém que gosto. Meu velho gato Stefen Fry anda por perto, vendo passarem os anos e os temporais.
A astrologia reversa diz que nasci Touro com a personalidade de Peixes. Paciência. O mundo andava muito louco em 1966... Manuel Bandeira fazia oitenta anos, ensinando ao mundo o Itinerário de Pasárgada, para onde finalmente aprendi a ir, mais de 30 anos depois. Nada mais. Apenas nascemos: eu, Zeca Baleiro e o terrorista iraquiano Abu Musab al-Zarqawi, enquanto a boca ávida de Bob Dylan procurava a gaita, nalgum lugar.
Em 1970, quando o Pelé voltou do México abraçado à taça Jules Rimet, eu ainda não tinha televisão em casa. Ainda não havia me dado conta de minha própria existência. Mas se tivesse televisão, certamente colocaria no canal do Capitão Aza. Um pouco depois o Etna entrou em erupção, a juventude entrou em erupção porque Jim Morrison se foi, as crianças entraram em erupção pelo maior parque de diversões do mundo, o Walt Disney World. Mas na época não fiquei sabendo de nada. Tinha cinco anos e talvez estivesse pensando no Nobel de Literatura do Pablo Neruda.
Passei os anos de 1972, 73 e 74 me guardando dos invernos implacáveis dos confins do Paraná. Nos dias hibernais, meu companheiro fiel era o Gato Felix, que me ensinou a compreender as primeiras frases escritas. De vez em quando a Vila Sésamo me despertava da letargia. Mas o ano de 1975 chegou e tudo o que me rodeava foi salvo dos insípidos anos de geada: descobri que existiam livros, e foi o princípio de um amor eterno, embora naquele tempo eu ainda saltasse de cima da cerca com uma fronha amarrada nas costas. Pensava que era o Flash Gordon.
1980 foi o primeiro ano do resto de minha vida porque topei de frente com o amor numa tarde de maio em que o sol de outono estendia caminhos amarelos sob as paineiras. Todos os amores que nasceram naquele ano foram embalados pela Imagine do beatle assassinado, pelos sonetos do Vinicius morto. O meu não foi diferente.
De lá pra cá dei mais 26 voltas ao redor do sol, plantando muito pé de flor que deu capim, capim que deu flor, e nada me desviou do caminho da circunspeção... nem a passagem do Halley, a queda do muro de Berlim, a carona que pegaram Drummond, Chico Mendes e Rubem Braga no relâmpago do adeus. Mas estive atenta ao mundo, vendo muita coisa que não queria ver e outras tantas que não pretendo morrer sem rever, como a chuva nas ruas esmigalhadas de solidão da cidade distante onde nasci.
Paro aqui de enumerar os anos porque daí pra frente “os céus se misturaram com a terra e o espírito de Deus voltou a se mover sobre a face das águas”, embora não tenha mencionado relevâncias como as palavras em polonês que aprendi aos seis anos, os pássaros de papel na tarde de Curitiba, a música para alegrar o dia que aprendi com uma índia Karipuna, o encontro com o poeta vestido de branco que canta ainda que faça escuro...
Já é 1457 no calendário Armênio, 2258 no Rúnico, e o horóscopo continua me prometendo um pouco de ternura depois da lua cheia. Mas tudo está bem, enquanto vou achando que sou zen. Amanheço abraçada ao tempo, construindo as manhãs com mais esperança do que raios de sol. Entardeço enumerando sonhos na margem do meu rio, derramando uma a uma as páginas do livro de areia de Borges. Anoiteço dançando entre os cristais do sentimento das gentes, e adormeço no cheiro dos cravos capturados nos quintais da infância que continua a arder no sonho. No peito trago a vontade insondável de voltar a ter cinco anos, e não saber de nada. No espelho vejo o olhar sereno de alguém que gosto. Meu velho gato Stefen Fry anda por perto, vendo passarem os anos e os temporais.
quarta-feira, 7 de maio de 2008
Nalgum lugar
Poema de E. E. Cummings- um dos inventores da poesia moderna - musicado por Zeca Baleiro, para ser lido em voz alta ou para ser ouvido a todo volume, a qualquer hora do dia, seja qual for o estado de espírito, disposição, humor, endereço...
Nalgum lugar em que eu nunca estive
alegremente além de qualquer experiência
teus olhos têm o teu silêncio.
No teu gesto mais frágil
há coisas que me encerram
o que eu não ouso tocar
porque estão demasiado perto.
Teu mais ligeiro olhar
facilmente me descerra
embora eu tenha me fechado como dedos
nalgum lugar.
Me abre sempre pétala por pétala
como a primavera abre
tocando sutilmente
misteriosamente
sua primeira rosa.
Ou se quiseres me ver fechado
eu e minha vida nos fecharemos
belamente, de repente
assim como o coração desta flor imagina
a neve cuidadosamente descendo em toda parte.
Nada que eu possa perceber deste universo iguala
o poder de tua intensa fragilidade
cuja textura compele-me com a cor
de teus continentes
restituindo a morte, o sempre
cada vez que respiras.
Não sei dizer o que há em ti que fecha e abre
só uma parte de mim compreende
que a voz dos teus olhos
é mais profunda que todas as rosas.
Ninguém, nem mesmo a chuva, tem mãos tão pequenas.
Nalgum lugar em que eu nunca estive
alegremente além de qualquer experiência
teus olhos têm o teu silêncio.
No teu gesto mais frágil
há coisas que me encerram
o que eu não ouso tocar
porque estão demasiado perto.
Teu mais ligeiro olhar
facilmente me descerra
embora eu tenha me fechado como dedos
nalgum lugar.
Me abre sempre pétala por pétala
como a primavera abre
tocando sutilmente
misteriosamente
sua primeira rosa.
Ou se quiseres me ver fechado
eu e minha vida nos fecharemos
belamente, de repente
assim como o coração desta flor imagina
a neve cuidadosamente descendo em toda parte.
Nada que eu possa perceber deste universo iguala
o poder de tua intensa fragilidade
cuja textura compele-me com a cor
de teus continentes
restituindo a morte, o sempre
cada vez que respiras.
Não sei dizer o que há em ti que fecha e abre
só uma parte de mim compreende
que a voz dos teus olhos
é mais profunda que todas as rosas.
Ninguém, nem mesmo a chuva, tem mãos tão pequenas.
Assinar:
Postagens (Atom)



