quarta-feira, 17 de setembro de 2008

Papillon


Série Breves Contos


Ilustrado com tela de René Magritte


Tirou dos pés os sapatos e tocou a transpor o campo indivisível de florezinhas púrpuras na beira de um rio azul da França, a alma insustentável dentro do corpinho impúbere, do vestido bordado em borboletas sobre o fundo branco. Desejou ser pássaro, vento, beija-flor safira que percorresse o campo numa velocidade vertiginosa e a leveza de um coração de quatro gramas, ao encontro da mansa chuva de pedras preciosas que havia depois do arco-íris. Com seu olhar de beija-flor em vôo, viu os roedores que subiam árvores à sua passagem, pares de asas surreais sumindo no horizonte como miragens, viu as flores novas brotando entre as antigas, e ao abaixar-se para apanhá-las, viu os próprios seios nascidos na última manhã. Mas não viu o bando de borboletas que a perseguia desde a partida, voejando entre as violetas o seu tempo de reprodução, a sua fome de flor e seu errante destino. Transpunha o último arbusto, pensando em retomar a viagem ao arco-íris na próxima manhã, e mal percebeu – beija-flor projetando o vôo em três direções – a revoada das borboletas que alçaram vôo de seu vestido para juntar-se à onda incólume de borboletas que viajava rumo ao fim das fronteiras. De vestido agora branco, a alma insustentável e o coração de beija-flor em repouso, tocou a transpor de volta o campo indivisível de florezinhas púrpuras, à beira de um rio azul da França.
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segunda-feira, 15 de setembro de 2008

O louco e a primavera

Da série Breves Contos

Ilustrado com tela de René Magritte


O mendigo itinerante que naquela manhã morava na praça da Bandeira adormeceu no frescor do amontoado de folhas secas sob a amendoeira, e sonhou que de sua cabeça e dos vãos dos dedos de seus pés e de suas mãos brotavam flores. Acordou em pleno outono, com o sorriso cheio de brisas e uns olhos transbordantes de primavera, despetalando os próprios cabelos como se fossem azaléias.


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quinta-feira, 11 de setembro de 2008

Os deuses


Da série Breves Contos.



Ilustrado por tela de René Magritte.


Depois de nove dias e nove noites pendurado de cabeça para baixo na árvore do conhecimento, Odin, rei dos deuses, estava preparado para comandar o exército de guerreiros mortos em batalha, para proteger os magos, os andarilhos e os que nascem na quarta-feira. Descansava em seu trono, de onde podia avistar o mundo todo, junto aos seus dois corvos, seus dois lobos e ao seu incrível cavalo de oito patas, todos se deleitando à visão das doze virgens aladas que recolhiam os mortos dos campos, quando a deusa Iduna, guardiã do pomar sagrado, chegou derramando sorrisos e o convidou para comer cogumelos alucinógenos atrás das moitas de amoras selvagens do pomar. O deus da morte e da sabedoria olhou no fundo dos olhos de Iduna, e sem pensar por mais de três segundos, seguiu atrás de seus passos, pensando em quanto teria sido melhor ter passado os nove dias e as nove noites pendurado àquela mulher. De cabeça para baixo.
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segunda-feira, 8 de setembro de 2008

Canção da Primavera

Para Margarida C, ainda que não seja primavera, nem aqui, nem em Lisboa. Mas é setembro...

Primavera cruza o rio
Cruza o sonho que tu sonhas.
Na cidade adormecida
Primavera vem chegando.

Catavento enloqueceu,
Ficou girando, girando.
Em torno do catavento
Dancemos todos em bando.

Dancemos todos, dancemos,
Amadas, Mortos, Amigos,
Dancemos todos até
Não mais saber-se o motivo...

Até que as paineiras tenham
Por sobre os muros florido!

Mário Quintana

quarta-feira, 27 de agosto de 2008

A hora do riso

Fazia tempo que eu não via televisão. Ver, via, o aparelho desligado, empoeirado, relegado ao silêncio cósmico dos objetos abandonados... Fazia tempo que eu não assistia à televisão, mas o horário reservado à propaganda eleitoral me instigou a ligar o aparelho e me deitar na cama munida de um saquinho de jujuba. Não, não foi necessário que os corajosos candidatos começassem a aparecer para a minha diversão dar partida. Vi pela primeira vez outra campanha que está no ar, a da Justiça Eleitoral, e não tive a menor dúvida quanto ao seu objetivo. Esclarecer? Conscientizar? Nada! Eles querem fazer graça. Desde os dias em que eu tinha dores no esôfago porque engolia ar de tanto rir na frente dos episódios de Friends que eu não ria tanto. Da abelha no ouvido, do choro ao toque do celular, mas de uma das peças em particular: a do homem que passa quatro anos sapateando toda vez que fica nervoso. Quase engasguei com uma jujuba de uva. A Justiça Eleitoral me conquistou, e eu sei que isso era tudo o que ela queria. Juro que dessa vez vou votar direito. Embora na esquerda...

sábado, 23 de agosto de 2008

Sobre o Velho Graça


Uma das minhas grandes admirações se chama Graciliano Ramos. Li Infância, Insônia, Vidas Secas, São Bernardo e Memórias do Cárcere. E depois de Angústia, passei muito tempo sem querer ler mais nada. Achava que nenhuma literatura além daquela valia a pena. Queria morrer. Queria nunca mais escrever. E ao mesmo tempo queria afundar nas páginas do livro e misturar meu sangue à literatura tão perfeita. Os solilóquios íntimos de Luis da Silva tiveram efeito catastrófico sobre minha existência. A crise passou, mas minha admiração pelo Velho Graça continua intocada. Tenho em casa uma brochura da Coleção Brasiliana, da Editora Duetto, com os “Relatórios do Prefeito de Palmeira dos Índios”, uma verdadeira raridade, com textos que marcaram o início da carreira literária do escritor. Sim... é preciso ser muito bom pra conseguir encantar com o texto de um relatório oficial! Graciliano foi prefeito de Palmeira dos Índios, em Alagoas, no final da década de 1920. Durante seu mandato, enviou ao governador do Estado dois relatórios de prestação de contas, escritos da maneira mais inusitada para um texto oficial. Entenda bem: até como prefeito Graciliano foi um formidável escritor! Fragmentos do relatório:

O início da administração
“Havia em Palmeira inúmeros prefeitos: os cobradores de impostos, o Comandante do Destacamento, os soldados, outros que desejassem administrar. (...) Os fiscais, esses, resolviam questões de polícia e advogavam. Para que semelhante anomalia desaparecesse, lutei com tenacidade e encontrei obstáculos dentro da prefeitura e fora dela – dentro, uma resistência mole, suave, de algodão em rama; fora, uma campanha sorna, oblíqua, carregada de bílis. Pensavam uns que tudo ia bem nas mãos de Nosso Senhor, que administra melhor do que todos nós; outros me davam três meses para levar um tiro.”

Iluminação pública
“A Prefeitura foi intrujada quando, em 1920, aqui se firmou um contrato para fornecimento de luz. Apesar de ser um negócio referente à claridade, julgo que assinaram aquilo às escuras. É um bluff. Pagamos até a luz que a lua nos dá.”

Telegramas
“De ordinário vai para eles dinheiro considerável. (...) Porque se derrubou a Bastilha – um telegrama; porque se deitou uma pedra na rua – um telegrama; porque o deputado F. esticou a canela – um telegrama. Dispêndio inútil. Toda a gente sabe que isto por aqui vai bem, que o deputado morreu, que nós choramos e que em 1559 D. Pero Sardinha foi comido pelos caetés.”

Conclusão
“(...) Não favoreci ninguém. Devo ter cometido numerosos disparates. Todos os meus erros, porém, foram da inteligência, que é fraca. Perdi vários amigos, ou indivíduos que possam ter semelhante nome. Não me fizeram falta. Há descontentamento. Se a minha estada na Prefeitura por estes dois anos dependesse de um plebiscito, talvez eu não obtivesse 10 votos. Paz e prosperidade.”

“Palmeira dos Índios, 10 de janeiro de 1929.”

segunda-feira, 18 de agosto de 2008

Passagem pela polícia

Mais uma pequena crônica sobre as meninas reais...

Pétala achou lindo ser presa. Foi recolhida por uma viatura da Polícia Militar na madrugada de uma terça-feira, quando dava inocentes voltinhas de carro ao redor de uma praça central, junto com quatro amigos adolescentes. Três meninos e uma menina de pijama, tirada da cama para passear. Só o motorista, Flavinho, era maior de idade, mas foi recolhido também porque transportava os menores, com a agravante de um estar de pijama. Todos foram recolhidos. Até o carro, com a documentação vencida. Pétala, Billy, Rodrigo e a do pijama numa moderna perua da Wolkswagen. Flavinho num camburão enferrujado. “Mas o que nós fizemos?” era a pergunta geral. E de cassetetes em punhos, os tiras os mandaram calar a boca e passar pra dentro da viatura. Direto para a Vara da Infância e Adolescência... ou Juventude, não sei. A caminho, descobriram, pela conversa entre os tiras, que tinham passado quatro vezes pela viatura parada, de plantão na praça, rindo de modo desvairado, como se fossem adolescentes. Despertaram suspeitas. “Suspeita de quê?” atreveu-se Pétala para o policial do volante. “De que são menores, ora...”. “Mas nós somos”, disse uma outra voz quase sumida, de dentro do pijama. Do fundo do camburão, pelo celular, Flavinho chamou o pai advogado. Que não se sabe por quais forças chegou à Vara da Infância antes das viaturas. Tudo esclarecido. Descobriu-se lá, que todos, menos Flavinho, eram menores dando umas voltinhas pela praça de madrugada... Só fiquei sabendo no dia seguinte, para a sorte de todos. Se dependesse de mim, teriam dormido no xadrez. O carro preso era o meu. Pétala passou a semana narrando a crônica policial, primeiro pra mim, depois para os amigos. Pessoalmente, pelo telefone, pela internet. E toda vez que passava por mim, ainda me gozava: “Tiras, mãe? Xadrez? Tu é muito sem noção...”

quarta-feira, 13 de agosto de 2008

Interrompendo a série...

Ando pensando seriamente em me mudar do Blogspot, por não ter descoberto ainda a difícil arte de instalar neste blog um contador de visitas. Não, eu não tenho a ilusão de que o Ave, Palavra! seja um endereço onde o leitor chega diariamente resfolegante de pressa para ler as eventuais bobagens que escrevo. Mas gostaria de saber se pelo menos sou visitada uma vez por dia! Meus três leitores, esses eu sei que aparecem por aqui de vez em quando, que queimam pestanas em torno do meu pobre latim, comem uns bolinhos de chuva, e me deixam gentis comentários. Não sei se há outros. Andei pensando também em trocar o nome do blog para algo mais atrativo, do tipo “Nós na Balada”, “Eu sou o cara”, “Muvuca”, porque conforme o último Censo, há muito mais gente que gosta de bandalheira do que de literatura. Mas a carga de pobreza seria pesada demais para as minhas costelas. E tudo para atrair leitores que não são nem de longe os que eu desejo ter... Depois, o que eu escreveria num blog com um nome desses em seu registro de nascimento? Não ando em baladas, que escritor que se preza, hoje e desde a Idade Média, gosta mesmo é de um bom boteco pé sujo – que obviamente é mais antigo que isso – apesar do exemplo de Vinicius de Moraes, que freqüentava as rodas acima das camadas de turbulência e só bebia uísque. Mas Vinicius podia. Era o cara. Já nós, do Ave, Palavra!, sentamo-nos no Empório do Índio e mastigamos as falanges pensando em estratégias miraculosas para atrair leitores... Ah, o blog poderia também se chamar “Diário Íntimo, Ilegal e Imoral”, e eu ia ter que rebolar pra inventar histórias que proporcionassem intenso prazer aos punhados de leitores. Paciência. Vamos ficando no Ave, Palavra!, sem saber quantos têm vindo.

domingo, 10 de agosto de 2008

Meninas reais

Esta pequena série de crônicas que começo a publicar hoje foi escrita há algum tempo, quando eu tentava escrever textos menos líricos, menos introspectivos – pra não dizer menos sentimentais – mas que acabaram resultando em algo que acabei considerando difícil publicar. Mudei de idéia. São textos sem mais compromisso que o de contar pequenas irrelevâncias diárias. Somente este primeiro foi publicado um dia, num blog cujo nome até esqueci, e foi lido, sem dúvida, pelos meus inumeráveis leitores de toda a pátria amada Brasil e alguns parentes da Cracóvia... A série, sem nome, é baseada em meninas reais.


Café e rock’n roll

Paula ouve rock às seis e meia da manhã, enquanto se apronta para a escola. Eu, enquanto faço o café, vou desmantelando a cozinha, procurando o açúcar que escondi das formigas. “Meu Deus, que música é essa, a uma hora dessas?”. Paula grita no banheiro, em língua indecifrável, acompanhando a melodia. “Essa guitarra não me é estranha...”, penso, e enfim o açúcar, na gaveta dos legumes, na geladeira. Cheio de formigas. A pirada sai do banheiro enrolada em três toalhas, enquanto os pés molhados vão deixando um rastro aquático até o quarto. “Por que ela não aprende a se enxugar antes de sair do banheiro?” Dou-me conta de que tenho me perguntado o mesmo todas as manhãs dos últimos dez anos – pelo menos – e tenho certeza de que vou continuar me perguntando. “Ela ainda diz que a maluca sou eu”. No quarto, a garota rock´n roll aumenta o som. “Essa música vai me enlouquecer”, digo pra mim em voz alta, sapecando os dedos na tampa do bule. Café pronto. Escondo o açúcar em lugar mais seguro. “Na idade dela, eu ouvia caras bons. Santana, Peter Frampton, Pink Floyd...”. Uniformizada, a maluca vem para a cozinha tomar café. E o som mandando fogo nas paredes da casa. “Minha filha, meus ouvidos não têm mais paciência pra isso... quem são esses caras que você ouve?”. E ela, com a cara mais impávida e a boca cheia de pão torrado: “Pink Floyd, mãe”.

quarta-feira, 6 de agosto de 2008

Autobiografia

ou Minha vida dá uma crônica!
Nasci no ano de 1415 do calendário Armênio, e o que me consola é que no Rúnico já era 2216. Só agora compreendo que o Gregoriano é o pacificador dos calendários. Era o ano do cavalo no horóscopo chinês e o ano internacional do arroz. Mas isto não influenciou em nada minha vida, que podia ter sido menos pálida se eu tivesse me deixado governar pelo fogo, pelo jasmim, pelo saxofone e pelo número 5. Bem, talvez o início da guerra do Vietnã naquele ano tenha suscitado em meu espírito um profundo desejo de paz, e a fundação da Igreja de Satã originado a impressão de um risco horizontal no meu olho esquerdo. Não sei.

A astrologia reversa diz que nasci Touro com a personalidade de Peixes. Paciência. O mundo andava muito louco em 1966... Manuel Bandeira fazia oitenta anos, ensinando ao mundo o Itinerário de Pasárgada, para onde finalmente aprendi a ir, mais de 30 anos depois. Nada mais. Apenas nascemos: eu, Zeca Baleiro e o terrorista iraquiano Abu Musab al-Zarqawi, enquanto a boca ávida de Bob Dylan procurava a gaita, nalgum lugar.

Em 1970, quando o Pelé voltou do México abraçado à taça Jules Rimet, eu ainda não tinha televisão em casa. Ainda não havia me dado conta de minha própria existência. Mas se tivesse televisão, certamente colocaria no canal do Capitão Aza. Um pouco depois o Etna entrou em erupção, a juventude entrou em erupção porque Jim Morrison se foi, as crianças entraram em erupção pelo maior parque de diversões do mundo, o Walt Disney World. Mas na época não fiquei sabendo de nada. Tinha cinco anos e talvez estivesse pensando no Nobel de Literatura do Pablo Neruda.

Passei os anos de 1972, 73 e 74 me guardando dos invernos implacáveis dos confins do Paraná. Nos dias hibernais, meu companheiro fiel era o Gato Felix, que me ensinou a compreender as primeiras frases escritas. De vez em quando a Vila Sésamo me despertava da letargia. Mas o ano de 1975 chegou e tudo o que me rodeava foi salvo dos insípidos anos de geada: descobri que existiam livros, e foi o princípio de um amor eterno, embora naquele tempo eu ainda saltasse de cima da cerca com uma fronha amarrada nas costas. Pensava que era o Flash Gordon.

1980 foi o primeiro ano do resto de minha vida porque topei de frente com o amor numa tarde de maio em que o sol de outono estendia caminhos amarelos sob as paineiras. Todos os amores que nasceram naquele ano foram embalados pela Imagine do beatle assassinado, pelos sonetos do Vinicius morto. O meu não foi diferente.

De lá pra cá dei mais 26 voltas ao redor do sol, plantando muito pé de flor que deu capim, capim que deu flor, e nada me desviou do caminho da circunspeção... nem a passagem do Halley, a queda do muro de Berlim, a carona que pegaram Drummond, Chico Mendes e Rubem Braga no relâmpago do adeus. Mas estive atenta ao mundo, vendo muita coisa que não queria ver e outras tantas que não pretendo morrer sem rever, como a chuva nas ruas esmigalhadas de solidão da cidade distante onde nasci.

Paro aqui de enumerar os anos porque daí pra frente “os céus se misturaram com a terra e o espírito de Deus voltou a se mover sobre a face das águas”, embora não tenha mencionado relevâncias como as palavras em polonês que aprendi aos seis anos, os pássaros de papel na tarde de Curitiba, a música para alegrar o dia que aprendi com uma índia Karipuna, o encontro com o poeta vestido de branco que canta ainda que faça escuro...

Já é 1457 no calendário Armênio, 2258 no Rúnico, e o horóscopo continua me prometendo um pouco de ternura depois da lua cheia. Mas tudo está bem, enquanto vou achando que sou zen. Amanheço abraçada ao tempo, construindo as manhãs com mais esperança do que raios de sol. Entardeço enumerando sonhos na margem do meu rio, derramando uma a uma as páginas do livro de areia de Borges. Anoiteço dançando entre os cristais do sentimento das gentes, e adormeço no cheiro dos cravos capturados nos quintais da infância que continua a arder no sonho. No peito trago a vontade insondável de voltar a ter cinco anos, e não saber de nada. No espelho vejo o olhar sereno de alguém que gosto. Meu velho gato Stefen Fry anda por perto, vendo passarem os anos e os temporais.

quarta-feira, 7 de maio de 2008

Nalgum lugar

Poema de E. E. Cummings- um dos inventores da poesia moderna - musicado por Zeca Baleiro, para ser lido em voz alta ou para ser ouvido a todo volume, a qualquer hora do dia, seja qual for o estado de espírito, disposição, humor, endereço...

Nalgum lugar em que eu nunca estive
alegremente além de qualquer experiência
teus olhos têm o teu silêncio.
No teu gesto mais frágil
há coisas que me encerram
o que eu não ouso tocar
porque estão demasiado perto.
Teu mais ligeiro olhar
facilmente me descerra
embora eu tenha me fechado como dedos
nalgum lugar.
Me abre sempre pétala por pétala
como a primavera abre
tocando sutilmente
misteriosamente
sua primeira rosa.
Ou se quiseres me ver fechado
eu e minha vida nos fecharemos
belamente, de repente
assim como o coração desta flor imagina
a neve cuidadosamente descendo em toda parte.
Nada que eu possa perceber deste universo iguala
o poder de tua intensa fragilidade
cuja textura compele-me com a cor
de teus continentes
restituindo a morte, o sempre
cada vez que respiras.
Não sei dizer o que há em ti que fecha e abre
só uma parte de mim compreende
que a voz dos teus olhos
é mais profunda que todas as rosas.
Ninguém, nem mesmo a chuva, tem mãos tão pequenas.

segunda-feira, 14 de abril de 2008

Canção da Chuva

Abre as janelas, Maria, que já começa a chuva... Desliga o rádio, a televisão, esquece o jornal com todas as previsões de sol para esta manhã, e vem ouvir a chuva que já escorre sua líquida canção por nossa soleira. Olha as mangueiras como estão caladas, os cachorros que das varandas deitam olhares aquosos para a translúcida paisagem, a cabecinha silenciosa do bem-te-vi que se abrigou no bojo da luminária, o velho que na rede submerge a alma em suas melhores lembranças trazidas pela chuva abençoada.
Abre, Olívia, primeiro as janelas dos teus olhos, onde a luz clarividente antecipa a melodia de cada gota que virá ensopar nosso domingo. Deita aqui, tua preguiça em meu colo, despeja os cabelos sobre o vestido que escolhi para ver a grama lavada, a terra lavrada ao peso da água, da chuva que nos choverá em cada palavra, movimento, suspiro, olhar, em cada brando gesto de tua candura.
Não rodopies assim tua alegria, Júlia, que a chuva se espanta! Não ria do anjo de penas ouriçadas que se debruça à janela à espera do sol. Deixa que ele esconda devagarzinho a cabeça entre as asas e se renda à mansa composição que o embalará para o sono. Serena teus gestos, estende teus braços meninos, sobe nas pontas de tua sapatilha de bailarina e colhe na palma uma gota para mim.
Vem, Maria, em passinhos miúdos ver as folhas secas que já cobriram a varanda, as ardósias afagadas pela enxurrada, que tudo isso é parte da canção. Levanta aos joelhos teu vestido, espicha assim as pernas e teu delicado sopro de vida ao meu lado, deixa molhar na chuva as pontas dos dedos de teu pezinho, nos pingos que se derramam fluidos sobre a verdura. Agora canta, Maria, com todos os teus cristais, esta canção com a chuva...

sexta-feira, 11 de abril de 2008

Exílio

Eu e meu anjo da guarda conhecemos o sentimento do exilado nesta hora neutra da madrugada. Na janela, junto ao gato que espreitava estrelas cadentes como a vaga-lumes, o anjo lamentava a impaciência da suicida Sophie Podolski, suspirava abstrações de Kafka, “tudo o que não é literatura me aborrece”, e me instigava a adjetivar o inconsumível e onipresente tempo nas páginas deste Lavoura Arcaica que soletro desde o início da estação, em lentos murmúrios, na esperança de que nunca se acabe.
Mas desde o início desta noite, anjo e eu rompemos a fronteira das salas, da sorte e das horas, exilando-nos da vida, para reencontrar, neste espaço transgredido e neste tempo recriado em exílio, a febre da própria vida e a captura do próprio tempo em Raduan Nassar:

“...rico só é o homem que aprendeu, piedoso e humilde, a conviver com o tempo, aproximando-se dele com ternura, não contrariando suas disposições, não se rebelando contra o seu curso, não irritando sua corrente, estando atento para o seu fluxo, brindando-o antes com sabedoria para receber dele os favores e não a sua ira; o equilíbrio da vida depende essencialmente deste bem supremo, e quem souber com acerto a quantidade de vagar, ou a de espera, que se deve pôr nas coisas, não corre nunca o risco, ao buscar por elas, de defrontar-se com o que não é.”

domingo, 6 de abril de 2008

A bela

Último da Série Ensaios Sobre a Ternura

Sua poesia a apavorava: Que bicho da seda teceu tua pele? Em que árvores de que montanha foste colher teus cabelos? De que minas de ouro tiraste tantos dourados? A cada dia um pedacinho dela era um novo tesouro. Desmanchava-se em ternos beijos. A bela enjoou. O queixo dele tremeu como o de um menino quando ela disse que precisava de uns trancos mais firmes, um palavrãozinho de vez em quando, umas mordidas. E como um menino com uma dor, deu um tranco bem firme na porta e não voltou mais.
Ilustração: obra de Joan Miró

O jogador


Série Ensaios Sobre a Ternura

A elegância. O porte. A firmeza das pernas e braços. É ele, sem dúvida. Um atleta ao primeiro olhar. Sorri com a diplomacia aprendida em terras distantes, onde jogou seu melhor futebol e povoou os sonhos das alvas estrangeiras com sua pele mulata e seus olhos verde-mar. Jogador internacional. Ao vê-lo, recordei a reportagem de poucos anos atrás, com chamada de capa, que enumerava as chances de sucesso do moço humilde nascido nas margens do rio, ao lado da foto em que exibia este mesmo sorriso de dentes perfeitos, embora antes mais confiante. É belo, ainda que neste outro uniforme. É ele, sem dúvida. É ele quem me recebe à porta da Estação dos Correios e Telégrafos, onde presta hoje serviços de vigilância.


Ilustração: obra de Joan Miró

quinta-feira, 3 de abril de 2008

Quimera

Série Ensaios Sobre a Ternura

Quando menino, sonhava com um par de botas e uma capa de chuva colorida, vermelha, laranja, azul, para passear sob as garoas e aguaceiros, brincar de deixar a chuva deslizar pela transparência da capa e respingar-lhe amorosamente o rosto, atolar-se de botas na felicidade das poças argilosas da rua. Quando velho, teve os melhores guarda-chuvas ingleses, as botas do melhor couro compradas no estrangeiro, para usar quando não pudesse evitar a saída. E nas janelas do casarão, cerrava as cortinas para não ver nunca mais aquele menino que lá fora iludia a quase indigência e continuava a brincar na chuva, sonhando com as botas, com a capa colorida, vermelha, laranja, azul...


Ilustração: obra de Joan Miró

domingo, 16 de março de 2008

Doçura

Série Ensaios Sobre a Ternura

Ai, que docinho quando ela sambava na frente da pia cantarolando “eu perdi o meu amor para uma novela das oito...” Me dava uma vontade horrível de arrancar aquele aventalzinho respingado de uma semana de sórdidas frituras e esmagá-la contra a parede da cozinha, até ela gozar. No dia em que eu resolvi agir ela trocou de música: “Um homem bonito assim, o que quer de mim, e o que ele fará comigo?”, suspirava a bandida, pensando em outro, e com o mesmo avental. Pra mim ela deixou de ser doce.

Ilustração: obra de Joan Miró

quinta-feira, 13 de março de 2008

Pássaros de papel

Série Ensaios Sobre a Ternura
-Pelo Dia Nacional da Poesia

A lembrança é remota, como das coisas que se vivem em sonho. Mas lembro que atravessava o Largo da Ordem numa tarde de ventos em que os canteiros da Praça do Relógio explodiam em flores de primavera em pleno verão de Curitiba. Foi então que o anjo, que neste dia andava calado ao meu lado, me disse ao ouvido: “olha o poeta...” E olhei, e vi que daquela vez não era mais uma promessa que me fazia o anjo, que costumava caminhar com a mão entrelaçada à minha sob as paineiras. O poeta estava mesmo ali, ao alcance de minha crença pueril de que a poesia podia ser vista com os olhos. A despeito do tempo, continuo acreditando. Estava ali, Leminski, com a elegância de “um homem com uma dor” que ganhava o tempo de toda uma tarde comovendo-se com os pequenos pássaros de papel que os colegiais libertavam sobre os gramados. Estava ali, recolhendo versos do quadro da tarde, e como se nos “olhasse de dentro de um diamante”, sorriu ao nos ver passar como passavam os pássaros de papel no vento, ou porque tivéssemos os olhos de quem testemunhasse uma aparição cósmica. “Leminski...”, sussurramos eu e o anjo, naquele instante cristalizado no tempo, e depois apenas o vimos se ir, telúrico e quase marginal, caminhando “assim de lado”, levado pelo crepúsculo, com um pássaro de papel colhido na concha da mão.

Ilustração: obra de Joan Miró

terça-feira, 11 de março de 2008

Hay que endurecer-se...

Série Ensaios Sobre a Ternura

O problema foi que ele entrou na minha vida com uma camisa do Snoopy e a barba do Che Guevara. Foi golpe baixo, porque o Snoopy era meu ídolo, o Che o meu tesão. Esperei que esgotasse em verbos suas más impressões sobre os meus princípios burgueses e perguntei a ele se me amaria se fosse ao contrário. Disse que não. Que seria muito esquisito se eu tivesse tesão pelo Snoopy. Foi-se, embrulhado em bandeiras, irredutível na camisa. Aí fui eu que endureci. Ternura nunca mais.


Ilustração: obra de Joan Miró

domingo, 9 de março de 2008

Constelação

Série Ensaios Sobre a Ternura

Morava neste endereço um sonhador que todas as noites dormia sob uma constelação. Deixou-me de herança esta casa vazia em cujos quartos os fantasmas me confundem com ele, o desamparo das paredes sem cor, o silêncio dos gatos habituados aos fantasmas. Mas na noite, quando a casa se rende às sombras e só o sono é o trajeto da fuga, acende-se em fosforescências a insólita constelação de néon colada no teto acima da cama, ao alcance da mão. Assim, nas madrugadas, em vez de acalentar solidões, realizo o desejo ancestral de tocar as estrelas.


Ilustrado com a natureza retratada pelo menino, pelo homem primitivo, pelo gênio contemporâneo espanhol Joan Miró, que morreu no natal de 1983 e não tem a menor idéia do que está acontecendo.

quinta-feira, 6 de março de 2008

A canção "la belle du jour", um poema qualquer do Vinicius e este cravinho amarelo para...

Diva Rojanski, Rosa Rente, Rebeca Braga, Heluana Quintas, Ana Martel, Lia Borralho, Maria Rojanski, Deyse França, Juliele, Elíude Viana, Dona Zefa, Cristina Almeida, Janete Capiberibe, Pérola-Pedrosa, Tanha Silva, Dulce Rosa, Ângela Beltrão, Helena Guerra, Olívia Rojanski, Márcia Corrêa, Patrícia Bastos, Oneide Bastos, Rose Oliveira, Marluce Salomão, Araciara Macêdo, Maria Picanço, Sônia Canto, Flora Pacheco, Raimunda Gracideth, Júlia Rojanski, Janeide Pessoa, Marli Mafalda, Girlene Oliveira, Carla Nobre, Ely Almeida, Ode Pessoa, Denyse Quintas, Sândala Barros, Lucidéa Portal, Marcela Leal, Kelly Maia, Adriana Abreu, Luciana Capiberibe, Sueli Pini, Leacide Moura, Iramel Lima, Tia Lucy, Elaine Juarez, Marici Rojanski, Richene Amin, Sol Pelaes, Artionka Capiberibe, Inakê Malheiros, Marina Beckman, Marta Lacerda, Vanea Avlis, Inês do Vale, Bárbara Castro!

terça-feira, 4 de março de 2008

Precisa-se

De Clarice Lispector
Sendo este um jornal por excelência, e por excelência dos “precisa-se” e “oferece-se”, vou pôr um anúncio em negrito: precisa-se de alguém, homem ou mulher, que ajude uma pessoa a ficar contente porque esta está tão contente que não pode ficar sozinha com a alegria, e precisa reparti-la. Paga-se extraordinariamente bem: minuto por minuto paga-se com a própria alegria. É urgente, pois a alegria dessa pessoa é fugaz como estrelas cadentes, tanto que até parece que só as viu depois que tombaram; precisa-se urgente, antes da noite cair, porque a noite é muito perigosa e nenhuma ajuda é possível se ficar tarde demais. Essa pessoa, que atenda ao anúncio, só tem folga depois que passa o horror do domingo que fere. Não faz mal que venha uma pessoa triste, porque a alegria que se dá é tão grande que se tem que repartir antes que se transforme em drama. Implora-se também que venha, implora-se com a humildade da alegria-sem-motivo. Em troca oferece-se também uma casa com todas as luzes acesas como numa festa de bailarinos. Dá-se o direito de dispor da copa e da cozinha, e da sala de estar.
P.S: Não se precisa de prática. E se pede desculpa por estar num anúncio a dilacerar os outros. Mas juro que há em meu rosto sério uma alegria até mesmo divina para dar.

segunda-feira, 3 de março de 2008

Definição de infinito

Poemas de Elíude Viana

O que dois pontos humanos
podem ser no universo dos desejos?
Podem ser estrelas...
Podem ser bichos...
Podem ser areia...
Ou podem ser nada
- o que pode ser tudo.


Duas velas

Levo o infortúnio de não ter
- como os relógios -
horas eternas...
Nem a felicidade
que têm os faróis
de ficar à deriva, indefinidamente...
Sou uma embarcação
- atracada -
querendo voar com as gaivotas.

sexta-feira, 29 de fevereiro de 2008

De Andréa Del Fuego

Não troco os lençóis há dois meses, e acho pouco. Dispensei todo pano entre mim e o colchão, a não ser que você traga uma toalha de mesa bem chacoalhada na varanda, sem migalha de vagabundo.
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O cabelo da mulher é a raíz da árvore. O caule é pensamento, as flores o desentendimento entre o fruto e a atrofia. O homem passa a vida querendo desenterrar a cabeça da mulher. Por nascer de uma, sua cruzada é perigosa e superior. Por isso me protejo.
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Cuidaremos nós dois de sua vida. Eu entro com a vontade, você com a preguiça. Assim tenho tempo de fazer minhas coisas enquanto intuo as suas. Vejo lucro, abarcar dois raciocínios sai caro, mas você não está aqui de graça.
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Selton Mello me ignora, e daí? Homens mais magros já me cortejaram, nem por isso correspondi. Seleciono quem me escolherá, só não decoro a idade dos janotas. Não desisto por menos de dois foras, rejeição se configura na quinta ou sexta negativa.
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A pressão sanguínea é baixa, onze por sete, de modo que suporto emoções a ponto de mantê-las latentes. Cubro qualquer oferta pela tua explosão, o borrifo de saliva no papel de parede. A roupa de baixo é solúvel, uso tatuagem de chiclete.
Ilustração do cabeçalho: Ray Caesar

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2008

Branquinha

Texto de Maria Rojanski
Vê só, marinheiro, os olhos ternos da moleca. Distantes. Longe, longe. Olha só. Ela se agacha à beira-mar, agarra na coxa a barra do seu vestido cravejado de flores, e o vestido a ilumina de flores. Sabes, marinheiro, aquela flor? A que só desabrocha inteira quando a lua clama, como que pra se deleitar à luz de prata? E a moleca se espreguiça, toda prosa. O remanso traz a água pra lamber com ternura seu pé descalço e casto, seu corpo é casto, na areia túmida. A moleca já põe a canoa no mar, está agora molhada de mar até os joelhos, segura, tira a água suja do fundo do barco com a cuia. Esse barquinho é à vela. Balança, treme. É quase noite no cais, marinheiro. Daqui pra mais tarde a moleca vai tirar o chapéu de palha, vai derramar o cabelo castanho nos ombros, vai vestir o vestido de brim e seus traços vão se insinuar no mexido da saia, na nuança do tecido. Ela estará fresca e serena na noite, ela terá sereno e cheiro de mar, sentimento de mar, ela virá dançante como a maresia, ela chegará como a brisa. Mas agora, que é quase noite, que ainda é dia, ela já se sentou na proa, ela pegou o remo e está remando, e remando... Marinheiro, meu amigo marinheiro, homem de bem, o que vai havendo? Ela está branca e iluminada, e vai sumindo no horizonte. Distante. Longe, longe. Não diga que é verdade que ela parte, marinheiro! A noite enfim desmaia, tem uma lua grande e pálida. Um homem entoa uma canção de lamento num cais distante, e tu entendes o homem, marinheiro.

sábado, 23 de fevereiro de 2008

Um beijo longo

De hoje até o dia 08 de março, Ave, Palavra! estará publicando textos de mulheres ou sobre mulheres. Para os homens provarem do biscoito fino que a gente fabrica. Esperamos que eles gostem, já que no final das contas é quase sempre pra eles o biscoito... A cada postagem trocaremos a foto do cabeçalho, de acordo com o que o texto nos inspirar. Este primeiro, Um Beijo Longo, é da Carla Nobre, um poema do livro Sobre o Adeus e o Encelado de Saturno, que nos emociona a cada releitura.

Eu tenho de ir
Moro no vento
No arco
Íris do teu olhar

Te deixo
Esse gosto do Atlântico
Que é conquista e travessia
E vai te fazer pulsar sem mim

Te deixo a minha boca
Ardida, desvairada e perdida
Que paira no teu peito, ar e mar...

Eu tenho de ir
A maré baixou
O encanto do gandavo
Tem hora certa para a dor
Para o "para sempre"
Perdido no fim de nós dois...

Me deixa ir
Que eu levo os sapatos e a escada
E deixo todas as estrelas de princesa coroada
Neste teu cetro incerto e desejado
Dentro de mim

Te deixo as melhores cartas do baralho
E você joga seu destino
Sem mim

Um dia a gente ainda se olha
E é tempestade por aí
Na nossa quentura
Do que não acaba jamais...

Me deixa ir
Que sou meio sereia
Vou ficando pelo mar
Você é meio capitão
Sempre dá para reencontrar
Antes de naufragar

Toma tudo de mim
O que me contém
Minha geografia em tuas mãos
Meu além

E eu vou indo nesse relâmpago de solidão, meu bem...

Foi tudo rápido cometa
Entre nós dois
Mas deu tempo de te fazer um relicário
Guardando o beijo longo do adeus...

E eu vou indo...

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2008

Desculpe, foi engano...

Engano meu, querido leitor, o crédito do texto "Eu sei, mas não devia". Minha Maria leu e veio correndo como uma criança de cachinhos ao vento me dizer "mãe, o texto não é da Clarice, é da Marina Colasanti". Talvez não seja tarde, embora seja confuso dizer: eu bem que desconfiava. É um texto parecido com Clarice, todavia diferente de Clarice...
Semana que vem trago nova postagem, não sei se novo texto, e nem sei se meu, que ando escrevendo pouco - pra não dizer escrevendo nada... Talvez um do Padre Antônio Vieira - encontrado junto ao da Marina Colasanti, no mesmo arquivo morto das cinzas do carnaval e durante uma mudança de endereço - que fala sobre o poder do tempo. Que sorte encontrar coisas assim para nos consolar quando se tem que deixar uma casa que a gente ama ainda que não seja nossa. Pelo menos o novo endereço tem mangueiras e vento do rio, que eu não sei o que seria de minha literatura se eu não tivesse uma grande janela para contemplar todo dia o infinito.
Sei que as postagens têm envelhecido por aqui. Mas as novas palavras hão de brotar, é uma questão de tempo. Assim me promete o Padre Antônio Vieira.

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2008

Eu sei, mas não devia

"Eu sei que a gente se acostuma. Mas não devia. A gente se acostuma a morar em apartamentos de fundos e a não ter outra vista que não as janelas ao redor. E porque não tem vista, logo se acostuma a não olhar para fora. E porque não olha para fora, logo se acostuma a não abrir de todo as cortinas. E porque não abre as cortinas logo se acostuma a acender cedo a luz. E a medida que se acostuma, esquece o sol, esquece o ar, esquece a amplidão. A gente se acostuma a acordar de manhã sobressaltado porque está na hora. A tomar o café correndo porque está atrasado. A ler o jornal no ônibus porque não pode perder o tempo da viagem. A comer sanduíche porque não dá para almoçar. A sair do trabalho porque já é noite. A cochilar no ônibus porque está cansado. A deitar cedo e dormir pesado sem ter vivido o dia. A gente se acostuma a esperar o dia inteiro e ouvir no telefone: hoje não posso ir. A sorrir para as pessoas sem receber um sorriso de volta. A ser ignorado quando precisava tanto ser visto. A gente se acostuma a pagar por tudo o que deseja e o de que necessita. E a lutar para ganhar o dinheiro com que pagar. E a pagar mais do que as coisas valem. E a saber que cada vez pagará mais. E a procurar mais trabalho, para ganhar mais dinheiro, para ter com que pagar nas filas em que se cobra. A gente se acostuma à poluição. Às salas fechadas de ar condicionado e cheiro de cigarro. À luz artificial de ligeiro tremor. Ao choque que os olhos levam na luz natural. Às bactérias de água potável. A gente se acostuma a coisas demais, para não sofrer. Em doses pequenas, tentando não perceber, vai afastando uma dor aqui, um ressentimento ali, uma revolta acolá. Se a praia está contaminada a gente molha só os pés e sua no resto do corpo. Se o cinema está cheio, a gente senta na primeira fila e torce um pouco o pescoço. Se o trabalho está duro a gente se consola pensando no fim de semana. E se no fim de semana não há muito o que fazer a gente vai dormir cedo e ainda fica satisfeito porque tem sempre sono atrasado. A gente se acostuma para não se ralar na aspereza, para preservar a pele. Se acostuma para evitar feridas, sangramentos, para poupar o peito. A gente se acostuma para poupar a vida. Que aos poucos se gasta, e que gasta de tanto se acostumar, e se perde de si mesma."
Texto vivíssimo de Marina Colasanti, encontrado em um arquivo morto, nas cinzas do carnaval...

segunda-feira, 28 de janeiro de 2008

La dolce vita

Sim, preciso confessar antes de dormir: conheço os ventos encanados de que fala Mario Quintana, aprendi um dia a fazer sapos de papel e depois esqueci, e morro de saudade dos sapatinhos brancos de verniz que usava quando tinha cinco anos. São três coisas doces na minha vida, que entre outras doçuras, me amparam dos eventuais desencantos. A lembrança dos ventos encanados me trazem de volta o cheiro da infância numa casa cujo porão abrigava o fantasma de Nina. O origami entrou em minha vida com a descoberta do amor por um menino japonês, quando tinha 12 anos. Mas esqueci como se arquitetava em papel tão logo o efêmero amor voltou para o Japão. Quanto aos sapatinhos, tinha dois ou três deles, mas era o branco que me proporcionava a ilusão de ser anjo. Não sei por que forças incompreensíveis e infinitas o diálogo com as coisas doces fica cada vez mais difícil, mas ainda se pode ter o consolo de saber que elas continuam existindo. Sei disso porque surpreendi algumas delas nos últimos dias... Numa noite recente, Nilson Chaves cantava no teatro "Noites com sol", do Flávio Venturini, e ao meu lado, um homem que não conheço aparou com uns dedos trêmulos uma lágrima furtiva de cada lado de seu rosto. E eu, que tenho carregado uns olhos secos por acreditar que dificilmente se recuperará a ternura que se perde todo dia um pouco, tive vontade de acender um sol na noite para aquele homem que se permitia emocionar-se com uma canção. Doce.
Neste domingo, depois de ver os filhotes de minha doce Sofia abrindo os olhos pela primeira vez, recebo as palavras encantadas de Margarida C. Primeiro numa visita ao texto "Um ano zen", depois em seu próprio blog, Carnets de Lisbonne 2008, a segunda casa de suas palavras - a primeira é a sua alma infinitamente poeta. "Para Rojanski", diz Margarida, e faz minha alegria ficar acordada até agora, que já nem é mais domingo. Margarida me é doce nesta noite.

domingo, 20 de janeiro de 2008

Campo de vaga-lumes

Um texto da gaveta, lembrado neste domingo de chuva
em que as árvores gotejam mangas...
Parecia um campo de pequenas flores fosforescentes, ou uma constelação que tivesse descido de sua imensa distância de anos-luz. E era na verdade um campo de vaga-lumes, que se estendia por quilômetros de beira de estrada, iluminando os confins da nossa viagem sem lua.
A foz do rio e a brava pororoca haviam ficado para trás há poucas horas, quando a chuva de todo um janeiro resolveu tombar impiedosa sobre as nossas costas. Em cinco horas de viagem rio acima, embora algumas aves noturnas principiassem a se exibir como se fosse noite, e as capivaras saíssem das tocas faiscando os olhos, e ainda as palmeiras se curvassem sobre o rio, vergadas ao peso da intempérie, encharcados sob o frio havíamos adormecido em nós a poesia. Desejávamos apenas chegar à margem que nos esperava, sonhávamos com um sol que nos desse o conforto do calor pelo resto da viagem.
Então descemos, ao final da tarde, na calmaria da margem pedregosa e palidamente ensolarada do rio Araguari, e depois de um breve descanso pegamos a estrada noturna que nos levaria à região dos lagos do Amapá, passando pelo campo de vaga-lumes.
Era noite quando começamos a ver os pequenos pontos fosforescentes à beira da estrada. Foi quando tivemos, como poucas vezes em toda a vida, a chance de voltar à infância. De mãos espalmadas nas vidraças do automóvel, ficamos ali parados, olhando o espetáculo, como quando crianças olhávamos as coisas que nos hipnotizavam de encantamento.
Um campo, um imenso campo se estendia até onde a vista não alcançava, de vaga-lumes que se moviam como impelidos pelo vento outonal da Amazônia noturna sobre a vegetação rasteira. Pareciam pequenas flores que se esquivassem sutilmente à intenção de colheita. E era o recôndito desejo que guardava cada um de nós: colher, ainda que fosse apenas uma.
Aos poucos, ao passo lento do automóvel cujos faróis rompiam as nuvens de poeira deixadas atrás dos caminhões apressados vindos de Oiapoque, os vaga-lumes – poeira das estrelas polidas por Deus, segundo os indígenas – foram rareando, até que ficaram na paisagem apenas as corriqueiras estrelas, tão antigas quanto o mundo, a nos dizer que um campo de vaga-lumes é pra se ver na vida uma só vez.

terça-feira, 15 de janeiro de 2008

O Amor nos Tempos do Cólera

Por enquanto tenho me contentado em “ouvir falar” sobre o filme O Amor nos Tempos do Cólera, mas tudo indica que meus sentidos não perdem por esperar que o filme chegue um dia ao cinema desta minha província. Meus olhos e ouvidos já se encantam com o trailer, que não canso de reprisar na internet. Antevejo em sonho o que acredito ter saído como resultado da bárbara história de amor de Florentino Ariza e Fermina Daza, personagens inesquecíveis de Gabriel García Márquez, que finalmente entregou uma de suas maiores criações a uma grande produção estrangeira. Algumas de suas obras filmadas anteriormente, como Ninguém Escreve ao Coronel, A Incrível e Triste História da Cândida Erendira e sua Avó Desalmada e A Má Hora – as duas últimas filmadas pelo brasileiro Ruy Guerra – não agradaram de todo ao escritor.
Embora Fernanda Montenegro tenha sido sondada para o papel de Fermina Daza, na maturidade da personagem, “ouvi dizer” que a secundária Trânsito Ariza, mãe de Florentino Ariza, o mocinho do filme, lhe caiu como uma luva, já que ela faz bem tudo o que faz. Outra coisa interessante no filme é a colombiana Shakira cantando La Despedida.
Estou, sim, me coçando pra ver logo o filme, e enquanto ele não mostra a cara por estas paragens, vou relendo trechos do livro. Aliás, de antemão acho que, por melhor que seja o filme, não deverá superar a beleza, a magia e a transcendência do livro mais lido de G. G. Márquez depois de Cem Anos de Solidão. Um trechinho pra revigorar os ânimos enquanto se espera...

“Florentino Ariza não deixara de pensar nela um único instante desde que Fermina Daza o rechaçou sem apelação depois de uns amores contrariados, e haviam transcorrido desde então cinqüenta e um anos, nove meses e quatro dias. Não tivera que manter a conta do esquecimento fazendo uma risca diária nas paredes de um calabouço, porque não se havia passado um dia sem que acontecesse alguma coisa que o fizesse lembrar-se dela”.

sexta-feira, 11 de janeiro de 2008

Um ano zen

Fernando Pessoa tinha toda razão: “O valor das coisas não está no tempo que elas duram, mas na intensidade com que acontecem. Por isso existem momentos inesquecíveis, coisas inexplicáveis e pessoas incomparáveis”. Pois é isto. Acabo de regressar de um período bem curto de retiro para o meio do matão amazônico, onde um rio de águas pacíficas lembra o rio de águas diáfanas de Macondo, onde a casinha de minha mãe parece ter escolhido o melhor lugar sob as nuvens que se desmancham em chuvas todas as tardes, e quase não percebo que outro ano chegou. É um lugar onde não se tem tempo de prestar atenção ao tempo que parece eternizado nas ruazinhas cor de poeira que se arrastam montanhas acima, nas cabeças tristes das vacas que também parecem, desde dez anos atrás, plantadas no mesmo lugar, na chuva que encharca devagar as cercas de tábuas e infesta o ar de um cheiro de terra e minhoca e madeira nova, na enxurrada que arrasta as acerolas e as fezes das galinhas que se ouriçam sob as hortas suspensas. Minha mala, que transportou para lá uns livros “mais áridos do que três desertos”, retorna para casa cheia de saudade desse tempo calcificado onde a intensidade das coisas possui outras medidas, outro gosto e outros verbos. Agora que chego é que vejo que é janeiro outra vez. Mas é tarde: o tempo já tem outro significado. E já que ainda assim as convenções obrigam a contá-lo, trato de consultar logo as previsões para Cavalo neste ano do Rato. Prometem-me um ano zen. Ótimo, mesmo que lá pelas tantas ele se apresente cin-zen-to.

domingo, 16 de dezembro de 2007

A quem interessar possa

Pensei em escrever um longo e tenebroso texto de despedida deste ano de 2007, um inventário de minhas perdas, de meus danos, e também de minhas perplexidades, como diria Manuel Bandeira – meu companheiro das tardes na rede. Mas em tempo percebi que não valia a pena, e apaguei mesmo a listinha bem sumária das coisas que me aconteceram neste ano ímpar – segundo o horóscopo chinês, péssimo para o meu signo: cavalo.
Embora tenham acontecido também coisas que me proporcionaram extrema felicidade, de qualquer modo já vais tarde, 2007! Estou em férias, volto em janeiro. Vou viajar, levar livros na bagagem, poesia no coração, e sobretudo a decisão de nunca mais correr atrás de uma borboleta - mas cultivar meu jardim para que muitas borboletas venham. “A vocês eu deixo o sono. O sonho, não! Este eu mesmo carrego!”
E para agradecer pelas visitas e alegrar os coraçõezinhos dos meus quatro ou cinco leitores, deixo um pouco do alento de Caio Fernando Abreu...

Alento

Quando nada mais houver,

eu me erguerei cantando,

saudando a vida com meu corpo de cavalo jovem.

E numa louca corrida

entregarei meu ser ao ser do Tempo

e a minha voz à doce voz do vento.

Despojado do que já não há

solto no vazio do que ainda não veio,

minha boca cantará

cantos de alívio pelo que se foi,

cantos de espera pelo que há de vir.

quinta-feira, 13 de dezembro de 2007

Encontro com Thiago


Thiago de Mello, poeta de Os Estatutos do Homem, me dizendo uma das melhores coisas que já ouvi na vida: "Você é uma pessoa que tem luz." Nunca mais vou me esquecer disso, e provavelmente, daqui em diante vou usar esta luz pra encontrar coisas melhores pela vida. E já encontrei este poema numa agenda esquecida. De Thiago de Mello:



Contigo aprendi

que o amor reparte

mas sobretudo acrescenta,

com o teu jeito de andar pela cidade

como se caminhasses de mãos dadas com o ar,

com o teu gosto de erva molhada

com a luz dos teus dentes

tuas delicadezas secretas

as alegrias do teu amor maravilhado...

inesperada como um arco-íris

partindo ao meio

unindo os extremos da vida

mostrando a verdade como uma fruta aberta.


sexta-feira, 23 de novembro de 2007

Anjo torto


Meu anjo cativo não me chamava mais de Maria, não fazia mais versos nem mais pousava na árvore que nos dias mais felizes do inverno chovia palavras. Quis ir embora antes que viessem as chuvas, antes que as dobradiças da porta de nossa velha casa rangessem ao peso da estação, e sua alma se compadecesse pela casa, e precisasse ficar por amor à casa. Eu disse vai, anjo torto, eu abro a porta para ti. Leva contigo tua mágoa, tua mentira anacrônica, tua preguiça invencível e teu pente de marfim. Vai, com tuas relíquias de cego, teus gestos de náufrago, tua mobília irrisória e o cajado invisível com que tanges teu cão infeliz. Leva a sede congênita de tantas noites insones, tua auréola de barro e os cupins de estimação... Eu fico, com minhas culpas, meus colares de contas, minha alegria roubada e meu medo de dormir. O anjo triste levou minha verdade incompleta, as máscaras da parede e o retrato de um menino entre os jasmins. Teve um olhar desumano sobre a minha confusão, sobre as minhas conjecturas, sobre o meu amargo perfil. Deixou sua sombra corcunda, um poema pela metade, seu itinerário vazio. Era bem sua hora de ir. Disse que estávamos mortos. E eu lhe disse que sim, como quem pudesse dizer o indizível. Saiu com a solidão do seu vício e da rua da sua infância, com a certeza do desamor e o desejo irrevogável de morrer. Deixou-me com minhas vírgulas, minha coleção de adjetivos, tecendo outros na escuridão. Levou o cigarro voraz da hora imóvel da madrugada, seu par de sapatos de corda e o navio libertário que conduzia seu destino em sonhos. Minha alma sentenciada disse vai, anjo errante, eu abro a porta para ti. E o anjo então se foi, arrastando as asas de papelão.

domingo, 11 de novembro de 2007

Porta-retratos

Série Breves


O porta-retratos estava abandonado há dias sobre o divã em sua sala. Nele, minha fotografia de três anos atrás, feita ao acaso, olhar distraído, mas feliz. Mais um dia fora de seu lugar e meu próprio rosto na fotografia poderia adquirir a expressão triste do abandono. Ele entrou com a animação de quem traz um presente, e tirou da pasta sob o braço um documento recém-impresso, cheirando à árvore e tinta. Antecipei um sorriso largo, antevendo o agrado. Como quem se prepara para mostrar uma relíquia, ele arredou o porta-retratos com dedos indiferentes, sentou-se no divã e me exibiu o pedigree do seu cão. O atestado da formidável linha de ancestralidade do seu animal. Olhei para ele com toda a intensidade, mas também com toda a serenidade que podia, e sem a menor sombra de incerteza, recomendei-lhe que o colocasse no porta-retratos.

quarta-feira, 7 de novembro de 2007

A solidão segundo o astronauta

Este fragmento do romance A Solidão Segundo o Astronauta, de Joca Reiners Terron, é uma das coisas mais tocantes entre o que tenho lido nos últimos tempos. Deu uma vontade enorme de compartilhar, como um amigo de Nélson Rodrigues, que ao ler Charles Dickens, teve vontade de sair de porta em porta anunciando: “Não espere mais. Leia já o ‘Pickwick’. Quem não leu o ‘Pickwick’ não viveu!”

“Um homem precisa primeiro soltar-se da placenta original, entre nódoas de sangue e lágrimas, em meio aos calores surgidos do atrito ainda desconhecido da pele, e rumar ao sol, à luz inaudita e abrasadora de um sol que cega os olhos inertes e desabituados a ver, para depois de novo ser afogado nas fezes, já liberto e uno, os joelhos sobre a grama dos jardins da primeira infância, gritos de prazer inocentes varando noites e os ouvidos do pai, os inebriantes fedores maternos ocupando todo o espaço em torno e então conviver com os pesares do crescimento, a espinha dorsal despontando ao céu, para assim outra vez estar só, habitando o mundo, solitário, com a vida apenas para si, e depois novamente se unir a outro corpo, em busca daquela dualidade da origem, e misturar-se com ele, para então mais uma vez cindir e se ver sozinho. Na merda.”

domingo, 4 de novembro de 2007

Recado a João

Da série Breves

Basta, João, basta de tocar violão na minha porta. Não quero ouvir mais esses teus acordes mal tocados, porque eles me doem no sangue. Se pelo menos tu soubesses, João, tocar uma promessa de noite enluarada, como consolo às intermitências da solidão. Mas tu só sabes dizer desse amor que não quero te dar, dizer que queres te matar. Pois quanto mais tu tocas menos te quero e mais estou só... E sempre esta música que diz que nunca chegas a mim! Tu não me fazes feliz tocando, João. Pra falar a verdade, tu tens sido o meu inferno. Se quiseres te matar, eu não ligo, mas não é justo que passes as noites trazendo de volta no desvario destas notas as coisas que foram e nunca mais serão. Cala essa tua música doída, porque não posso mais fechar a porta da rua, por onde espero a chegada de um dia melhor. Pensando bem, não te mates. Não te mates nunca, que eu até que te gosto. Apenas não toque mais, João.

domingo, 14 de outubro de 2007

Febre

Da série Breves Contos


Ele chegou no meio da vaga viagem pela noite. Trazia nas mãos um instante de febre e na boca uma tormenta para trocar pelo refúgio sob o meu vestido. Meu silêncio pediu apenas um momento de espera antes que entrasse, antevendo o risco e a delícia, mas seus dedos passeavam já pela geografia de minha nuca, descobrindo no tato o cheiro da rosa fresca, nascida na última manhã. Arrisquei um gesto desatado da palavra, os lábios ensaiando uma letra incógnita, aonde sua língua veio certeira encaixar-se, num movimento antecipado ao sim. Abandonei-me. Mãos sorrateiras, tentáculos de hera, se espalharam sem destino traçado, encontrando em breves percursos minhas entranhas em tempestade, seu falo em abalo sísmico. É a morte, ainda pensei, enquanto sua febre me desnudava na travessia incerta entre o corredor e o apocalipse. Agora o encontro marcado desde a porta. Os quadris do macho rompendo as sombras entre as pernas postas da fêmea, seus dedos opressivos maculando a alvura cósmica das costas, a boca lasciva em desvario entre o ouvido e o colo, os cheiros de flor e líquidos anunciando a queda vertiginosa. Minutos insondáveis de confusão de línguas, pernas, cabelos, mãos, num descompasso sincronizado em que a urgência do final rompia as linhas do tempo, da vida, da morte, até o gozo em alta freqüência. O gozo. Foi quando a verdade da lâmpada obtusa nos revelou atônitos mergulhados em olhos, por um minuto milenar, na mudez das coisas do quarto, no rumor quarto minguante, em mútuo reconhecimento. Voltamos então ao princípio. Ao verbo. Sussurrou-me odores, um hálito de promessa, uma língua de veludo morno. A pele dizendo do súbito, da felicidade clandestina, do segredo inviolável. Ainda agora permaneço em silêncio obediente, na quietude abismal dos verdadeiros segredos, porque nesta noite ele virá, trazendo outra febre.

terça-feira, 9 de outubro de 2007

Florzinha de papel


Da série Breves Contos



_ Sabe o que eu fiz com aquela florzinha de papel de guardanapo branca e leve como a pena de um passarinho que você me deu depois de misturar uns camparis com cerveja e dizer na frente de todo mundo que eu era gostosa que eu era “bonita pra burro” pensando que eu ia me impressionar só porque sabia de cor o Rondó de Efeito do Manuel Bandeira e ainda ter dito como se fosse a filosofia mais incrível que gosta mesmo é de viver como um cão sem dono sem precisar se dar pra ninguém e ter achado a maior graça do mundo quando eu disse olhando para o nada que tem gente que acha bonito ser canalha porque afinal de contas o Nélson Rodrigues veio com a idéia estapafúrdia de que ser canalha tinha poesia só que isso era nos anos 50 ou 40 não sei e todos os canalhas do Nélson caíram em desgraça mas você só prestou atenção nas partes em que eles tinham o mundo aos seus pés porque sabiam inventar verdades pra seduzir com os olhos mais limpos do mundo então você fez cara de sentimental com olheiras e disse com o maior cinismo que além da flor tinha pra mim umas pastilhas purgativas e nessa hora eu tive vontade de dizer só que fiquei sem graça e não disse que você está mais pra “O grande mentecapto” do que pra Don Juan com essa patética florzinha de papel que fica distribuindo pra qualquer fêmea desavisada que em pleno século vinte e um ainda acredita na sensibilidade do macho? Joguei na primeira poça de lama que encontrei quando fui embora.


domingo, 7 de outubro de 2007

Curta-metragem


De uma série de breves contos

Ela acendeu o último cigarro e fumou devagar. Prolongava sempre o prazer do último cigarro. A boquinha rosada, engelhando-se como um cuzinho ao contato com o filtro, movia-se fluida a exibir intelectualidades. “O melhor que vi foi do Godard”, disse, pensando que ao olhar a boquinha eu prestasse atenção ao que dizia. “Je vous salue, Marie”, concluiu, depois apenas se entregou ao gozo das mansas tragadas. “O melhor que vi está aí no telefone celular”, disse-lhe, juntando um pouco de sarcasmo, um pouco de tesão. Pegou o aparelho, certamente pensando na estranheza de eu achar mais interessante que Godard um daqueles breves vídeos sobre os acasos. Localizou as imagens feitas na véspera. Eu, macho ao último grau, em descarada cópula com a amante mais recente. Curtíssima metragem. Quatro segundos pré-gozo. Seis da sublime desmesura do gozo. Cinco de créditos aos suspiros e risos. “Godard é mais delicado, por isso mais macho”, ela disse apenas, sem mudar a expressão da boquinha rósea, desmontando meu cinismo e extraindo do fim do cigarro um último instante de prazer.

quarta-feira, 3 de outubro de 2007

“If you really want to touch someone… send them a letter”


Texto de Margarida C.


“A escrita é a única coisa que não se evapora. A única que não se tem jamais como negar ou tomar de volta. Ao limite, é assim como a derradeira generosidade de que ainda fomos capazes quando já não éramos capazes, acaso um dia o fim nos toque, seja por escolha ou ‘por magia’. É por isso que, de uma forma ou de outra, mais ou menos, melhor ou pior, eu escrevo. Escrevo sempre. Para que no auge de um qualquer ímpeto não leve tudo comigo quando me for embora. É o garante que ofereço aos outros de que, pelo menos, há de haver sempre qualquer coisa que lhes deixo, ainda que contra a minha vontade de nada consentir que lhes fique.”
“E é igualmente por isso que desconfio de todos os que nunca me escreveram nada. Um dia, se a vida nos separar, nem sequer o vago abraço das palavras terão consentido que ficasse comigo. Não é justo. E, por não ser justo, rebelar-me-ei sempre a que seja recíproco.”


Do blog Carnnets de Lisbonne 2007
carnnetsdelisbonne2007.wordpress.com

segunda-feira, 1 de outubro de 2007

Primeiras Chuvas


Memória

Aos nove anos tive meu primeiro contato com minha morte. Com a morte dos outros o contato foi anterior. Nina, por exemplo, a esquálida tuberculosa que morreu num quartinho abjeto ao lado de minha casa, vinha todas as tardes sentar-se à sombra de minha árvore, de onde me olhava com saudade da vida. Mas no improvável tempo de meus cinco anos, achava que todos os fantasmas humanos eram inofensivos. Aos nove, tinha medo da chuva. Foi a chuva o meu verdadeiro fantasma. Acreditava que qualquer garoa podia mudar de repente de humor e violar minha janela, minha cama, minhas cobertas.

Havia mesmo chuvas indomáveis, sempre na madrugada, que não se intimidavam em arrancar árvores do lugar, derrubar paredes, lançar ao chão telhados inteiros e tirar para sempre o nosso sono. Na manhã, eu ia para as ruas testemunhar a ressaca, e tinha pena e fascínio pelas casas destruídas, pela tristeza dos desabrigados, pelo desamparo dos quintais cheios de enormes galhos e cercas caídas.

Foi numa madrugada assim que a morte me acenou pela primeira vez. Na tormenta mais feroz daquele ano, os trovões explodiam em meu quarto, estremecendo a cama e acordando em mim um sentimento de orfandade. De olhos nos clarões que se abriam entre a mobília, eu pensava que aqueles relâmpagos tinham uma fúria que não era desse mundo, via o final dos tempos, e me encolhia diante da certeza de que um tufão me arrancaria da cama, me levando para a morte. E antes de completar 10 anos. Abandonei minha cama e me aninhei junto a meu irmão, cujo pequeno corpo ardia em febres de medo. Não sei quanto tempo se passou naquela madrugada antes que um tronco perdido na ventania abrisse um buraco na parede de tábuas e se alojasse em minha cama, onde a morte esperava me encontrar.

Do fundo das cobertas de meu irmão, pelo resto da noite vi pelo buraco a tempestade arremessando-se contra o mundo. Os que moravam na casa passaram a me olhar como se eu tivesse qualquer coisa de santo. Eu não. Mas depois disso as “chuvas tempestivas” e as “ventanias soltas” nunca mais me fizeram medo. Pelo contrário. Passamos a viver uma história de amor. Eterno.

domingo, 30 de setembro de 2007

Depois da chuva das duas


Texto de Maria Rojanski


“Meu pequeno menino, tanto relampeja, tanto é zinco este céu, tanto se anuncia esta chuva, a água ora parece a mais límpida, e é fria, é fria. O céu carregado de santa chuva conta-se chumbo, mas a tarde é tão clara, tão branca, querido. Meu pequenino. A copa da árvore cintila o verde das folhas e os jambos são mais saborosos quando assim molhados de chuva, quando assim a chuva é santa. A rolinha se esconde no regaço, acha abrigo entre os galhos. Vem, tu, menino querido, menino miúdo, também buscar teu abrigo, se aí estiver difícil. Aqui a rabeca arrebenta numa cantiga antiga, antiga, eu nunca vi. Não te sintas só, não fiques assim irritado, não te sintas magoado, não te digas pobre, que tu és grande. Tão grande, meu pequeno. Doce menino. Pálido e brando. É outubro, não te vejas um barco solto, não te vás mais para lá. Atraca neste porto e vem. Meu menino, é tão tolo dizer-te, mas a verdade é que ninguém tem culpa, é tão complicado, e não existe culpado. Não faça assim, enxuga teu olho de tua solidão. Se quiseres, se precisares, estou. Se não estiver bom, vem. Aqui tem música, aqui tem prosa, tem quem te ouça, tem colo e abraço, meu menino tão querido. Miúdo. Vem depois da chuva das duas da tarde, fazer passar tua dor”.

quarta-feira, 26 de setembro de 2007

Ballet


Deito-me na laje morna junto aos gatos que há horas se entregam lânguidos às próprias línguas. As últimas gotas da tarde escorrem em fios translúcidos sobre os telhados. No quarto fechado, a pequena bailarina ouve Chopin e dança de sapatilha “rota e fúlgida” o seu petit ballet, sem se importar que umas notas fugitivas do piano escapem por debaixo da porta e venham refugiar-se junto aos gatos. A este sinal, asas brancas dançam nas lonjuras azuis, nuvens dançam véus fluidos na atmosfera rosada, jovens e velhas folhas dançam de rosto colado às árvores. A bailarina vem para a laje, onde há espaço para o seu grand jeté. Chopin está vivo no quarto. Abraço um dos gatos, e num rompante de ternura, danço com aquele cego que não podia ver a primavera em Paris...



segunda-feira, 24 de setembro de 2007

Encontro com o Poeta


A segunda-feira mal desabando sobre a minha cabeça – depois de um doce sonho em que desembarcava em plena manhã de sábado para ir ver o encontro do sol com o rio – abro o portão para sair, e em frente à minha casa vai passando o meu amigo Poeta. Ia taciturno, observando as flores de jambo deitadas sobre as raras calçadas, e resmungava ainda umas notas de alguma canção que ouvira no bar onde provavelmente atravessara a noite. Se eu não me dirigisse à sua esquálida figura, não teria me visto. Iam com ele, sob o braço, aqueles mesmos originais que me mostrou cinco anos atrás, a sua obra, o seu suor, a alma do mundo traduzida em versos. Li-os naqueles remotos tempos e os achei belíssimos. “Bravo, Poeta”, disse-lhe na época, “em breve estará na livraria”. Ele se despediu de mim com lágrimas nos olhos. De alegria e confiança. Agora, de nosso breve encontro, o Poeta saiu novamente com lágrimas. Disse que ia enterrar para sempre a poesia no fundo de uma gaveta. Os originais, quase irreconhecíveis, tinham as nódoas deixadas pelas visitas inumeráveis a editoras, a órgãos do poder público, a empresários ocupadíssimos (e também riquíssimos), de onde ele sempre saiu com as mesmas respostas. Aquelas que foram embotando o seu poder criativo e a sua vontade de imprimir versos.


Disse adeus ao Poeta, sem coragem de lhe pedir que repensasse, que um dia alguém perceberia o tamanho da perda em não incentivar a publicação de sua obra, que coisa e tal... Não pude dizer para ele esperar. Não era justo. Minha antena, que há muito tempo não capta quase nada de novo no reino dos versos, sabe que os poetas têm vivido à margem do sistema literário, e as revistas especializadas mostram que a poesia é hoje um gênero esquecido pelos editores, apenas sobrevivendo num horizonte cheio de incertezas, porque o retorno do mercado é insignificante. É enorme a constelação dos poetas relegados aos confins do esquecimento.

Hoje acho lindíssimo ler Mário Quintana, João Cabral de Melo Neto, Paulo Leminsky, Manuel Bandeira, Manoel de Barros... e pra não dizer que só leio os brasileiros, já li um pouco de Pablo Neruda, Fernando Pessoa e Edgar Allan Poe – cheios de traças na última estante da biblioteca pública – e só, que eu também não costumo variar muito de poeta. Mas só pra completar a idéia, acho lindíssimo e tenho crises de tristeza por saber que depois deles, e dos outros que eu não leio – mas sei o quanto são grandes – não aparece nenhum novo poeta nas revistas, nos jornais, na televisão, nas livrarias. Ninguém mais faz alarde sobre um grande poeta de um desses centros urbanos inumeráveis ou de lá das lonjuras do Matão do Piaçacá. Simplesmente porque ninguém o descobre.

Quase lhe disse “não importa, Poeta, o teu sentimento, o teu transe, o teu lirismo, o teu apelo visionário, vive a tua angústia, que é dela que vivem os poetas.” Contudo, disse-lhe apenas – e muito sem graça – que maior que tudo isso é ter a poesia dentro da gente. Ele me olhou sem ilusão. Sabe que no ritmo em que vai, logo, logo, parte desta para melhor. E com ele vai morrer sua poesia, sem o abrigo perene encontrado por Bandeira, por Leminsky, Quintana, Neruda...

sexta-feira, 21 de setembro de 2007

Impressão anunciada


Nenhuma morte em toda a literatura que conheço me impressiona mais que a de Santiago Nasar. E digo isto com o verbo no presente porque acabo de reler “Crônica de uma morte anunciada”, de Gabriel García Márquez, e até o momento me encontro com o fôlego em suspenso com a morte do personagem. Eu não estou revelando aqui nenhuma surpresa do livro – sossegue, se ainda não o leu – pois a morte de Santiago Nasar tanto é anunciada no próprio título quanto na primeira linha do romance: “No dia em que o iam matar, Santiago Nasar levantou-se às 05:30 da manhã...”. Mas o que me é impressionante não é a brutalidade de sua morte, embora se possa ter uma vertigem à leitura de tanto sangue, nem as razões que levaram os assassinos a cometer tão primitivo e literário crime, mas o encadeamento de pormenores que tornaram uma cidade inteira sabedora do assassínio antes que ele acontecesse, sem que ninguém pudesse fazer algo para impedir. Os próprios assassinos, irmãos de uma mulher devolvida pelo marido na noite de núpcias, encarregaram-se de anunciar a quem passasse que estavam esperando Santiago Nasar para matá-lo, como se de algum modo desejassem que alguém pelo amor de Deus os impedisse. Por ceticismo, por indiferença, porque não houve tempo, e até em alguns casos por consentimento, a cidade inteira foi cúmplice de uma morte praticada a golpes de facas de estripar porcos, que por sua vez puseram pra fora, diante de centenas de olhos petrificados, todas as vísceras de Santiago Nasar. Contudo, Santiago Nasar morreu sereno, às sete horas da manhã, vestido de linho branco e sem saber porque morria, sob o sol radiante do Caribe, depois de ter visto passar o bispo dentro de um navio que nunca se detinha em seu povoado esquecido. A moça desonrada, sem nenhuma convicção do que dizia, o acusara de ter sido o seu “autor”.
Talvez esta minha dramática – mas sincera – impressão esteja ligada ao fato de García Márquez ter se baseado na morte real de seu amigo de infância Cayetano Gentile para escrever a história, reconstituída através de depoimentos, e só depois da morte da mãe do morto, Julieta Chimento, 30 anos depois, em respeito à sua dor. Impedido também por sua mãe, que tinha Cayetano como um filho, García Márquez não se sentiu “com ânimo para continuar vivendo em paz enquanto não escrevesse a história da morte de Cayetano”, conforme conta no livro autobiográfico “Viver para contar”.

Quando finalmente escreveu “Crônica de uma morte anunciada”, cujo tema literário definitivo é o da responsabilidade coletiva, a mãe disse que jamais o leria, pois “uma coisa que foi tão ruim na vida não pode ter ficado boa num livro”. Enganou-se. A força do realismo mágico de García Márquez neste livro nos faz esquecer sem culpa que Santiago Nasar é Cayetano Gentile, assassinado na porta da frente de sua casa, onde a mãe acabara de passar a tranca, acreditando que ele já houvesse se refugiado dentro.

quarta-feira, 19 de setembro de 2007

Meninas ao sol

Para Joana D' arc Gabriel

O sol tem nos esperado paciente naquele lugar onde mora a memória de nossos melhores dias. Se tu lá fores, vai como quem foge dos dias cinzentos de tua cidade de ipês amarelos, que eu deixarei aqui meu rio, meu barco de papel, minha garrafa de náufrago que guarda uma folha em branco, e passearei de mãos dadas contigo entre os gramados às vezes castigados pelo inverno, entre as papoulas agitadas pelos ventos constantes de nossa cidade tão alta. Desceremos as escadas que levam ao meio da praça e escolheremos o melhor canto para abrigar nossa saudade. Então rabiscaremos cadernos, faremos jogos infantis para descobrir o futuro, inventaremos poemas de sangue para quatro ou cinco daqueles nossos amores extraviados... Se quiseres, irei contigo visitar a casa da rua Tókio, quase oculta entre as samambaias, mas que deverá ainda guardar um pouco da doçura das meninas que debruçadas na janela do quarto espiavam a felicidade desenhada nas nuvens que pareciam encostar-se nos montes salpicados do gado branquinho. E tu irás comigo ao pequeno morro de onde veremos que o sol ainda é o mesmo, ainda que tantas sombras tenham vindo empalidecer por vezes as nossas tardes, ao passo desse tempo tão longo de nosso desencontro. Ou então, se for sábado, podemos outra vez pegar a estrada até Santa Isabel do Ivaí ou Santa Cruz do Monte Castelo, de onde voltaremos rindo depois, em qualquer boléia. Que só nos importe que seja sob o sol que está à nossa espera. E que ele seja generoso ao iluminar a lembrança daqueles teus cabelos que se derramavam em anéis dourados pelos teus ombros, na manhã em que fugimos da escola somente para assistir à passagem da própria manhã. De ti não possuo retratos, mas te vejo tão clara e tão bela sentada na calçada sob uma paineira, um pulôver vermelho, um livro gasto sob o braço, uns tênis muito brancos e um olhar de anjo livre sob os óculos. Com tua palavra simples poderás me ajudar a compreender as razões dos desencantos de agora, e para ti eu cantarei uma canção que devolva a ternura aos nossos olhares porventura endurecidos. Levarei aquele livrinho amarelo em que me escreveste em letrinhas reviradas que eu nunca esquecesse de nós duas. Guardo-o em minha gaveta há 25 anos. Deixa aí os ipês, que florescerão de novo na próxima primavera, que eu deixarei aqui as árvores que sob a chuva gotejam mangas. Vai, antes que o tempo. Antes que a vida. Que a lembrança. Vamos andar sob o sol de Loanda...

sexta-feira, 14 de setembro de 2007

Encontros


“Debaixo de minha pele alguém me olha esquisito pensando que eu sou ele”.
Affonso Romano de Sant’Anna

Todos os monstros que me habitam estão despertos nesta noite. Gostam da madrugada, quando me sabem de olhos acesos tecendo teias na escuridão, e fazem festa diante de minha cama. Tenho náuseas por seus sussurros jocosos, por seu tamanho vulgar, por seus disfarces de bons amigos, sempre prontos a comemorar em cirandas os meus passos incertos.
Há anos que estamos em guerra, e o da impaciência, rude como um demônio, tem me vencido em várias batalhas. Tem sempre um sorriso nos lábios, e com toda a paciência que guarda somente para si, instiga-me a quebrar os cristais que não possuo, a estilhaçar o espelho em que me vejo nua, a invadir a sala de meus inimigos e esbofetear sua máscara, a lançar o telefone silencioso contra o muro do itinerário vazio por onde estou de braços dados com o monstro da solidão.
Este, o único por quem guardo certa afeição, e com quem desde o meu princípio mantive íntimos solilóquios, deixou de me incomodar quando compreendi que ser sozinho nada mais é do que ser. Acalanto-o com poesia, Paulo Leminski, Manoel de Barros, com quem se compraz com cara de monstro tolo. Parece amar-me. Tenho-o em boa conta por seu franco amor. Ao primeiro sinal de minha introspecção, vem me buscar pela mão, e anda comigo por onde há alegria ou aridez, feliz como quem traz “uma flor na lapela e uma namorada no braço”.

Há um que até esta noite dormia como um gato na quietude de um crepúsculo de minha alma. Mas agora que volto exausta de uma madrugada de encontros com a face torta das fraquezas do homem, de suas implacáveis razões de ser tristes, de sua inércia congênita e de minhas próprias pieguices, encontro-o tão desperto quanto os outros, a olhar-me do fundo de sua inexpugnável presença. É o da desesperança. Seu olhar de esperança morta me contempla com certa tristeza, mas não se demora a me envolver em um abraço longo, como um amante, a sussurrar em meu ouvido que agora eu sou toda sua, me propondo esquecer para sempre a minha melhor lembrança...
Seus dedos lascivos passearão pelos meus cabelos enquanto adormeço nesta noite em que ele é o rei. Estou certa de que ao despertar, ele, então como um anjo subserviente, mas dono de mim, me trará ainda na cama o café da manhã.

segunda-feira, 10 de setembro de 2007

"O mais triste de um pássaro engaiolado
é que ele parece estar feliz."

Mário Quintana

sábado, 8 de setembro de 2007

A propósito da primavera – embora eu tenha a impressão de que em minha casa entre todos os dias um outono renitente – o amigo Caio, ou Z, como Maria gosta de chamar, veio me emocionar nesta manhã de sábado com um poema deixado na caixa de comentários da postagem anterior. Um poema delicado como as “chuvas suaves” que têm vindo na madrugada prosear com meu sono, como as “andorinhas adejando” pela atmosfera rosada das tardes de minha janela. Eis...


There will come soft rains
Sarah Trevor Teasdale – 1920

"Chegarão chuvas suaves e o perfume do solo,
E andorinhas adejando, com seu canto estridente.
E sapos nos charcos cantando de noite,
E ameixeiras silvestres, trêmulas e pálidas.
Todos vestirão sua plumagem de fogo,
Assoviando suas fantasias numa cerca baixa.
E ninguém saberá que há guerra,
ninguém se preocupará quando ela tiver fim.
Ninguém se importará, seja pássaro ou árvore,
Se a humanidade perecer totalmente.
E a própria primavera, quando despertar ao amanhecer,
Nem suspeitará do nosso próprio desaparecimento."

quarta-feira, 5 de setembro de 2007

... folhas novas, galhos que se deitam ao sol, luz da manhã nas asas do japiim, o vôo incólume da garça, intrépidos bandos de mergulhões, o rio indeciso entre ir e chegar, uns pés felizes sob a água morna do dia novo, mansas ondas abraçando a pedra nua, um papel branco perdido na alegria do vento, claras nuvens viajando no azul, um gosto de sol menino na boca, a vida em dobro... Ave, setembro!

sábado, 1 de setembro de 2007

Adeus, agosto

Já não era sem tempo que agosto terminasse. Por uma estranha combinação entre as energias negativas do universo, nosso agosto é sempre infeliz. Julho mal se fechava quando começamos a desconfiar de que neste ano agosto não nos surpreenderia com qualquer diferença. E desde o seu primeiro dia sentimos no peito um inusitado desconforto, como se a alma se sentisse estrangeira dentro do corpo e desejasse fugir para outras paragens. E com a alma ameaçando partir, sentimo-nos, por 31 dias, à beira da morte.
Tivemos medo de enlouquecer, como acontece aos cães, e até algumas vezes nos pegamos falando sozinhos, apresentando uma idéia e um argumento para nós mesmos em plena faixa de pedestres! Porque em agosto se morre e se enlouquece. Quando não, fica-se irremediavelmente suscetível.
Pois este agosto foi deveras triste... os pássaros confundiram a estação e perderam o rumo; um poeta morreu deixando um poema pela metade; entregamo-nos pusilânimes a gratuitas crueldades; os paradoxos se tornaram lógicos, e a filosofia daquele que é feliz em companhia da tristeza foi largamente aclamada; a distância entre a palavra e o gesto ficou maior, e as vírgulas invadiram as falas, tornando amargas as que seriam as mais ternas mensagens; os desejos se mostraram indomesticáveis e todas as perdas iminentes; todos os advérbios de modo foram gastos sem retorno; um barco zarpou em busca do mês de abril; nenhuma loucura foi perdoada e não houve abraços que fossem capazes de conter as agitações do espírito; a mentira assumiu o poder, reduzindo as coisas verdadeiras a meras banalidades; e como se não fosse suficiente o caos da espera infinita, do tempo multiplicado, da palavra que perdeu a razão porque não pôde ser dita, “no meio dessa confusão, alguém partiu sem se despedir*”...
Agosto se foi, e nosso coração desavisado ficou meio sem esperança no homem. Mas nestas primeiras horas de setembro já sentimos os ombros mais leves e pressentimos que devagar e sem alarde redescobriremos a confiança envolta na poeira do que passou. Sairemos da casca para receber o sol, como crisálidas. Escolheremos a primeira segunda-feira para nos sentar no banco de uma praça distante, ao crepúsculo, ainda que sozinhos, e nos surpeenderemos de que a vida agora pareça tão leve, apesar de tudo o que em agosto morreu em nós.

*Frase inicial da crônica Despedida, de Rubem Braga.