Tenho uma necessidade estranha de dizer milhares de palavras todos os dias. Muitas mais que as sete mil da média das mulheres. Não posso suportar meu próprio silêncio. Por isso fui trabalhar no rádio. Tenho de manhã um programa de leitura de cartas de amor, de ódio e de problemas sexuais, um de música de tarde e outro de esculhambação de noite, que é o que eu mais gosto, porque dá pra falar o que quiser. Não tem censura nem hora pra acabar. Eu aproveito pra dizer que o Che Guevara era só um terrorista, que queimar um incenso é a mesma coisa que fumar três cigarros, que o ponto g é mais pra fora do que se pensa, que a chuva de meteoros do céu da Bulgária é ficção, que o livro A Boa Terra ensina como se fumar ópio, que o Elvis está pra morrer pela terceira vez... E também faço umas perguntas para os ouvintes, tipo: eram os deuses astronautas? Eles respondem as coisas mais loucas, que eu leio no ar. Hoje vou encerrar o programa da noite com a pergunta para um ouvinte que adora Tracy Chapman, que me ouve a noite inteira e só falta andar de dia com o radinho de pilha no ombro: Baby, can I hold you tonight?
domingo, 9 de novembro de 2008
quinta-feira, 30 de outubro de 2008
Marie
Série: PANDORAIlustrações: telas de Modigliani
Marie colheu a doença da caixa de Pandora...
Ferdinand voltou a freqüentar minha casa, como nos velhos tempos, seu espectro solitário no quarto dos livros, o lugar escolhido, antes e depois da morte. Na primeira vez em que o vi, muito depois de sua partida, espantou-se de que o tratasse como se o tivesse visto há pouco. “E os fantasmas contam o tempo?”, perguntei-lhe, e ele me respondeu que sim, que o tempo é muitas vezes mais longo se a morte é triste. “Escolhesse uma morte melhor”, desafiei-o, e ele sussurrou que sua morte era triste porque havia escolhido morrer. Sempre que chego, encontro-o no quarto dos livros e conversamos sobre as coisas que temos visto. Eu lhe conto dos poemas de amor que escrevo, como um grito de rebelião contra o nada, dos sonhos em que os ocasos se fazem a qualquer momento, com a mágica simples do sopro de uma palavra doce. Ele me conta de quantos têm chegado por lá por vontade própria, tangendo esses mesmos sonhos. “Ferdinand, você está muito mais velho do que quando se foi”, disse-lhe um dia. “Na morte também se envelhece, Marie, e depois vem outra morte”. Eu acho graça de seu apego. Matou-se porque quis. Embaraçou-me em solidão e também ficou sozinho. Ferdinand diz que logo vou morrer também, do mesmo mal: a crença demasiada na vida. Eu não sabia, mas acredito no que ele diz.
segunda-feira, 27 de outubro de 2008
Luna
Série: PANDORA Ilustrações: telas de Modigliani
.
Luna colheu a mentira da caixa de Pandora...
.
Passei três anos perdendo tempo na faculdade de Ciências Sociais. A única utilidade foi descobrir que Deus não existe e que a humanidade emburrece mais a cada solstício. Joguei uma mochila nas costas e andei pelo México e pela Inglaterra, procurando o sentido da existência. Los chicos me ensinaram um pouco. Dos ingleses não saiu nem um sorriso. Por aí disseram que eu estava passando uma temporada no Daime e que voltei inventando voltas pelo mundo. Então... voltei sem dinheiro, sem homem e sem ideologia, decidida a morar na rua, doesse o quanto doesse. Em algum lugar o sentido tinha que estar. Passei oito meses dormindo no papelão, comendo o pão sovado pelo diabo, sem lugar nem na mesa do inferno. Nos primeiros dois meses perdi seis quilos, dois dentes e o livro de poemas do Baudelaire que ganhei de um mexicano pra quem dei uma coisa. Os do contra dizem que deixei o livro, o peso e os dentes na cama de um figurão que tem fama de violento. Depois me acostumei a passar fome, a ficar dias sem tomar banho, desenvolvi até um pouco de afeto pelo beco onde esticava o papelão. Ou decifrava as ruas, ou me suicidava. Foi quando encontrei essa galera punk, me encontrei comigo mesma, punk na minha origem, o punk niilista, um pouco encardido, mas criativo, dissidente de todas as influências perversas. Não precisei mais procurar o sentido. Ele não existe. Dá uma olhada aí no meu zine e diz o que tu achas da minha filosofia. Mas me paga outra caipirinha que eu te conto mais uma história.
.
quarta-feira, 22 de outubro de 2008
Olga
Série: PANDORA Ilustrações: telas de ModiglianiPandora é a mulher mitológica criada por Zeus para castigar os homens pela ousadia de Prometeu em roubar dos céus o segredo do fogo. Zeus deu a Pandora uma caixa, cujo conteúdo eram os males que passariam a atingir a humanidade: a velhice, o trabalho, a doença, a loucura, a mentira e a paixão. Depois de aberta, somente a esperança ficou no fundo da caixa.
.
Olga colheu a velhice da caixa de Pandora...
.
Fui muda até os sete anos, porque a única pessoa com quem podia falar, num rincão dos pampas gaúchos, era minha mãe, que me trazia no ventre e que ficou muda quando recebeu a notícia de que meu pai tinha morrido num confronto da Coluna Prestes com a ditadura do Getúlio. Faz tempo. E era bem mentira. Meu pai estava vivo e feliz em Porto Alegre, vivendo com uma china que conheceu durante o recrutamento dos homens que iam subir o Brasil com o Prestes. Quando soube, anos depois, minha mãe, que estava muda da boca, ficou muda também dos braços e das pernas e logo morreu. Mas era tarde pra mudar meu nome. Apesar da mágoa de minha mãe pela revolução, fiquei Olga. Fui morar então com uma tia que vivia num pinhal do Paraná, e que também era quieta como um pinheiro. O que eu sabia bem quando cheguei ao pinhal era imitar os bichos: porco, galinha, cabra. Imito até hoje. Estou pertinho dos oitenta, mas o maior medo da minha vida não é o de morrer daqui a pouco, é o de ficar muda de verdade.
.
domingo, 19 de outubro de 2008
Depois do Enfim
Pepê Mattos é um poeta que sempre passa pela ruazinha incerta deste blog, observa aqui o tempo, desvenda circunstâncias, divisa sonhos e colhe em minha prosa um pouco do que sou. Em uma de suas vindas, deixou este breve conto, escrito no tronco de uma das árvores da ruazinha banhada de sol.
"Enfim, assim, estampado na camiseta, ela saiu pelas ruas. Seu estado de espírito resvalava ali pelo completo desapego a tudo que a circundava. Nem se importara com a imagem do espelho mostrando uma mulher que conhecia desde o momento em que levantava da cama até quando o sono (ou uma frustração qualquer) a jogava lá de volta. Conhecidos lhe paravam nas ruas querendo respostas que os convencessem de que tudo ia bem com ela. Ignoravam que resposta nenhuma ela tinha e o máximo que saía eram umas frases atropeladas que eram decodificadas como um "tudo bem", mas que ela mesma admitia que fosse "e daí?". Ensimesmada com tamanho infortúnio resolveu entrar na primeira sala de cinema que encontrasse pela frente, na ânsia de vislumbrar no infortúnio dos outros conforto para sua inquietude. A película lhe desdizia mais coisas que todos os desmandos ouvidos até então. Insatisfeita com sua decisão, resolveu atentar para a atuação dos atores. Isso não lhe tomou mais que duas horas de seu precioso tempo. Algumas lágrimas rolaram pela sua face límpida, perfazendo um percurso que terminara ali no canto dos lábios. Não soube dizer se eram pela história que assistia na tela ou pelo que vivenciara desde que saíra de casa..."
"Enfim, assim, estampado na camiseta, ela saiu pelas ruas. Seu estado de espírito resvalava ali pelo completo desapego a tudo que a circundava. Nem se importara com a imagem do espelho mostrando uma mulher que conhecia desde o momento em que levantava da cama até quando o sono (ou uma frustração qualquer) a jogava lá de volta. Conhecidos lhe paravam nas ruas querendo respostas que os convencessem de que tudo ia bem com ela. Ignoravam que resposta nenhuma ela tinha e o máximo que saía eram umas frases atropeladas que eram decodificadas como um "tudo bem", mas que ela mesma admitia que fosse "e daí?". Ensimesmada com tamanho infortúnio resolveu entrar na primeira sala de cinema que encontrasse pela frente, na ânsia de vislumbrar no infortúnio dos outros conforto para sua inquietude. A película lhe desdizia mais coisas que todos os desmandos ouvidos até então. Insatisfeita com sua decisão, resolveu atentar para a atuação dos atores. Isso não lhe tomou mais que duas horas de seu precioso tempo. Algumas lágrimas rolaram pela sua face límpida, perfazendo um percurso que terminara ali no canto dos lábios. Não soube dizer se eram pela história que assistia na tela ou pelo que vivenciara desde que saíra de casa..."
domingo, 12 de outubro de 2008
O marinheiro perdido
Hoje é também dia do mar. Um bom momento para publicar este conto tirado de um antigo blog que foi para sempre para o arquivo morto.
Fazia cem dias que o marinheiro extraviado vagava pela praia, fazendo nas tardes o mesmo percurso das manhãs e falando sempre com as mesmas pessoas que jamais entendiam sua língua. Perdera a partida do cargueiro de uma pátria que não era a sua, que de retorno aos seus portos o deixara para trás, perdido entre garrafas, entre companhias ignóbeis e as lembranças da mulher amada. Em troca do trabalho nos guindastes, davam-lhe pão e cachaça. Dos bêbados tornou-se amigo leal e era visto nas madrugadas chorando abraçado às putas que se trocavam pelas mais vulgares ervas. Eram dele os gritos que se ouviam na quase manhã, quando antes que o sol surgisse ele clamava que o dia lhe trouxesse de volta o navio que na verdade só viria no ano seguinte. Fazia cem dias que o marinheiro extraviado vagava inútil entre as carcaças dos navios quando se ouviu seu grito pela última vez, no instante em que se jogou ao mar do alto da mais alta rocha, com a fotografia de uma mulher russa tão linda quanto o sol da meia-noite. Quem ouviu o grito pensou que ele se revoltava ainda uma vez contra a própria sorte, e nunca soube que ele dizia eu te amo na língua de sua Narkissa.
quinta-feira, 9 de outubro de 2008
Um conto sem título, um pouco Breve.
.
Ele não tinha medo de nada. Das noites de janela aberta, da escuridão, dos tropeços nas pedras disfarçadas de sombra. Não importava a travessia, o cansaço, o açoite da chuva, a madrugada. Tinha no peito a garra de um Ícaro, podia viver nas regiões rebeldes, enfrentar o santo guerreiro e o dragão da maldade. Era sozinho e combatia com febre as machadadas de Brucutu. Multiplicava-se por si mesmo, podia descer às profundezas abissais do inferno, percorrer a extensão da muralha da China, derrubar maremotos, samurais, o dragão celestial que devora o sol. E se encontrasse a morte no caos ou no silêncio do Cosmos... encontraria. Mas nada podia contra Eles, que possuíam a arma para abater sorrisos. Para que Eles soubessem disso levou apenas o tempo de seu puro olhar ultrajando a covardia. A primeira coisa que Eles mataram então foi o outono, para que não mais sorrissem seus pés sobre as folhas envolvidas em húmus e povoadas de formigas. Mataram os crepúsculos, de modo que o sol, paralisado no céu, impediu a chegada da noite, e das constelações, e do sorriso inebriado de estrelas. Tomaram para si as suas melhores lembranças, para que nunca mais Ele adormecesse sorrindo pelo que passou. Mataram tudo para o que fosse possível sorrir e mataram um pouco mais. E como ainda assim Ele os olhasse nos olhos e sorrisse a esperança de que um dia compreendessem, Eles mataram a si mesmos.
segunda-feira, 6 de outubro de 2008
Enfim!
Como neste domingo eu vestisse uma blusa cuja estampa dizia Enfim, várias pessoas me perguntaram: Enfim o que? Sei lá, não pensei nisso ao comprar a blusa. Mas foi interessante o número de possibilidades que surgiram a partir da palavra. Enfins existenciais, políticos, sexuais, todo mundo queria fazer piada. Mas desde sábado os meus enfins são os seguintes:
1. Enfim assisti ao filme O Amor nos Tempos do Cólera. Puxa, que coisa, nem sei direito o que dizer... Acho que o G. G. Márquez não gostou. Ele nunca gosta, por isso sempre resiste a permitir que filmem seus livros. A atriz Giovanna Mezzogiorno, que interpretou Fermina Daza, ficou com a mesma expressão pregada na face durante as duas horas de filme. E mesmo aos 72 anos tinha a boca dos seus 18.
2. Enfim está provado que Javier Barden (Florentino Ariza) é um ator formidável, que Fernanda Montenegro (Transito Ariza) é uma deusa e que Benjamin Bratt (Juvenal Urbino) é a coisa mais sedutora do cinema universal atual.
3. Enfim um filme em que o diretor (o britânico Michael Newell) conserva falas originais das personagens do livro, embora nem assim consiga passar perto da emoção que a literatura provoca.
4. Enfim... derramei copiosas lágrimas na frente do vídeo, porque a história foi bem contada e emociona, ainda que de maneira óbvia. A fotografia é belíssima, a Shakira cantando toca fundo...
5. E enfim, não sou crítica nem comentarista de cinema pra dizer mais que isso. No geral, gostei do filme.
segunda-feira, 29 de setembro de 2008
sexta-feira, 26 de setembro de 2008
Foto e legenda 2
quinta-feira, 25 de setembro de 2008
Primeiro Maiakovski escreveu...
“Na primeira noite, eles se aproximam e colhem uma flor de nosso jardim
E não dizemos nada.
Na segunda noite, já não se escondem, pisam as flores, matam nosso cão
E não dizemos nada.
Até que um dia, o mais frágil deles, entra sozinho em nossa casa,
rouba-nos a lua, e, conhecendo nosso medo, arranca-nos a voz da garganta
E porque não dissemos nada, já não podemos dizer nada.”
Depois dele, veio Bertolt Brecht e escreveu...
"Primeiro levaram os negros
Mas não me importei com isso
Eu não era negro
Em seguida levaram alguns operários
Mas não me importei com isso
Eu também não era operário
Depois prenderam os miseráveis
Mas não me importei com isso
Porque eu não sou miserável
Depois agarraram uns desempregados
Mas como tenho meu emprego
Também não me importei
Agora estão me levando
Mas já é tarde.
Como eu não me importei com ninguém
Ninguém se importa comigo."
E eu, que não escrevo nada em verso, às vezes nem em prosa, digo apenas...
“Na primeira noite, eles se aproximam e colhem uma flor de nosso jardim
E não dizemos nada.
Na segunda noite, já não se escondem, pisam as flores, matam nosso cão
E não dizemos nada.
Até que um dia, o mais frágil deles, entra sozinho em nossa casa,
rouba-nos a lua, e, conhecendo nosso medo, arranca-nos a voz da garganta
E porque não dissemos nada, já não podemos dizer nada.”
Depois dele, veio Bertolt Brecht e escreveu...
"Primeiro levaram os negros
Mas não me importei com isso
Eu não era negro
Em seguida levaram alguns operários
Mas não me importei com isso
Eu também não era operário
Depois prenderam os miseráveis
Mas não me importei com isso
Porque eu não sou miserável
Depois agarraram uns desempregados
Mas como tenho meu emprego
Também não me importei
Agora estão me levando
Mas já é tarde.
Como eu não me importei com ninguém
Ninguém se importa comigo."
E eu, que não escrevo nada em verso, às vezes nem em prosa, digo apenas...
Formidável!
.
quarta-feira, 17 de setembro de 2008
Papillon

Série Breves Contos
Ilustrado com tela de René Magritte
Tirou dos pés os sapatos e tocou a transpor o campo indivisível de florezinhas púrpuras na beira de um rio azul da França, a alma insustentável dentro do corpinho impúbere, do vestido bordado em borboletas sobre o fundo branco. Desejou ser pássaro, vento, beija-flor safira que percorresse o campo numa velocidade vertiginosa e a leveza de um coração de quatro gramas, ao encontro da mansa chuva de pedras preciosas que havia depois do arco-íris. Com seu olhar de beija-flor em vôo, viu os roedores que subiam árvores à sua passagem, pares de asas surreais sumindo no horizonte como miragens, viu as flores novas brotando entre as antigas, e ao abaixar-se para apanhá-las, viu os próprios seios nascidos na última manhã. Mas não viu o bando de borboletas que a perseguia desde a partida, voejando entre as violetas o seu tempo de reprodução, a sua fome de flor e seu errante destino. Transpunha o último arbusto, pensando em retomar a viagem ao arco-íris na próxima manhã, e mal percebeu – beija-flor projetando o vôo em três direções – a revoada das borboletas que alçaram vôo de seu vestido para juntar-se à onda incólume de borboletas que viajava rumo ao fim das fronteiras. De vestido agora branco, a alma insustentável e o coração de beija-flor em repouso, tocou a transpor de volta o campo indivisível de florezinhas púrpuras, à beira de um rio azul da França.
.
segunda-feira, 15 de setembro de 2008
O louco e a primavera
Da série Breves Contos
Ilustrado com tela de René Magritte

Ilustrado com tela de René Magritte

O mendigo itinerante que naquela manhã morava na praça da Bandeira adormeceu no frescor do amontoado de folhas secas sob a amendoeira, e sonhou que de sua cabeça e dos vãos dos dedos de seus pés e de suas mãos brotavam flores. Acordou em pleno outono, com o sorriso cheio de brisas e uns olhos transbordantes de primavera, despetalando os próprios cabelos como se fossem azaléias.
.
quinta-feira, 11 de setembro de 2008
Os deuses

Da série Breves Contos.
Ilustrado por tela de René Magritte.
Depois de nove dias e nove noites pendurado de cabeça para baixo na árvore do conhecimento, Odin, rei dos deuses, estava preparado para comandar o exército de guerreiros mortos em batalha, para proteger os magos, os andarilhos e os que nascem na quarta-feira. Descansava em seu trono, de onde podia avistar o mundo todo, junto aos seus dois corvos, seus dois lobos e ao seu incrível cavalo de oito patas, todos se deleitando à visão das doze virgens aladas que recolhiam os mortos dos campos, quando a deusa Iduna, guardiã do pomar sagrado, chegou derramando sorrisos e o convidou para comer cogumelos alucinógenos atrás das moitas de amoras selvagens do pomar. O deus da morte e da sabedoria olhou no fundo dos olhos de Iduna, e sem pensar por mais de três segundos, seguiu atrás de seus passos, pensando em quanto teria sido melhor ter passado os nove dias e as nove noites pendurado àquela mulher. De cabeça para baixo.
Depois de nove dias e nove noites pendurado de cabeça para baixo na árvore do conhecimento, Odin, rei dos deuses, estava preparado para comandar o exército de guerreiros mortos em batalha, para proteger os magos, os andarilhos e os que nascem na quarta-feira. Descansava em seu trono, de onde podia avistar o mundo todo, junto aos seus dois corvos, seus dois lobos e ao seu incrível cavalo de oito patas, todos se deleitando à visão das doze virgens aladas que recolhiam os mortos dos campos, quando a deusa Iduna, guardiã do pomar sagrado, chegou derramando sorrisos e o convidou para comer cogumelos alucinógenos atrás das moitas de amoras selvagens do pomar. O deus da morte e da sabedoria olhou no fundo dos olhos de Iduna, e sem pensar por mais de três segundos, seguiu atrás de seus passos, pensando em quanto teria sido melhor ter passado os nove dias e as nove noites pendurado àquela mulher. De cabeça para baixo.
.
segunda-feira, 8 de setembro de 2008
Canção da Primavera
Para Margarida C, ainda que não seja primavera, nem aqui, nem em Lisboa. Mas é setembro...
Primavera cruza o rio
Cruza o sonho que tu sonhas.
Na cidade adormecida
Primavera vem chegando.
Catavento enloqueceu,
Ficou girando, girando.
Em torno do catavento
Dancemos todos em bando.
Dancemos todos, dancemos,
Amadas, Mortos, Amigos,
Dancemos todos até
Não mais saber-se o motivo...
Até que as paineiras tenham
Por sobre os muros florido!
Mário Quintana
Primavera cruza o rio
Cruza o sonho que tu sonhas.
Na cidade adormecida
Primavera vem chegando.
Catavento enloqueceu,
Ficou girando, girando.
Em torno do catavento
Dancemos todos em bando.
Dancemos todos, dancemos,
Amadas, Mortos, Amigos,
Dancemos todos até
Não mais saber-se o motivo...
Até que as paineiras tenham
Por sobre os muros florido!
Mário Quintana
quarta-feira, 27 de agosto de 2008
A hora do riso
Fazia tempo que eu não via televisão. Ver, via, o aparelho desligado, empoeirado, relegado ao silêncio cósmico dos objetos abandonados... Fazia tempo que eu não assistia à televisão, mas o horário reservado à propaganda eleitoral me instigou a ligar o aparelho e me deitar na cama munida de um saquinho de jujuba. Não, não foi necessário que os corajosos candidatos começassem a aparecer para a minha diversão dar partida. Vi pela primeira vez outra campanha que está no ar, a da Justiça Eleitoral, e não tive a menor dúvida quanto ao seu objetivo. Esclarecer? Conscientizar? Nada! Eles querem fazer graça. Desde os dias em que eu tinha dores no esôfago porque engolia ar de tanto rir na frente dos episódios de Friends que eu não ria tanto. Da abelha no ouvido, do choro ao toque do celular, mas de uma das peças em particular: a do homem que passa quatro anos sapateando toda vez que fica nervoso. Quase engasguei com uma jujuba de uva. A Justiça Eleitoral me conquistou, e eu sei que isso era tudo o que ela queria. Juro que dessa vez vou votar direito. Embora na esquerda...
sábado, 23 de agosto de 2008
Sobre o Velho Graça
Uma das minhas grandes admirações se chama Graciliano Ramos. Li Infância, Insônia, Vidas Secas, São Bernardo e Memórias do Cárcere. E depois de Angústia, passei muito tempo sem querer ler mais nada. Achava que nenhuma literatura além daquela valia a pena. Queria morrer. Queria nunca mais escrever. E ao mesmo tempo queria afundar nas páginas do livro e misturar meu sangue à literatura tão perfeita. Os solilóquios íntimos de Luis da Silva tiveram efeito catastrófico sobre minha existência. A crise passou, mas minha admiração pelo Velho Graça continua intocada. Tenho em casa uma brochura da Coleção Brasiliana, da Editora Duetto, com os “Relatórios do Prefeito de Palmeira dos Índios”, uma verdadeira raridade, com textos que marcaram o início da carreira literária do escritor. Sim... é preciso ser muito bom pra conseguir encantar com o texto de um relatório oficial! Graciliano foi prefeito de Palmeira dos Índios, em Alagoas, no final da década de 1920. Durante seu mandato, enviou ao governador do Estado dois relatórios de prestação de contas, escritos da maneira mais inusitada para um texto oficial. Entenda bem: até como prefeito Graciliano foi um formidável escritor! Fragmentos do relatório:
O início da administração
“Havia em Palmeira inúmeros prefeitos: os cobradores de impostos, o Comandante do Destacamento, os soldados, outros que desejassem administrar. (...) Os fiscais, esses, resolviam questões de polícia e advogavam. Para que semelhante anomalia desaparecesse, lutei com tenacidade e encontrei obstáculos dentro da prefeitura e fora dela – dentro, uma resistência mole, suave, de algodão em rama; fora, uma campanha sorna, oblíqua, carregada de bílis. Pensavam uns que tudo ia bem nas mãos de Nosso Senhor, que administra melhor do que todos nós; outros me davam três meses para levar um tiro.”
Iluminação pública
“A Prefeitura foi intrujada quando, em 1920, aqui se firmou um contrato para fornecimento de luz. Apesar de ser um negócio referente à claridade, julgo que assinaram aquilo às escuras. É um bluff. Pagamos até a luz que a lua nos dá.”
Telegramas
“De ordinário vai para eles dinheiro considerável. (...) Porque se derrubou a Bastilha – um telegrama; porque se deitou uma pedra na rua – um telegrama; porque o deputado F. esticou a canela – um telegrama. Dispêndio inútil. Toda a gente sabe que isto por aqui vai bem, que o deputado morreu, que nós choramos e que em 1559 D. Pero Sardinha foi comido pelos caetés.”
Conclusão
“(...) Não favoreci ninguém. Devo ter cometido numerosos disparates. Todos os meus erros, porém, foram da inteligência, que é fraca. Perdi vários amigos, ou indivíduos que possam ter semelhante nome. Não me fizeram falta. Há descontentamento. Se a minha estada na Prefeitura por estes dois anos dependesse de um plebiscito, talvez eu não obtivesse 10 votos. Paz e prosperidade.”
“Palmeira dos Índios, 10 de janeiro de 1929.”
segunda-feira, 18 de agosto de 2008
Passagem pela polícia
Mais uma pequena crônica sobre as meninas reais...
Pétala achou lindo ser presa. Foi recolhida por uma viatura da Polícia Militar na madrugada de uma terça-feira, quando dava inocentes voltinhas de carro ao redor de uma praça central, junto com quatro amigos adolescentes. Três meninos e uma menina de pijama, tirada da cama para passear. Só o motorista, Flavinho, era maior de idade, mas foi recolhido também porque transportava os menores, com a agravante de um estar de pijama. Todos foram recolhidos. Até o carro, com a documentação vencida. Pétala, Billy, Rodrigo e a do pijama numa moderna perua da Wolkswagen. Flavinho num camburão enferrujado. “Mas o que nós fizemos?” era a pergunta geral. E de cassetetes em punhos, os tiras os mandaram calar a boca e passar pra dentro da viatura. Direto para a Vara da Infância e Adolescência... ou Juventude, não sei. A caminho, descobriram, pela conversa entre os tiras, que tinham passado quatro vezes pela viatura parada, de plantão na praça, rindo de modo desvairado, como se fossem adolescentes. Despertaram suspeitas. “Suspeita de quê?” atreveu-se Pétala para o policial do volante. “De que são menores, ora...”. “Mas nós somos”, disse uma outra voz quase sumida, de dentro do pijama. Do fundo do camburão, pelo celular, Flavinho chamou o pai advogado. Que não se sabe por quais forças chegou à Vara da Infância antes das viaturas. Tudo esclarecido. Descobriu-se lá, que todos, menos Flavinho, eram menores dando umas voltinhas pela praça de madrugada... Só fiquei sabendo no dia seguinte, para a sorte de todos. Se dependesse de mim, teriam dormido no xadrez. O carro preso era o meu. Pétala passou a semana narrando a crônica policial, primeiro pra mim, depois para os amigos. Pessoalmente, pelo telefone, pela internet. E toda vez que passava por mim, ainda me gozava: “Tiras, mãe? Xadrez? Tu é muito sem noção...”
quarta-feira, 13 de agosto de 2008
Interrompendo a série...
Ando pensando seriamente em me mudar do Blogspot, por não ter descoberto ainda a difícil arte de instalar neste blog um contador de visitas. Não, eu não tenho a ilusão de que o Ave, Palavra! seja um endereço onde o leitor chega diariamente resfolegante de pressa para ler as eventuais bobagens que escrevo. Mas gostaria de saber se pelo menos sou visitada uma vez por dia! Meus três leitores, esses eu sei que aparecem por aqui de vez em quando, que queimam pestanas em torno do meu pobre latim, comem uns bolinhos de chuva, e me deixam gentis comentários. Não sei se há outros. Andei pensando também em trocar o nome do blog para algo mais atrativo, do tipo “Nós na Balada”, “Eu sou o cara”, “Muvuca”, porque conforme o último Censo, há muito mais gente que gosta de bandalheira do que de literatura. Mas a carga de pobreza seria pesada demais para as minhas costelas. E tudo para atrair leitores que não são nem de longe os que eu desejo ter... Depois, o que eu escreveria num blog com um nome desses em seu registro de nascimento? Não ando em baladas, que escritor que se preza, hoje e desde a Idade Média, gosta mesmo é de um bom boteco pé sujo – que obviamente é mais antigo que isso – apesar do exemplo de Vinicius de Moraes, que freqüentava as rodas acima das camadas de turbulência e só bebia uísque. Mas Vinicius podia. Era o cara. Já nós, do Ave, Palavra!, sentamo-nos no Empório do Índio e mastigamos as falanges pensando em estratégias miraculosas para atrair leitores... Ah, o blog poderia também se chamar “Diário Íntimo, Ilegal e Imoral”, e eu ia ter que rebolar pra inventar histórias que proporcionassem intenso prazer aos punhados de leitores. Paciência. Vamos ficando no Ave, Palavra!, sem saber quantos têm vindo.
domingo, 10 de agosto de 2008
Meninas reais
Esta pequena série de crônicas que começo a publicar hoje foi escrita há algum tempo, quando eu tentava escrever textos menos líricos, menos introspectivos – pra não dizer menos sentimentais – mas que acabaram resultando em algo que acabei considerando difícil publicar. Mudei de idéia. São textos sem mais compromisso que o de contar pequenas irrelevâncias diárias. Somente este primeiro foi publicado um dia, num blog cujo nome até esqueci, e foi lido, sem dúvida, pelos meus inumeráveis leitores de toda a pátria amada Brasil e alguns parentes da Cracóvia... A série, sem nome, é baseada em meninas reais.
Café e rock’n roll
Paula ouve rock às seis e meia da manhã, enquanto se apronta para a escola. Eu, enquanto faço o café, vou desmantelando a cozinha, procurando o açúcar que escondi das formigas. “Meu Deus, que música é essa, a uma hora dessas?”. Paula grita no banheiro, em língua indecifrável, acompanhando a melodia. “Essa guitarra não me é estranha...”, penso, e enfim o açúcar, na gaveta dos legumes, na geladeira. Cheio de formigas. A pirada sai do banheiro enrolada em três toalhas, enquanto os pés molhados vão deixando um rastro aquático até o quarto. “Por que ela não aprende a se enxugar antes de sair do banheiro?” Dou-me conta de que tenho me perguntado o mesmo todas as manhãs dos últimos dez anos – pelo menos – e tenho certeza de que vou continuar me perguntando. “Ela ainda diz que a maluca sou eu”. No quarto, a garota rock´n roll aumenta o som. “Essa música vai me enlouquecer”, digo pra mim em voz alta, sapecando os dedos na tampa do bule. Café pronto. Escondo o açúcar em lugar mais seguro. “Na idade dela, eu ouvia caras bons. Santana, Peter Frampton, Pink Floyd...”. Uniformizada, a maluca vem para a cozinha tomar café. E o som mandando fogo nas paredes da casa. “Minha filha, meus ouvidos não têm mais paciência pra isso... quem são esses caras que você ouve?”. E ela, com a cara mais impávida e a boca cheia de pão torrado: “Pink Floyd, mãe”.
Café e rock’n roll
Paula ouve rock às seis e meia da manhã, enquanto se apronta para a escola. Eu, enquanto faço o café, vou desmantelando a cozinha, procurando o açúcar que escondi das formigas. “Meu Deus, que música é essa, a uma hora dessas?”. Paula grita no banheiro, em língua indecifrável, acompanhando a melodia. “Essa guitarra não me é estranha...”, penso, e enfim o açúcar, na gaveta dos legumes, na geladeira. Cheio de formigas. A pirada sai do banheiro enrolada em três toalhas, enquanto os pés molhados vão deixando um rastro aquático até o quarto. “Por que ela não aprende a se enxugar antes de sair do banheiro?” Dou-me conta de que tenho me perguntado o mesmo todas as manhãs dos últimos dez anos – pelo menos – e tenho certeza de que vou continuar me perguntando. “Ela ainda diz que a maluca sou eu”. No quarto, a garota rock´n roll aumenta o som. “Essa música vai me enlouquecer”, digo pra mim em voz alta, sapecando os dedos na tampa do bule. Café pronto. Escondo o açúcar em lugar mais seguro. “Na idade dela, eu ouvia caras bons. Santana, Peter Frampton, Pink Floyd...”. Uniformizada, a maluca vem para a cozinha tomar café. E o som mandando fogo nas paredes da casa. “Minha filha, meus ouvidos não têm mais paciência pra isso... quem são esses caras que você ouve?”. E ela, com a cara mais impávida e a boca cheia de pão torrado: “Pink Floyd, mãe”.
quarta-feira, 6 de agosto de 2008
Autobiografia
ou Minha vida dá uma crônica!
Nasci no ano de 1415 do calendário Armênio, e o que me consola é que no Rúnico já era 2216. Só agora compreendo que o Gregoriano é o pacificador dos calendários. Era o ano do cavalo no horóscopo chinês e o ano internacional do arroz. Mas isto não influenciou em nada minha vida, que podia ter sido menos pálida se eu tivesse me deixado governar pelo fogo, pelo jasmim, pelo saxofone e pelo número 5. Bem, talvez o início da guerra do Vietnã naquele ano tenha suscitado em meu espírito um profundo desejo de paz, e a fundação da Igreja de Satã originado a impressão de um risco horizontal no meu olho esquerdo. Não sei.
A astrologia reversa diz que nasci Touro com a personalidade de Peixes. Paciência. O mundo andava muito louco em 1966... Manuel Bandeira fazia oitenta anos, ensinando ao mundo o Itinerário de Pasárgada, para onde finalmente aprendi a ir, mais de 30 anos depois. Nada mais. Apenas nascemos: eu, Zeca Baleiro e o terrorista iraquiano Abu Musab al-Zarqawi, enquanto a boca ávida de Bob Dylan procurava a gaita, nalgum lugar.
Em 1970, quando o Pelé voltou do México abraçado à taça Jules Rimet, eu ainda não tinha televisão em casa. Ainda não havia me dado conta de minha própria existência. Mas se tivesse televisão, certamente colocaria no canal do Capitão Aza. Um pouco depois o Etna entrou em erupção, a juventude entrou em erupção porque Jim Morrison se foi, as crianças entraram em erupção pelo maior parque de diversões do mundo, o Walt Disney World. Mas na época não fiquei sabendo de nada. Tinha cinco anos e talvez estivesse pensando no Nobel de Literatura do Pablo Neruda.
Passei os anos de 1972, 73 e 74 me guardando dos invernos implacáveis dos confins do Paraná. Nos dias hibernais, meu companheiro fiel era o Gato Felix, que me ensinou a compreender as primeiras frases escritas. De vez em quando a Vila Sésamo me despertava da letargia. Mas o ano de 1975 chegou e tudo o que me rodeava foi salvo dos insípidos anos de geada: descobri que existiam livros, e foi o princípio de um amor eterno, embora naquele tempo eu ainda saltasse de cima da cerca com uma fronha amarrada nas costas. Pensava que era o Flash Gordon.
1980 foi o primeiro ano do resto de minha vida porque topei de frente com o amor numa tarde de maio em que o sol de outono estendia caminhos amarelos sob as paineiras. Todos os amores que nasceram naquele ano foram embalados pela Imagine do beatle assassinado, pelos sonetos do Vinicius morto. O meu não foi diferente.
De lá pra cá dei mais 26 voltas ao redor do sol, plantando muito pé de flor que deu capim, capim que deu flor, e nada me desviou do caminho da circunspeção... nem a passagem do Halley, a queda do muro de Berlim, a carona que pegaram Drummond, Chico Mendes e Rubem Braga no relâmpago do adeus. Mas estive atenta ao mundo, vendo muita coisa que não queria ver e outras tantas que não pretendo morrer sem rever, como a chuva nas ruas esmigalhadas de solidão da cidade distante onde nasci.
Paro aqui de enumerar os anos porque daí pra frente “os céus se misturaram com a terra e o espírito de Deus voltou a se mover sobre a face das águas”, embora não tenha mencionado relevâncias como as palavras em polonês que aprendi aos seis anos, os pássaros de papel na tarde de Curitiba, a música para alegrar o dia que aprendi com uma índia Karipuna, o encontro com o poeta vestido de branco que canta ainda que faça escuro...
Já é 1457 no calendário Armênio, 2258 no Rúnico, e o horóscopo continua me prometendo um pouco de ternura depois da lua cheia. Mas tudo está bem, enquanto vou achando que sou zen. Amanheço abraçada ao tempo, construindo as manhãs com mais esperança do que raios de sol. Entardeço enumerando sonhos na margem do meu rio, derramando uma a uma as páginas do livro de areia de Borges. Anoiteço dançando entre os cristais do sentimento das gentes, e adormeço no cheiro dos cravos capturados nos quintais da infância que continua a arder no sonho. No peito trago a vontade insondável de voltar a ter cinco anos, e não saber de nada. No espelho vejo o olhar sereno de alguém que gosto. Meu velho gato Stefen Fry anda por perto, vendo passarem os anos e os temporais.
A astrologia reversa diz que nasci Touro com a personalidade de Peixes. Paciência. O mundo andava muito louco em 1966... Manuel Bandeira fazia oitenta anos, ensinando ao mundo o Itinerário de Pasárgada, para onde finalmente aprendi a ir, mais de 30 anos depois. Nada mais. Apenas nascemos: eu, Zeca Baleiro e o terrorista iraquiano Abu Musab al-Zarqawi, enquanto a boca ávida de Bob Dylan procurava a gaita, nalgum lugar.
Em 1970, quando o Pelé voltou do México abraçado à taça Jules Rimet, eu ainda não tinha televisão em casa. Ainda não havia me dado conta de minha própria existência. Mas se tivesse televisão, certamente colocaria no canal do Capitão Aza. Um pouco depois o Etna entrou em erupção, a juventude entrou em erupção porque Jim Morrison se foi, as crianças entraram em erupção pelo maior parque de diversões do mundo, o Walt Disney World. Mas na época não fiquei sabendo de nada. Tinha cinco anos e talvez estivesse pensando no Nobel de Literatura do Pablo Neruda.
Passei os anos de 1972, 73 e 74 me guardando dos invernos implacáveis dos confins do Paraná. Nos dias hibernais, meu companheiro fiel era o Gato Felix, que me ensinou a compreender as primeiras frases escritas. De vez em quando a Vila Sésamo me despertava da letargia. Mas o ano de 1975 chegou e tudo o que me rodeava foi salvo dos insípidos anos de geada: descobri que existiam livros, e foi o princípio de um amor eterno, embora naquele tempo eu ainda saltasse de cima da cerca com uma fronha amarrada nas costas. Pensava que era o Flash Gordon.
1980 foi o primeiro ano do resto de minha vida porque topei de frente com o amor numa tarde de maio em que o sol de outono estendia caminhos amarelos sob as paineiras. Todos os amores que nasceram naquele ano foram embalados pela Imagine do beatle assassinado, pelos sonetos do Vinicius morto. O meu não foi diferente.
De lá pra cá dei mais 26 voltas ao redor do sol, plantando muito pé de flor que deu capim, capim que deu flor, e nada me desviou do caminho da circunspeção... nem a passagem do Halley, a queda do muro de Berlim, a carona que pegaram Drummond, Chico Mendes e Rubem Braga no relâmpago do adeus. Mas estive atenta ao mundo, vendo muita coisa que não queria ver e outras tantas que não pretendo morrer sem rever, como a chuva nas ruas esmigalhadas de solidão da cidade distante onde nasci.
Paro aqui de enumerar os anos porque daí pra frente “os céus se misturaram com a terra e o espírito de Deus voltou a se mover sobre a face das águas”, embora não tenha mencionado relevâncias como as palavras em polonês que aprendi aos seis anos, os pássaros de papel na tarde de Curitiba, a música para alegrar o dia que aprendi com uma índia Karipuna, o encontro com o poeta vestido de branco que canta ainda que faça escuro...
Já é 1457 no calendário Armênio, 2258 no Rúnico, e o horóscopo continua me prometendo um pouco de ternura depois da lua cheia. Mas tudo está bem, enquanto vou achando que sou zen. Amanheço abraçada ao tempo, construindo as manhãs com mais esperança do que raios de sol. Entardeço enumerando sonhos na margem do meu rio, derramando uma a uma as páginas do livro de areia de Borges. Anoiteço dançando entre os cristais do sentimento das gentes, e adormeço no cheiro dos cravos capturados nos quintais da infância que continua a arder no sonho. No peito trago a vontade insondável de voltar a ter cinco anos, e não saber de nada. No espelho vejo o olhar sereno de alguém que gosto. Meu velho gato Stefen Fry anda por perto, vendo passarem os anos e os temporais.
quarta-feira, 7 de maio de 2008
Nalgum lugar
Poema de E. E. Cummings- um dos inventores da poesia moderna - musicado por Zeca Baleiro, para ser lido em voz alta ou para ser ouvido a todo volume, a qualquer hora do dia, seja qual for o estado de espírito, disposição, humor, endereço...
Nalgum lugar em que eu nunca estive
alegremente além de qualquer experiência
teus olhos têm o teu silêncio.
No teu gesto mais frágil
há coisas que me encerram
o que eu não ouso tocar
porque estão demasiado perto.
Teu mais ligeiro olhar
facilmente me descerra
embora eu tenha me fechado como dedos
nalgum lugar.
Me abre sempre pétala por pétala
como a primavera abre
tocando sutilmente
misteriosamente
sua primeira rosa.
Ou se quiseres me ver fechado
eu e minha vida nos fecharemos
belamente, de repente
assim como o coração desta flor imagina
a neve cuidadosamente descendo em toda parte.
Nada que eu possa perceber deste universo iguala
o poder de tua intensa fragilidade
cuja textura compele-me com a cor
de teus continentes
restituindo a morte, o sempre
cada vez que respiras.
Não sei dizer o que há em ti que fecha e abre
só uma parte de mim compreende
que a voz dos teus olhos
é mais profunda que todas as rosas.
Ninguém, nem mesmo a chuva, tem mãos tão pequenas.
Nalgum lugar em que eu nunca estive
alegremente além de qualquer experiência
teus olhos têm o teu silêncio.
No teu gesto mais frágil
há coisas que me encerram
o que eu não ouso tocar
porque estão demasiado perto.
Teu mais ligeiro olhar
facilmente me descerra
embora eu tenha me fechado como dedos
nalgum lugar.
Me abre sempre pétala por pétala
como a primavera abre
tocando sutilmente
misteriosamente
sua primeira rosa.
Ou se quiseres me ver fechado
eu e minha vida nos fecharemos
belamente, de repente
assim como o coração desta flor imagina
a neve cuidadosamente descendo em toda parte.
Nada que eu possa perceber deste universo iguala
o poder de tua intensa fragilidade
cuja textura compele-me com a cor
de teus continentes
restituindo a morte, o sempre
cada vez que respiras.
Não sei dizer o que há em ti que fecha e abre
só uma parte de mim compreende
que a voz dos teus olhos
é mais profunda que todas as rosas.
Ninguém, nem mesmo a chuva, tem mãos tão pequenas.
segunda-feira, 14 de abril de 2008
Canção da Chuva
Abre as janelas, Maria, que já começa a chuva... Desliga o rádio, a televisão, esquece o jornal com todas as previsões de sol para esta manhã, e vem ouvir a chuva que já escorre sua líquida canção por nossa soleira. Olha as mangueiras como estão caladas, os cachorros que das varandas deitam olhares aquosos para a translúcida paisagem, a cabecinha silenciosa do bem-te-vi que se abrigou no bojo da luminária, o velho que na rede submerge a alma em suas melhores lembranças trazidas pela chuva abençoada.
Abre, Olívia, primeiro as janelas dos teus olhos, onde a luz clarividente antecipa a melodia de cada gota que virá ensopar nosso domingo. Deita aqui, tua preguiça em meu colo, despeja os cabelos sobre o vestido que escolhi para ver a grama lavada, a terra lavrada ao peso da água, da chuva que nos choverá em cada palavra, movimento, suspiro, olhar, em cada brando gesto de tua candura.
Não rodopies assim tua alegria, Júlia, que a chuva se espanta! Não ria do anjo de penas ouriçadas que se debruça à janela à espera do sol. Deixa que ele esconda devagarzinho a cabeça entre as asas e se renda à mansa composição que o embalará para o sono. Serena teus gestos, estende teus braços meninos, sobe nas pontas de tua sapatilha de bailarina e colhe na palma uma gota para mim.
Vem, Maria, em passinhos miúdos ver as folhas secas que já cobriram a varanda, as ardósias afagadas pela enxurrada, que tudo isso é parte da canção. Levanta aos joelhos teu vestido, espicha assim as pernas e teu delicado sopro de vida ao meu lado, deixa molhar na chuva as pontas dos dedos de teu pezinho, nos pingos que se derramam fluidos sobre a verdura. Agora canta, Maria, com todos os teus cristais, esta canção com a chuva...
Abre, Olívia, primeiro as janelas dos teus olhos, onde a luz clarividente antecipa a melodia de cada gota que virá ensopar nosso domingo. Deita aqui, tua preguiça em meu colo, despeja os cabelos sobre o vestido que escolhi para ver a grama lavada, a terra lavrada ao peso da água, da chuva que nos choverá em cada palavra, movimento, suspiro, olhar, em cada brando gesto de tua candura.
Não rodopies assim tua alegria, Júlia, que a chuva se espanta! Não ria do anjo de penas ouriçadas que se debruça à janela à espera do sol. Deixa que ele esconda devagarzinho a cabeça entre as asas e se renda à mansa composição que o embalará para o sono. Serena teus gestos, estende teus braços meninos, sobe nas pontas de tua sapatilha de bailarina e colhe na palma uma gota para mim.
Vem, Maria, em passinhos miúdos ver as folhas secas que já cobriram a varanda, as ardósias afagadas pela enxurrada, que tudo isso é parte da canção. Levanta aos joelhos teu vestido, espicha assim as pernas e teu delicado sopro de vida ao meu lado, deixa molhar na chuva as pontas dos dedos de teu pezinho, nos pingos que se derramam fluidos sobre a verdura. Agora canta, Maria, com todos os teus cristais, esta canção com a chuva...
sexta-feira, 11 de abril de 2008
Exílio
Eu e meu anjo da guarda conhecemos o sentimento do exilado nesta hora neutra da madrugada. Na janela, junto ao gato que espreitava estrelas cadentes como a vaga-lumes, o anjo lamentava a impaciência da suicida Sophie Podolski, suspirava abstrações de Kafka, “tudo o que não é literatura me aborrece”, e me instigava a adjetivar o inconsumível e onipresente tempo nas páginas deste Lavoura Arcaica que soletro desde o início da estação, em lentos murmúrios, na esperança de que nunca se acabe.
Mas desde o início desta noite, anjo e eu rompemos a fronteira das salas, da sorte e das horas, exilando-nos da vida, para reencontrar, neste espaço transgredido e neste tempo recriado em exílio, a febre da própria vida e a captura do próprio tempo em Raduan Nassar:
Mas desde o início desta noite, anjo e eu rompemos a fronteira das salas, da sorte e das horas, exilando-nos da vida, para reencontrar, neste espaço transgredido e neste tempo recriado em exílio, a febre da própria vida e a captura do próprio tempo em Raduan Nassar:
“...rico só é o homem que aprendeu, piedoso e humilde, a conviver com o tempo, aproximando-se dele com ternura, não contrariando suas disposições, não se rebelando contra o seu curso, não irritando sua corrente, estando atento para o seu fluxo, brindando-o antes com sabedoria para receber dele os favores e não a sua ira; o equilíbrio da vida depende essencialmente deste bem supremo, e quem souber com acerto a quantidade de vagar, ou a de espera, que se deve pôr nas coisas, não corre nunca o risco, ao buscar por elas, de defrontar-se com o que não é.”
domingo, 6 de abril de 2008
A bela
Último da Série Ensaios Sobre a TernuraSua poesia a apavorava: Que bicho da seda teceu tua pele? Em que árvores de que montanha foste colher teus cabelos? De que minas de ouro tiraste tantos dourados? A cada dia um pedacinho dela era um novo tesouro. Desmanchava-se em ternos beijos. A bela enjoou. O queixo dele tremeu como o de um menino quando ela disse que precisava de uns trancos mais firmes, um palavrãozinho de vez em quando, umas mordidas. E como um menino com uma dor, deu um tranco bem firme na porta e não voltou mais.
Ilustração: obra de Joan Miró
O jogador

Série Ensaios Sobre a Ternura
A elegância. O porte. A firmeza das pernas e braços. É ele, sem dúvida. Um atleta ao primeiro olhar. Sorri com a diplomacia aprendida em terras distantes, onde jogou seu melhor futebol e povoou os sonhos das alvas estrangeiras com sua pele mulata e seus olhos verde-mar. Jogador internacional. Ao vê-lo, recordei a reportagem de poucos anos atrás, com chamada de capa, que enumerava as chances de sucesso do moço humilde nascido nas margens do rio, ao lado da foto em que exibia este mesmo sorriso de dentes perfeitos, embora antes mais confiante. É belo, ainda que neste outro uniforme. É ele, sem dúvida. É ele quem me recebe à porta da Estação dos Correios e Telégrafos, onde presta hoje serviços de vigilância.
Ilustração: obra de Joan Miró
quinta-feira, 3 de abril de 2008
Quimera
Série Ensaios Sobre a TernuraQuando menino, sonhava com um par de botas e uma capa de chuva colorida, vermelha, laranja, azul, para passear sob as garoas e aguaceiros, brincar de deixar a chuva deslizar pela transparência da capa e respingar-lhe amorosamente o rosto, atolar-se de botas na felicidade das poças argilosas da rua. Quando velho, teve os melhores guarda-chuvas ingleses, as botas do melhor couro compradas no estrangeiro, para usar quando não pudesse evitar a saída. E nas janelas do casarão, cerrava as cortinas para não ver nunca mais aquele menino que lá fora iludia a quase indigência e continuava a brincar na chuva, sonhando com as botas, com a capa colorida, vermelha, laranja, azul...
Ilustração: obra de Joan Miró
Ilustração: obra de Joan Miró
domingo, 16 de março de 2008
Doçura
Série Ensaios Sobre a TernuraAi, que docinho quando ela sambava na frente da pia cantarolando “eu perdi o meu amor para uma novela das oito...” Me dava uma vontade horrível de arrancar aquele aventalzinho respingado de uma semana de sórdidas frituras e esmagá-la contra a parede da cozinha, até ela gozar. No dia em que eu resolvi agir ela trocou de música: “Um homem bonito assim, o que quer de mim, e o que ele fará comigo?”, suspirava a bandida, pensando em outro, e com o mesmo avental. Pra mim ela deixou de ser doce.
Ilustração: obra de Joan Miró
quinta-feira, 13 de março de 2008
Pássaros de papel
Série Ensaios Sobre a Ternura-Pelo Dia Nacional da Poesia
A lembrança é remota, como das coisas que se vivem em sonho. Mas lembro que atravessava o Largo da Ordem numa tarde de ventos em que os canteiros da Praça do Relógio explodiam em flores de primavera em pleno verão de Curitiba. Foi então que o anjo, que neste dia andava calado ao meu lado, me disse ao ouvido: “olha o poeta...” E olhei, e vi que daquela vez não era mais uma promessa que me fazia o anjo, que costumava caminhar com a mão entrelaçada à minha sob as paineiras. O poeta estava mesmo ali, ao alcance de minha crença pueril de que a poesia podia ser vista com os olhos. A despeito do tempo, continuo acreditando. Estava ali, Leminski, com a elegância de “um homem com uma dor” que ganhava o tempo de toda uma tarde comovendo-se com os pequenos pássaros de papel que os colegiais libertavam sobre os gramados. Estava ali, recolhendo versos do quadro da tarde, e como se nos “olhasse de dentro de um diamante”, sorriu ao nos ver passar como passavam os pássaros de papel no vento, ou porque tivéssemos os olhos de quem testemunhasse uma aparição cósmica. “Leminski...”, sussurramos eu e o anjo, naquele instante cristalizado no tempo, e depois apenas o vimos se ir, telúrico e quase marginal, caminhando “assim de lado”, levado pelo crepúsculo, com um pássaro de papel colhido na concha da mão.
Ilustração: obra de Joan Miró
terça-feira, 11 de março de 2008
Hay que endurecer-se...
Série Ensaios Sobre a TernuraO problema foi que ele entrou na minha vida com uma camisa do Snoopy e a barba do Che Guevara. Foi golpe baixo, porque o Snoopy era meu ídolo, o Che o meu tesão. Esperei que esgotasse em verbos suas más impressões sobre os meus princípios burgueses e perguntei a ele se me amaria se fosse ao contrário. Disse que não. Que seria muito esquisito se eu tivesse tesão pelo Snoopy. Foi-se, embrulhado em bandeiras, irredutível na camisa. Aí fui eu que endureci. Ternura nunca mais.
Ilustração: obra de Joan Miró
domingo, 9 de março de 2008
Constelação
Série Ensaios Sobre a TernuraMorava neste endereço um sonhador que todas as noites dormia sob uma constelação. Deixou-me de herança esta casa vazia em cujos quartos os fantasmas me confundem com ele, o desamparo das paredes sem cor, o silêncio dos gatos habituados aos fantasmas. Mas na noite, quando a casa se rende às sombras e só o sono é o trajeto da fuga, acende-se em fosforescências a insólita constelação de néon colada no teto acima da cama, ao alcance da mão. Assim, nas madrugadas, em vez de acalentar solidões, realizo o desejo ancestral de tocar as estrelas.
Ilustrado com a natureza retratada pelo menino, pelo homem primitivo, pelo gênio contemporâneo espanhol Joan Miró, que morreu no natal de 1983 e não tem a menor idéia do que está acontecendo.
quinta-feira, 6 de março de 2008
A canção "la belle du jour", um poema qualquer do Vinicius e este cravinho amarelo para...
Diva Rojanski, Rosa Rente, Rebeca Braga, Heluana Quintas, Ana Martel, Lia Borralho, Maria Rojanski, Deyse França, Juliele, Elíude Viana, Dona Zefa, Cristina Almeida, Janete Capiberibe, Pérola-Pedrosa, Tanha Silva, Dulce Rosa, Ângela Beltrão, Helena Guerra, Olívia Rojanski, Márcia Corrêa, Patrícia Bastos, Oneide Bastos, Rose Oliveira, Marluce Salomão, Araciara Macêdo, Maria Picanço, Sônia Canto, Flora Pacheco, Raimunda Gracideth, Júlia Rojanski, Janeide Pessoa, Marli Mafalda, Girlene Oliveira, Carla Nobre, Ely Almeida, Ode Pessoa, Denyse Quintas, Sândala Barros, Lucidéa Portal, Marcela Leal, Kelly Maia, Adriana Abreu, Luciana Capiberibe, Sueli Pini, Leacide Moura, Iramel Lima, Tia Lucy, Elaine Juarez, Marici Rojanski, Richene Amin, Sol Pelaes, Artionka Capiberibe, Inakê Malheiros, Marina Beckman, Marta Lacerda, Vanea Avlis, Inês do Vale, Bárbara Castro!
terça-feira, 4 de março de 2008
Precisa-se
De Clarice Lispector
Sendo este um jornal por excelência, e por excelência dos “precisa-se” e “oferece-se”, vou pôr um anúncio em negrito: precisa-se de alguém, homem ou mulher, que ajude uma pessoa a ficar contente porque esta está tão contente que não pode ficar sozinha com a alegria, e precisa reparti-la. Paga-se extraordinariamente bem: minuto por minuto paga-se com a própria alegria. É urgente, pois a alegria dessa pessoa é fugaz como estrelas cadentes, tanto que até parece que só as viu depois que tombaram; precisa-se urgente, antes da noite cair, porque a noite é muito perigosa e nenhuma ajuda é possível se ficar tarde demais. Essa pessoa, que atenda ao anúncio, só tem folga depois que passa o horror do domingo que fere. Não faz mal que venha uma pessoa triste, porque a alegria que se dá é tão grande que se tem que repartir antes que se transforme em drama. Implora-se também que venha, implora-se com a humildade da alegria-sem-motivo. Em troca oferece-se também uma casa com todas as luzes acesas como numa festa de bailarinos. Dá-se o direito de dispor da copa e da cozinha, e da sala de estar.
P.S: Não se precisa de prática. E se pede desculpa por estar num anúncio a dilacerar os outros. Mas juro que há em meu rosto sério uma alegria até mesmo divina para dar.
P.S: Não se precisa de prática. E se pede desculpa por estar num anúncio a dilacerar os outros. Mas juro que há em meu rosto sério uma alegria até mesmo divina para dar.
segunda-feira, 3 de março de 2008
Definição de infinito
Poemas de Elíude Viana
O que dois pontos humanos
podem ser no universo dos desejos?
Podem ser estrelas...
Podem ser bichos...
Podem ser areia...
Ou podem ser nada
- o que pode ser tudo.
Duas velas
Levo o infortúnio de não ter
- como os relógios -
horas eternas...
Nem a felicidade
que têm os faróis
de ficar à deriva, indefinidamente...
Sou uma embarcação
- atracada -
querendo voar com as gaivotas.
O que dois pontos humanos
podem ser no universo dos desejos?
Podem ser estrelas...
Podem ser bichos...
Podem ser areia...
Ou podem ser nada
- o que pode ser tudo.
Duas velas
Levo o infortúnio de não ter
- como os relógios -
horas eternas...
Nem a felicidade
que têm os faróis
de ficar à deriva, indefinidamente...
Sou uma embarcação
- atracada -
querendo voar com as gaivotas.
sexta-feira, 29 de fevereiro de 2008
De Andréa Del Fuego
Não troco os lençóis há dois meses, e acho pouco. Dispensei todo pano entre mim e o colchão, a não ser que você traga uma toalha de mesa bem chacoalhada na varanda, sem migalha de vagabundo.
..............................
O cabelo da mulher é a raíz da árvore. O caule é pensamento, as flores o desentendimento entre o fruto e a atrofia. O homem passa a vida querendo desenterrar a cabeça da mulher. Por nascer de uma, sua cruzada é perigosa e superior. Por isso me protejo.
..............................
Cuidaremos nós dois de sua vida. Eu entro com a vontade, você com a preguiça. Assim tenho tempo de fazer minhas coisas enquanto intuo as suas. Vejo lucro, abarcar dois raciocínios sai caro, mas você não está aqui de graça.
..............................
Selton Mello me ignora, e daí? Homens mais magros já me cortejaram, nem por isso correspondi. Seleciono quem me escolherá, só não decoro a idade dos janotas. Não desisto por menos de dois foras, rejeição se configura na quinta ou sexta negativa.
..............................
A pressão sanguínea é baixa, onze por sete, de modo que suporto emoções a ponto de mantê-las latentes. Cubro qualquer oferta pela tua explosão, o borrifo de saliva no papel de parede. A roupa de baixo é solúvel, uso tatuagem de chiclete.
..............................
O cabelo da mulher é a raíz da árvore. O caule é pensamento, as flores o desentendimento entre o fruto e a atrofia. O homem passa a vida querendo desenterrar a cabeça da mulher. Por nascer de uma, sua cruzada é perigosa e superior. Por isso me protejo.
..............................
Cuidaremos nós dois de sua vida. Eu entro com a vontade, você com a preguiça. Assim tenho tempo de fazer minhas coisas enquanto intuo as suas. Vejo lucro, abarcar dois raciocínios sai caro, mas você não está aqui de graça.
..............................
Selton Mello me ignora, e daí? Homens mais magros já me cortejaram, nem por isso correspondi. Seleciono quem me escolherá, só não decoro a idade dos janotas. Não desisto por menos de dois foras, rejeição se configura na quinta ou sexta negativa.
..............................
A pressão sanguínea é baixa, onze por sete, de modo que suporto emoções a ponto de mantê-las latentes. Cubro qualquer oferta pela tua explosão, o borrifo de saliva no papel de parede. A roupa de baixo é solúvel, uso tatuagem de chiclete.
Ilustração do cabeçalho: Ray Caesar
segunda-feira, 25 de fevereiro de 2008
Branquinha
Texto de Maria Rojanski
Vê só, marinheiro, os olhos ternos da moleca. Distantes. Longe, longe. Olha só. Ela se agacha à beira-mar, agarra na coxa a barra do seu vestido cravejado de flores, e o vestido a ilumina de flores. Sabes, marinheiro, aquela flor? A que só desabrocha inteira quando a lua clama, como que pra se deleitar à luz de prata? E a moleca se espreguiça, toda prosa. O remanso traz a água pra lamber com ternura seu pé descalço e casto, seu corpo é casto, na areia túmida. A moleca já põe a canoa no mar, está agora molhada de mar até os joelhos, segura, tira a água suja do fundo do barco com a cuia. Esse barquinho é à vela. Balança, treme. É quase noite no cais, marinheiro. Daqui pra mais tarde a moleca vai tirar o chapéu de palha, vai derramar o cabelo castanho nos ombros, vai vestir o vestido de brim e seus traços vão se insinuar no mexido da saia, na nuança do tecido. Ela estará fresca e serena na noite, ela terá sereno e cheiro de mar, sentimento de mar, ela virá dançante como a maresia, ela chegará como a brisa. Mas agora, que é quase noite, que ainda é dia, ela já se sentou na proa, ela pegou o remo e está remando, e remando... Marinheiro, meu amigo marinheiro, homem de bem, o que vai havendo? Ela está branca e iluminada, e vai sumindo no horizonte. Distante. Longe, longe. Não diga que é verdade que ela parte, marinheiro! A noite enfim desmaia, tem uma lua grande e pálida. Um homem entoa uma canção de lamento num cais distante, e tu entendes o homem, marinheiro.
sábado, 23 de fevereiro de 2008
Um beijo longo
De hoje até o dia 08 de março, Ave, Palavra! estará publicando textos de mulheres ou sobre mulheres. Para os homens provarem do biscoito fino que a gente fabrica. Esperamos que eles gostem, já que no final das contas é quase sempre pra eles o biscoito... A cada postagem trocaremos a foto do cabeçalho, de acordo com o que o texto nos inspirar. Este primeiro, Um Beijo Longo, é da Carla Nobre, um poema do livro Sobre o Adeus e o Encelado de Saturno, que nos emociona a cada releitura.
Eu tenho de ir
Moro no vento
No arco
Íris do teu olhar
Te deixo
Esse gosto do Atlântico
Que é conquista e travessia
E vai te fazer pulsar sem mim
Te deixo a minha boca
Ardida, desvairada e perdida
Que paira no teu peito, ar e mar...
Eu tenho de ir
A maré baixou
O encanto do gandavo
Tem hora certa para a dor
Para o "para sempre"
Perdido no fim de nós dois...
Me deixa ir
Que eu levo os sapatos e a escada
E deixo todas as estrelas de princesa coroada
Neste teu cetro incerto e desejado
Dentro de mim
Te deixo as melhores cartas do baralho
E você joga seu destino
Sem mim
Um dia a gente ainda se olha
E é tempestade por aí
Na nossa quentura
Do que não acaba jamais...
Me deixa ir
Que sou meio sereia
Vou ficando pelo mar
Você é meio capitão
Sempre dá para reencontrar
Antes de naufragar
Toma tudo de mim
O que me contém
Minha geografia em tuas mãos
Meu além
E eu vou indo nesse relâmpago de solidão, meu bem...
Foi tudo rápido cometa
Entre nós dois
Mas deu tempo de te fazer um relicário
Guardando o beijo longo do adeus...
E eu vou indo...
Eu tenho de ir
Moro no vento
No arco
Íris do teu olhar
Te deixo
Esse gosto do Atlântico
Que é conquista e travessia
E vai te fazer pulsar sem mim
Te deixo a minha boca
Ardida, desvairada e perdida
Que paira no teu peito, ar e mar...
Eu tenho de ir
A maré baixou
O encanto do gandavo
Tem hora certa para a dor
Para o "para sempre"
Perdido no fim de nós dois...
Me deixa ir
Que eu levo os sapatos e a escada
E deixo todas as estrelas de princesa coroada
Neste teu cetro incerto e desejado
Dentro de mim
Te deixo as melhores cartas do baralho
E você joga seu destino
Sem mim
Um dia a gente ainda se olha
E é tempestade por aí
Na nossa quentura
Do que não acaba jamais...
Me deixa ir
Que sou meio sereia
Vou ficando pelo mar
Você é meio capitão
Sempre dá para reencontrar
Antes de naufragar
Toma tudo de mim
O que me contém
Minha geografia em tuas mãos
Meu além
E eu vou indo nesse relâmpago de solidão, meu bem...
Foi tudo rápido cometa
Entre nós dois
Mas deu tempo de te fazer um relicário
Guardando o beijo longo do adeus...
E eu vou indo...
sexta-feira, 15 de fevereiro de 2008
Desculpe, foi engano...
Engano meu, querido leitor, o crédito do texto "Eu sei, mas não devia". Minha Maria leu e veio correndo como uma criança de cachinhos ao vento me dizer "mãe, o texto não é da Clarice, é da Marina Colasanti". Talvez não seja tarde, embora seja confuso dizer: eu bem que desconfiava. É um texto parecido com Clarice, todavia diferente de Clarice...
Semana que vem trago nova postagem, não sei se novo texto, e nem sei se meu, que ando escrevendo pouco - pra não dizer escrevendo nada... Talvez um do Padre Antônio Vieira - encontrado junto ao da Marina Colasanti, no mesmo arquivo morto das cinzas do carnaval e durante uma mudança de endereço - que fala sobre o poder do tempo. Que sorte encontrar coisas assim para nos consolar quando se tem que deixar uma casa que a gente ama ainda que não seja nossa. Pelo menos o novo endereço tem mangueiras e vento do rio, que eu não sei o que seria de minha literatura se eu não tivesse uma grande janela para contemplar todo dia o infinito.
Sei que as postagens têm envelhecido por aqui. Mas as novas palavras hão de brotar, é uma questão de tempo. Assim me promete o Padre Antônio Vieira.
Semana que vem trago nova postagem, não sei se novo texto, e nem sei se meu, que ando escrevendo pouco - pra não dizer escrevendo nada... Talvez um do Padre Antônio Vieira - encontrado junto ao da Marina Colasanti, no mesmo arquivo morto das cinzas do carnaval e durante uma mudança de endereço - que fala sobre o poder do tempo. Que sorte encontrar coisas assim para nos consolar quando se tem que deixar uma casa que a gente ama ainda que não seja nossa. Pelo menos o novo endereço tem mangueiras e vento do rio, que eu não sei o que seria de minha literatura se eu não tivesse uma grande janela para contemplar todo dia o infinito.
Sei que as postagens têm envelhecido por aqui. Mas as novas palavras hão de brotar, é uma questão de tempo. Assim me promete o Padre Antônio Vieira.
quinta-feira, 7 de fevereiro de 2008
Eu sei, mas não devia
"Eu sei que a gente se acostuma. Mas não devia. A gente se acostuma a morar em apartamentos de fundos e a não ter outra vista que não as janelas ao redor. E porque não tem vista, logo se acostuma a não olhar para fora. E porque não olha para fora, logo se acostuma a não abrir de todo as cortinas. E porque não abre as cortinas logo se acostuma a acender cedo a luz. E a medida que se acostuma, esquece o sol, esquece o ar, esquece a amplidão. A gente se acostuma a acordar de manhã sobressaltado porque está na hora. A tomar o café correndo porque está atrasado. A ler o jornal no ônibus porque não pode perder o tempo da viagem. A comer sanduíche porque não dá para almoçar. A sair do trabalho porque já é noite. A cochilar no ônibus porque está cansado. A deitar cedo e dormir pesado sem ter vivido o dia. A gente se acostuma a esperar o dia inteiro e ouvir no telefone: hoje não posso ir. A sorrir para as pessoas sem receber um sorriso de volta. A ser ignorado quando precisava tanto ser visto. A gente se acostuma a pagar por tudo o que deseja e o de que necessita. E a lutar para ganhar o dinheiro com que pagar. E a pagar mais do que as coisas valem. E a saber que cada vez pagará mais. E a procurar mais trabalho, para ganhar mais dinheiro, para ter com que pagar nas filas em que se cobra. A gente se acostuma à poluição. Às salas fechadas de ar condicionado e cheiro de cigarro. À luz artificial de ligeiro tremor. Ao choque que os olhos levam na luz natural. Às bactérias de água potável. A gente se acostuma a coisas demais, para não sofrer. Em doses pequenas, tentando não perceber, vai afastando uma dor aqui, um ressentimento ali, uma revolta acolá. Se a praia está contaminada a gente molha só os pés e sua no resto do corpo. Se o cinema está cheio, a gente senta na primeira fila e torce um pouco o pescoço. Se o trabalho está duro a gente se consola pensando no fim de semana. E se no fim de semana não há muito o que fazer a gente vai dormir cedo e ainda fica satisfeito porque tem sempre sono atrasado. A gente se acostuma para não se ralar na aspereza, para preservar a pele. Se acostuma para evitar feridas, sangramentos, para poupar o peito. A gente se acostuma para poupar a vida. Que aos poucos se gasta, e que gasta de tanto se acostumar, e se perde de si mesma."
Texto vivíssimo de Marina Colasanti, encontrado em um arquivo morto, nas cinzas do carnaval...
segunda-feira, 28 de janeiro de 2008
La dolce vita
Sim, preciso confessar antes de dormir: conheço os ventos encanados de que fala Mario Quintana, aprendi um dia a fazer sapos de papel e depois esqueci, e morro de saudade dos sapatinhos brancos de verniz que usava quando tinha cinco anos. São três coisas doces na minha vida, que entre outras doçuras, me amparam dos eventuais desencantos. A lembrança dos ventos encanados me trazem de volta o cheiro da infância numa casa cujo porão abrigava o fantasma de Nina. O origami entrou em minha vida com a descoberta do amor por um menino japonês, quando tinha 12 anos. Mas esqueci como se arquitetava em papel tão logo o efêmero amor voltou para o Japão. Quanto aos sapatinhos, tinha dois ou três deles, mas era o branco que me proporcionava a ilusão de ser anjo. Não sei por que forças incompreensíveis e infinitas o diálogo com as coisas doces fica cada vez mais difícil, mas ainda se pode ter o consolo de saber que elas continuam existindo. Sei disso porque surpreendi algumas delas nos últimos dias... Numa noite recente, Nilson Chaves cantava no teatro "Noites com sol", do Flávio Venturini, e ao meu lado, um homem que não conheço aparou com uns dedos trêmulos uma lágrima furtiva de cada lado de seu rosto. E eu, que tenho carregado uns olhos secos por acreditar que dificilmente se recuperará a ternura que se perde todo dia um pouco, tive vontade de acender um sol na noite para aquele homem que se permitia emocionar-se com uma canção. Doce.
Neste domingo, depois de ver os filhotes de minha doce Sofia abrindo os olhos pela primeira vez, recebo as palavras encantadas de Margarida C. Primeiro numa visita ao texto "Um ano zen", depois em seu próprio blog, Carnets de Lisbonne 2008, a segunda casa de suas palavras - a primeira é a sua alma infinitamente poeta. "Para Rojanski", diz Margarida, e faz minha alegria ficar acordada até agora, que já nem é mais domingo. Margarida me é doce nesta noite.
domingo, 20 de janeiro de 2008
Campo de vaga-lumes
Um texto da gaveta, lembrado neste domingo de chuva
em que as árvores gotejam mangas...
Parecia um campo de pequenas flores fosforescentes, ou uma constelação que tivesse descido de sua imensa distância de anos-luz. E era na verdade um campo de vaga-lumes, que se estendia por quilômetros de beira de estrada, iluminando os confins da nossa viagem sem lua.
A foz do rio e a brava pororoca haviam ficado para trás há poucas horas, quando a chuva de todo um janeiro resolveu tombar impiedosa sobre as nossas costas. Em cinco horas de viagem rio acima, embora algumas aves noturnas principiassem a se exibir como se fosse noite, e as capivaras saíssem das tocas faiscando os olhos, e ainda as palmeiras se curvassem sobre o rio, vergadas ao peso da intempérie, encharcados sob o frio havíamos adormecido em nós a poesia. Desejávamos apenas chegar à margem que nos esperava, sonhávamos com um sol que nos desse o conforto do calor pelo resto da viagem.
Então descemos, ao final da tarde, na calmaria da margem pedregosa e palidamente ensolarada do rio Araguari, e depois de um breve descanso pegamos a estrada noturna que nos levaria à região dos lagos do Amapá, passando pelo campo de vaga-lumes.
Era noite quando começamos a ver os pequenos pontos fosforescentes à beira da estrada. Foi quando tivemos, como poucas vezes em toda a vida, a chance de voltar à infância. De mãos espalmadas nas vidraças do automóvel, ficamos ali parados, olhando o espetáculo, como quando crianças olhávamos as coisas que nos hipnotizavam de encantamento.
Um campo, um imenso campo se estendia até onde a vista não alcançava, de vaga-lumes que se moviam como impelidos pelo vento outonal da Amazônia noturna sobre a vegetação rasteira. Pareciam pequenas flores que se esquivassem sutilmente à intenção de colheita. E era o recôndito desejo que guardava cada um de nós: colher, ainda que fosse apenas uma.
Aos poucos, ao passo lento do automóvel cujos faróis rompiam as nuvens de poeira deixadas atrás dos caminhões apressados vindos de Oiapoque, os vaga-lumes – poeira das estrelas polidas por Deus, segundo os indígenas – foram rareando, até que ficaram na paisagem apenas as corriqueiras estrelas, tão antigas quanto o mundo, a nos dizer que um campo de vaga-lumes é pra se ver na vida uma só vez.
A foz do rio e a brava pororoca haviam ficado para trás há poucas horas, quando a chuva de todo um janeiro resolveu tombar impiedosa sobre as nossas costas. Em cinco horas de viagem rio acima, embora algumas aves noturnas principiassem a se exibir como se fosse noite, e as capivaras saíssem das tocas faiscando os olhos, e ainda as palmeiras se curvassem sobre o rio, vergadas ao peso da intempérie, encharcados sob o frio havíamos adormecido em nós a poesia. Desejávamos apenas chegar à margem que nos esperava, sonhávamos com um sol que nos desse o conforto do calor pelo resto da viagem.
Então descemos, ao final da tarde, na calmaria da margem pedregosa e palidamente ensolarada do rio Araguari, e depois de um breve descanso pegamos a estrada noturna que nos levaria à região dos lagos do Amapá, passando pelo campo de vaga-lumes.
Era noite quando começamos a ver os pequenos pontos fosforescentes à beira da estrada. Foi quando tivemos, como poucas vezes em toda a vida, a chance de voltar à infância. De mãos espalmadas nas vidraças do automóvel, ficamos ali parados, olhando o espetáculo, como quando crianças olhávamos as coisas que nos hipnotizavam de encantamento.
Um campo, um imenso campo se estendia até onde a vista não alcançava, de vaga-lumes que se moviam como impelidos pelo vento outonal da Amazônia noturna sobre a vegetação rasteira. Pareciam pequenas flores que se esquivassem sutilmente à intenção de colheita. E era o recôndito desejo que guardava cada um de nós: colher, ainda que fosse apenas uma.
Aos poucos, ao passo lento do automóvel cujos faróis rompiam as nuvens de poeira deixadas atrás dos caminhões apressados vindos de Oiapoque, os vaga-lumes – poeira das estrelas polidas por Deus, segundo os indígenas – foram rareando, até que ficaram na paisagem apenas as corriqueiras estrelas, tão antigas quanto o mundo, a nos dizer que um campo de vaga-lumes é pra se ver na vida uma só vez.
terça-feira, 15 de janeiro de 2008
O Amor nos Tempos do Cólera
Por enquanto tenho me contentado em “ouvir falar” sobre o filme O Amor nos Tempos do Cólera, mas tudo indica que meus sentidos não perdem por esperar que o filme chegue um dia ao cinema desta minha província. Meus olhos e ouvidos já se encantam com o trailer, que não canso de reprisar na internet. Antevejo em sonho o que acredito ter saído como resultado da bárbara história de amor de Florentino Ariza e Fermina Daza, personagens inesquecíveis de Gabriel García Márquez, que finalmente entregou uma de suas maiores criações a uma grande produção estrangeira. Algumas de suas obras filmadas anteriormente, como Ninguém Escreve ao Coronel, A Incrível e Triste História da Cândida Erendira e sua Avó Desalmada e A Má Hora – as duas últimas filmadas pelo brasileiro Ruy Guerra – não agradaram de todo ao escritor.
Embora Fernanda Montenegro tenha sido sondada para o papel de Fermina Daza, na maturidade da personagem, “ouvi dizer” que a secundária Trânsito Ariza, mãe de Florentino Ariza, o mocinho do filme, lhe caiu como uma luva, já que ela faz bem tudo o que faz. Outra coisa interessante no filme é a colombiana Shakira cantando La Despedida.
Estou, sim, me coçando pra ver logo o filme, e enquanto ele não mostra a cara por estas paragens, vou relendo trechos do livro. Aliás, de antemão acho que, por melhor que seja o filme, não deverá superar a beleza, a magia e a transcendência do livro mais lido de G. G. Márquez depois de Cem Anos de Solidão. Um trechinho pra revigorar os ânimos enquanto se espera...
“Florentino Ariza não deixara de pensar nela um único instante desde que Fermina Daza o rechaçou sem apelação depois de uns amores contrariados, e haviam transcorrido desde então cinqüenta e um anos, nove meses e quatro dias. Não tivera que manter a conta do esquecimento fazendo uma risca diária nas paredes de um calabouço, porque não se havia passado um dia sem que acontecesse alguma coisa que o fizesse lembrar-se dela”.
Embora Fernanda Montenegro tenha sido sondada para o papel de Fermina Daza, na maturidade da personagem, “ouvi dizer” que a secundária Trânsito Ariza, mãe de Florentino Ariza, o mocinho do filme, lhe caiu como uma luva, já que ela faz bem tudo o que faz. Outra coisa interessante no filme é a colombiana Shakira cantando La Despedida.
Estou, sim, me coçando pra ver logo o filme, e enquanto ele não mostra a cara por estas paragens, vou relendo trechos do livro. Aliás, de antemão acho que, por melhor que seja o filme, não deverá superar a beleza, a magia e a transcendência do livro mais lido de G. G. Márquez depois de Cem Anos de Solidão. Um trechinho pra revigorar os ânimos enquanto se espera...
“Florentino Ariza não deixara de pensar nela um único instante desde que Fermina Daza o rechaçou sem apelação depois de uns amores contrariados, e haviam transcorrido desde então cinqüenta e um anos, nove meses e quatro dias. Não tivera que manter a conta do esquecimento fazendo uma risca diária nas paredes de um calabouço, porque não se havia passado um dia sem que acontecesse alguma coisa que o fizesse lembrar-se dela”.
sexta-feira, 11 de janeiro de 2008
Um ano zen
Fernando Pessoa tinha toda razão: “O valor das coisas não está no tempo que elas duram, mas na intensidade com que acontecem. Por isso existem momentos inesquecíveis, coisas inexplicáveis e pessoas incomparáveis”. Pois é isto. Acabo de regressar de um período bem curto de retiro para o meio do matão amazônico, onde um rio de águas pacíficas lembra o rio de águas diáfanas de Macondo, onde a casinha de minha mãe parece ter escolhido o melhor lugar sob as nuvens que se desmancham em chuvas todas as tardes, e quase não percebo que outro ano chegou. É um lugar onde não se tem tempo de prestar atenção ao tempo que parece eternizado nas ruazinhas cor de poeira que se arrastam montanhas acima, nas cabeças tristes das vacas que também parecem, desde dez anos atrás, plantadas no mesmo lugar, na chuva que encharca devagar as cercas de tábuas e infesta o ar de um cheiro de terra e minhoca e madeira nova, na enxurrada que arrasta as acerolas e as fezes das galinhas que se ouriçam sob as hortas suspensas. Minha mala, que transportou para lá uns livros “mais áridos do que três desertos”, retorna para casa cheia de saudade desse tempo calcificado onde a intensidade das coisas possui outras medidas, outro gosto e outros verbos. Agora que chego é que vejo que é janeiro outra vez. Mas é tarde: o tempo já tem outro significado. E já que ainda assim as convenções obrigam a contá-lo, trato de consultar logo as previsões para Cavalo neste ano do Rato. Prometem-me um ano zen. Ótimo, mesmo que lá pelas tantas ele se apresente cin-zen-to.
domingo, 16 de dezembro de 2007
A quem interessar possa
Embora tenham acontecido também coisas que me proporcionaram extrema felicidade, de qualquer modo já vais tarde, 2007! Estou em férias, volto em janeiro. Vou viajar, levar livros na bagagem, poesia no coração, e sobretudo a decisão de nunca mais correr atrás de uma borboleta - mas cultivar meu jardim para que muitas borboletas venham. “A vocês eu deixo o sono. O sonho, não! Este eu mesmo carrego!”
E para agradecer pelas visitas e alegrar os coraçõezinhos dos meus quatro ou cinco leitores, deixo um pouco do alento de Caio Fernando Abreu...
Alento
Quando nada mais houver,
Alento
Quando nada mais houver,
eu me erguerei cantando,
saudando a vida com meu corpo de cavalo jovem.
E numa louca corrida
entregarei meu ser ao ser do Tempo
e a minha voz à doce voz do vento.
Despojado do que já não há
solto no vazio do que ainda não veio,
minha boca cantará
cantos de alívio pelo que se foi,
cantos de espera pelo que há de vir.
quinta-feira, 13 de dezembro de 2007
Encontro com Thiago
Thiago de Mello, poeta de Os Estatutos do Homem, me dizendo uma das melhores coisas que já ouvi na vida: "Você é uma pessoa que tem luz." Nunca mais vou me esquecer disso, e provavelmente, daqui em diante vou usar esta luz pra encontrar coisas melhores pela vida. E já encontrei este poema numa agenda esquecida. De Thiago de Mello:
Contigo aprendi
que o amor reparte
mas sobretudo acrescenta,
com o teu jeito de andar pela cidade
como se caminhasses de mãos dadas com o ar,
com o teu gosto de erva molhada
com a luz dos teus dentes
tuas delicadezas secretas
as alegrias do teu amor maravilhado...
inesperada como um arco-íris
partindo ao meio
unindo os extremos da vida
mostrando a verdade como uma fruta aberta.
sexta-feira, 23 de novembro de 2007
Anjo torto

Meu anjo cativo não me chamava mais de Maria, não fazia mais versos nem mais pousava na árvore que nos dias mais felizes do inverno chovia palavras. Quis ir embora antes que viessem as chuvas, antes que as dobradiças da porta de nossa velha casa rangessem ao peso da estação, e sua alma se compadecesse pela casa, e precisasse ficar por amor à casa. Eu disse vai, anjo torto, eu abro a porta para ti. Leva contigo tua mágoa, tua mentira anacrônica, tua preguiça invencível e teu pente de marfim. Vai, com tuas relíquias de cego, teus gestos de náufrago, tua mobília irrisória e o cajado invisível com que tanges teu cão infeliz. Leva a sede congênita de tantas noites insones, tua auréola de barro e os cupins de estimação... Eu fico, com minhas culpas, meus colares de contas, minha alegria roubada e meu medo de dormir. O anjo triste levou minha verdade incompleta, as máscaras da parede e o retrato de um menino entre os jasmins. Teve um olhar desumano sobre a minha confusão, sobre as minhas conjecturas, sobre o meu amargo perfil. Deixou sua sombra corcunda, um poema pela metade, seu itinerário vazio. Era bem sua hora de ir. Disse que estávamos mortos. E eu lhe disse que sim, como quem pudesse dizer o indizível. Saiu com a solidão do seu vício e da rua da sua infância, com a certeza do desamor e o desejo irrevogável de morrer. Deixou-me com minhas vírgulas, minha coleção de adjetivos, tecendo outros na escuridão. Levou o cigarro voraz da hora imóvel da madrugada, seu par de sapatos de corda e o navio libertário que conduzia seu destino em sonhos. Minha alma sentenciada disse vai, anjo errante, eu abro a porta para ti. E o anjo então se foi, arrastando as asas de papelão.
domingo, 11 de novembro de 2007
Porta-retratos
Série Breves O porta-retratos estava abandonado há dias sobre o divã em sua sala. Nele, minha fotografia de três anos atrás, feita ao acaso, olhar distraído, mas feliz. Mais um dia fora de seu lugar e meu próprio rosto na fotografia poderia adquirir a expressão triste do abandono. Ele entrou com a animação de quem traz um presente, e tirou da pasta sob o braço um documento recém-impresso, cheirando à árvore e tinta. Antecipei um sorriso largo, antevendo o agrado. Como quem se prepara para mostrar uma relíquia, ele arredou o porta-retratos com dedos indiferentes, sentou-se no divã e me exibiu o pedigree do seu cão. O atestado da formidável linha de ancestralidade do seu animal. Olhei para ele com toda a intensidade, mas também com toda a serenidade que podia, e sem a menor sombra de incerteza, recomendei-lhe que o colocasse no porta-retratos.
quarta-feira, 7 de novembro de 2007
A solidão segundo o astronauta
Este fragmento do romance A Solidão Segundo o Astronauta, de Joca Reiners Terron, é uma das coisas mais tocantes entre o que tenho lido nos últimos tempos. Deu uma vontade enorme de compartilhar, como um amigo de Nélson Rodrigues, que ao ler Charles Dickens, teve vontade de sair de porta em porta anunciando: “Não espere mais. Leia já o ‘Pickwick’. Quem não leu o ‘Pickwick’ não viveu!”“Um homem precisa primeiro soltar-se da placenta original, entre nódoas de sangue e lágrimas, em meio aos calores surgidos do atrito ainda desconhecido da pele, e rumar ao sol, à luz inaudita e abrasadora de um sol que cega os olhos inertes e desabituados a ver, para depois de novo ser afogado nas fezes, já liberto e uno, os joelhos sobre a grama dos jardins da primeira infância, gritos de prazer inocentes varando noites e os ouvidos do pai, os inebriantes fedores maternos ocupando todo o espaço em torno e então conviver com os pesares do crescimento, a espinha dorsal despontando ao céu, para assim outra vez estar só, habitando o mundo, solitário, com a vida apenas para si, e depois novamente se unir a outro corpo, em busca daquela dualidade da origem, e misturar-se com ele, para então mais uma vez cindir e se ver sozinho. Na merda.”
domingo, 4 de novembro de 2007
Recado a João
Basta, João, basta de tocar violão na minha porta. Não quero ouvir mais esses teus acordes mal tocados, porque eles me doem no sangue. Se pelo menos tu soubesses, João, tocar uma promessa de noite enluarada, como consolo às intermitências da solidão. Mas tu só sabes dizer desse amor que não quero te dar, dizer que queres te matar. Pois quanto mais tu tocas menos te quero e mais estou só... E sempre esta música que diz que nunca chegas a mim! Tu não me fazes feliz tocando, João. Pra falar a verdade, tu tens sido o meu inferno. Se quiseres te matar, eu não ligo, mas não é justo que passes as noites trazendo de volta no desvario destas notas as coisas que foram e nunca mais serão. Cala essa tua música doída, porque não posso mais fechar a porta da rua, por onde espero a chegada de um dia melhor. Pensando bem, não te mates. Não te mates nunca, que eu até que te gosto. Apenas não toque mais, João.
domingo, 14 de outubro de 2007
Febre
Ele chegou no meio da vaga viagem pela noite. Trazia nas mãos um instante de febre e na boca uma tormenta para trocar pelo refúgio sob o meu vestido. Meu silêncio pediu apenas um momento de espera antes que entrasse, antevendo o risco e a delícia, mas seus dedos passeavam já pela geografia de minha nuca, descobrindo no tato o cheiro da rosa fresca, nascida na última manhã. Arrisquei um gesto desatado da palavra, os lábios ensaiando uma letra incógnita, aonde sua língua veio certeira encaixar-se, num movimento antecipado ao sim. Abandonei-me. Mãos sorrateiras, tentáculos de hera, se espalharam sem destino traçado, encontrando em breves percursos minhas entranhas em tempestade, seu falo em abalo sísmico. É a morte, ainda pensei, enquanto sua febre me desnudava na travessia incerta entre o corredor e o apocalipse. Agora o encontro marcado desde a porta. Os quadris do macho rompendo as sombras entre as pernas postas da fêmea, seus dedos opressivos maculando a alvura cósmica das costas, a boca lasciva em desvario entre o ouvido e o colo, os cheiros de flor e líquidos anunciando a queda vertiginosa. Minutos insondáveis de confusão de línguas, pernas, cabelos, mãos, num descompasso sincronizado em que a urgência do final rompia as linhas do tempo, da vida, da morte, até o gozo em alta freqüência. O gozo. Foi quando a verdade da lâmpada obtusa nos revelou atônitos mergulhados em olhos, por um minuto milenar, na mudez das coisas do quarto, no rumor quarto minguante, em mútuo reconhecimento. Voltamos então ao princípio. Ao verbo. Sussurrou-me odores, um hálito de promessa, uma língua de veludo morno. A pele dizendo do súbito, da felicidade clandestina, do segredo inviolável. Ainda agora permaneço em silêncio obediente, na quietude abismal dos verdadeiros segredos, porque nesta noite ele virá, trazendo outra febre.
terça-feira, 9 de outubro de 2007
Florzinha de papel

Da série Breves Contos
_ Sabe o que eu fiz com aquela florzinha de papel de guardanapo branca e leve como a pena de um passarinho que você me deu depois de misturar uns camparis com cerveja e dizer na frente de todo mundo que eu era gostosa que eu era “bonita pra burro” pensando que eu ia me impressionar só porque sabia de cor o Rondó de Efeito do Manuel Bandeira e ainda ter dito como se fosse a filosofia mais incrível que gosta mesmo é de viver como um cão sem dono sem precisar se dar pra ninguém e ter achado a maior graça do mundo quando eu disse olhando para o nada que tem gente que acha bonito ser canalha porque afinal de contas o Nélson Rodrigues veio com a idéia estapafúrdia de que ser canalha tinha poesia só que isso era nos anos 50 ou 40 não sei e todos os canalhas do Nélson caíram em desgraça mas você só prestou atenção nas partes em que eles tinham o mundo aos seus pés porque sabiam inventar verdades pra seduzir com os olhos mais limpos do mundo então você fez cara de sentimental com olheiras e disse com o maior cinismo que além da flor tinha pra mim umas pastilhas purgativas e nessa hora eu tive vontade de dizer só que fiquei sem graça e não disse que você está mais pra “O grande mentecapto” do que pra Don Juan com essa patética florzinha de papel que fica distribuindo pra qualquer fêmea desavisada que em pleno século vinte e um ainda acredita na sensibilidade do macho? Joguei na primeira poça de lama que encontrei quando fui embora.
domingo, 7 de outubro de 2007
Curta-metragem

De uma série de breves contos
Ela acendeu o último cigarro e fumou devagar. Prolongava sempre o prazer do último cigarro. A boquinha rosada, engelhando-se como um cuzinho ao contato com o filtro, movia-se fluida a exibir intelectualidades. “O melhor que vi foi do Godard”, disse, pensando que ao olhar a boquinha eu prestasse atenção ao que dizia. “Je vous salue, Marie”, concluiu, depois apenas se entregou ao gozo das mansas tragadas. “O melhor que vi está aí no telefone celular”, disse-lhe, juntando um pouco de sarcasmo, um pouco de tesão. Pegou o aparelho, certamente pensando na estranheza de eu achar mais interessante que Godard um daqueles breves vídeos sobre os acasos. Localizou as imagens feitas na véspera. Eu, macho ao último grau, em descarada cópula com a amante mais recente. Curtíssima metragem. Quatro segundos pré-gozo. Seis da sublime desmesura do gozo. Cinco de créditos aos suspiros e risos. “Godard é mais delicado, por isso mais macho”, ela disse apenas, sem mudar a expressão da boquinha rósea, desmontando meu cinismo e extraindo do fim do cigarro um último instante de prazer.
quarta-feira, 3 de outubro de 2007
“If you really want to touch someone… send them a letter”

Texto de Margarida C.
“A escrita é a única coisa que não se evapora. A única que não se tem jamais como negar ou tomar de volta. Ao limite, é assim como a derradeira generosidade de que ainda fomos capazes quando já não éramos capazes, acaso um dia o fim nos toque, seja por escolha ou ‘por magia’. É por isso que, de uma forma ou de outra, mais ou menos, melhor ou pior, eu escrevo. Escrevo sempre. Para que no auge de um qualquer ímpeto não leve tudo comigo quando me for embora. É o garante que ofereço aos outros de que, pelo menos, há de haver sempre qualquer coisa que lhes deixo, ainda que contra a minha vontade de nada consentir que lhes fique.”
“E é igualmente por isso que desconfio de todos os que nunca me escreveram nada. Um dia, se a vida nos separar, nem sequer o vago abraço das palavras terão consentido que ficasse comigo. Não é justo. E, por não ser justo, rebelar-me-ei sempre a que seja recíproco.”
Do blog Carnnets de Lisbonne 2007
carnnetsdelisbonne2007.wordpress.com
segunda-feira, 1 de outubro de 2007
Primeiras Chuvas

Memória
Aos nove anos tive meu primeiro contato com minha morte. Com a morte dos outros o contato foi anterior. Nina, por exemplo, a esquálida tuberculosa que morreu num quartinho abjeto ao lado de minha casa, vinha todas as tardes sentar-se à sombra de minha árvore, de onde me olhava com saudade da vida. Mas no improvável tempo de meus cinco anos, achava que todos os fantasmas humanos eram inofensivos. Aos nove, tinha medo da chuva. Foi a chuva o meu verdadeiro fantasma. Acreditava que qualquer garoa podia mudar de repente de humor e violar minha janela, minha cama, minhas cobertas.
Havia mesmo chuvas indomáveis, sempre na madrugada, que não se intimidavam em arrancar árvores do lugar, derrubar paredes, lançar ao chão telhados inteiros e tirar para sempre o nosso sono. Na manhã, eu ia para as ruas testemunhar a ressaca, e tinha pena e fascínio pelas casas destruídas, pela tristeza dos desabrigados, pelo desamparo dos quintais cheios de enormes galhos e cercas caídas.
Foi numa madrugada assim que a morte me acenou pela primeira vez. Na tormenta mais feroz daquele ano, os trovões explodiam em meu quarto, estremecendo a cama e acordando em mim um sentimento de orfandade. De olhos nos clarões que se abriam entre a mobília, eu pensava que aqueles relâmpagos tinham uma fúria que não era desse mundo, via o final dos tempos, e me encolhia diante da certeza de que um tufão me arrancaria da cama, me levando para a morte. E antes de completar 10 anos. Abandonei minha cama e me aninhei junto a meu irmão, cujo pequeno corpo ardia em febres de medo. Não sei quanto tempo se passou naquela madrugada antes que um tronco perdido na ventania abrisse um buraco na parede de tábuas e se alojasse em minha cama, onde a morte esperava me encontrar.
Do fundo das cobertas de meu irmão, pelo resto da noite vi pelo buraco a tempestade arremessando-se contra o mundo. Os que moravam na casa passaram a me olhar como se eu tivesse qualquer coisa de santo. Eu não. Mas depois disso as “chuvas tempestivas” e as “ventanias soltas” nunca mais me fizeram medo. Pelo contrário. Passamos a viver uma história de amor. Eterno.
Assinar:
Postagens (Atom)




